Nacional

Por que é preciso romper as engrenagens do sistema?

Julio Anselmo

18 de abril de 2026
star0 (0) visibility 0
Manifestação pelo fim da escala 6×1 | Foto: Roosevelt Cássio/SindMetal SJC

Estamos assistindo a guerras, uso de tarifas como arma para submeter países, ameaças autoritárias, chantagens diplomáticas e militares para garantir os interesses dos monopólios capitalistas. Trump expõe a face mais explícita da engrenagem da dominação imperialista e do autoritarismo da extrema direita. Quer tomar recursos naturais, dominar mercados, controlar tecnologias e subordinar países inteiros, sugando as riquezas produzidas pelos trabalhadores com suas multinacionais, que controlam economias nacionais inteiras. Subverte a ordem mundial para tentar reformatá-la para atender seus interesses nos marcos da disputa com o novo imperialismo capitalista ascendente da China.

O Brasil é um país historicamente dominado pelos EUA, embora também tenha forte presença da Europa e, mais recentemente, da China. As multinacionais dos países imperialistas controlam a economia nacional, determinam o que e como será produzido e drenam a riqueza produzida. Quando uma empresa estrangeira decide investir no Brasil, não é em prol do desenvolvimento do país, mas porque identificou uma área que pode ser explorada para obter lucro significativo.

Não se instalam setores de ponta no país. Para os países pobres, é relegado tudo que é secundário, já que é a posse dos setores tecnológicos e os segredos comerciais que garantem os superlucros dos imperialistas. Mesmo o que é investido aqui continua sendo propriedade das empresas estrangeiras. O excedente é remetido ao exterior, reinvestindo aqui apenas o suficiente para manter negócio rodando e, quando a empresa encontra oportunidade de lucrar mais em outro lugar, vai embora sem se importar com os trabalhadores ou com o desenvolvimento nacional, como aconteceu recentemente com a Ford.

Manifestação contra o tarifaço de Trump Foto Sindmetal/SJC

Subordinação política e econômica

Os defensores do capitalismo afirmam que se trata de formatar o país para que os negócios das multinacionais sejam atrativos, dizendo que outros países são mais competitivos. Ou seja, dão mais vantagens para as empresas sugarem recursos, explorarem trabalhadores, e as multinacionais lucrarem. A lógica perversa se revela: a dominação imperialista que obriga os países pobres a competirem para ver quem cria as melhores condições para sua classe trabalhadora ser explorada, e seu país, espoliado.

A dependência econômica anda junto com a subordinação política. Os governos que se mantêm nos marcos do capitalismo atendem sempre aos interesses das multinacionais, em primeiro lugar, e da burguesia nacional subordinada à burguesia imperialista.

Trump vem ameaçando interferir nas eleições brasileiras em favor do seu candidato, Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Lula mantém negociações com os EUA e pode entregar as terras raras para as multinacionais.

Falar em soberania no Brasil significa: romper com a dependência econômica e política. Não há desenvolvimento possível nem melhoria estrutural de vida para os trabalhadores enquanto setores fundamentais da economia estiverem subordinados a interesses externos; decisões estratégicas forem tomadas fora do país; e a riqueza aqui produzida for drenada para enriquecer os monopólios estrangeiros.

Máquina de exploração

Para ter vida digna para os trabalhadores, romper a engrenagem do lucro

Não se trata dos índices econômicos que o governo tanto comemora. É sobre a mesa que segue vazia, apesar da suposta inflação baixa, porque o preço dos alimentos está nas alturas, e o salário segue na baixa. É sobre trabalhar de segunda a segunda no aplicativo. Ou, mesmo com carteira assinada, ter que fazer um extra depois do expediente para complementar porque não sabe como chegar ao fim do mês. A informalidade segue elevada, corroendo direitos básicos. Mesmo com registro em carteira, a escala 6×1 continua arrancando o couro, e o salário está arrochado.

Tudo isso agrava a situação de pobreza e desigualdade social em todo o país, principalmente nas periferias. O acesso à saúde, educação, moradia, transporte e serviços públicos se deterioram. Basta ver a fila do INSS. Os trabalhadores sofrem com o aumento da violência tanto nas mãos do tráfico e das milícias quanto com a atuação assassina da polícia. A política de segurança elitista e racista segue criminalizando os negros e os mais pobres, enquanto protege a vida dos ricos.

Os feminicídios disparam com as mulheres sofrendo as consequências das medidas insuficientes dos governos que não investem na pauta de mulheres nem enfrentam as ideologias machistas proliferadas pela extrema direita.

Os povos indígenas são expulsos de suas terras pelo agronegócio e pela mineração. No campo, os pequenos produtores são esmagados por grandes conglomerados capitalistas.

Um programa da classe trabalhadora

Para que os trabalhadores tenham direito à vida digna, é fundamental acabar com a escala 6×1, reduzindo a jornada para 36 horas sem reduzir os salários, garantindo um salário mínimo calculado pelo Dieese. É preciso garantir empregos de qualidade sem precarização e ampliar o que os trabalhadores de aplicativo recebem por corrida ou entrega. Hoje ficam com a menor parte do valor, enquanto a maior parte vai para o lucro da empresa, que tem baixíssimos custos.

Também é necessário o perdão às dívidas dos trabalhadores, que sofrem com as altíssimas taxas de juros que enriquecem os bancos. É necessário pôr fim ao arcabouço fiscal e suspender o pagamento da dívida pública, que sufoca a educação e a saúde, além de realizar investimentos maciços em moradia e recursos para o combate à violência racista, machista e lgbtfóbica, e mudar a política de segurança, desmilitarizando a polícia e legalizando as drogas para combater esse negócio capitalista ligado à Faria Lima.

Como tudo isso seria possível? Enfrentando os interesses das 200 maiores empresas que impedem a melhoria na vida dos trabalhadores. Se tirarmos do lucro de bilhões controlado por multinacionais e grandes empresas, é possível garantir os interesses dos trabalhadores.

O grosso dos impostos ainda é pago pelos trabalhadores apesar da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Os capitalistas drenam os recursos públicos por meio dos mecanismos da dívida pública. É preciso sobretaxar os lucros e dividendos como primeiro passo, mas ir além, atingindo o próprio funcionamento do sistema capitalista que alimenta a concentração de riqueza, de um lado, e vida dura para os trabalhadores de outro, aprofundando a desigualdade e todos os problemas sociais.

Um programa para romper o sistema capitalista

Garantir soberania, reindustrializar e desenvolver o país de verdade

Os defensores do capitalismo dizem que este programa seria impossível porque a burguesia não permitiria ou haveria fuga de capitais. Isso se supera indo à raiz do problema do Brasil, tirando o país do atraso, da decadência econômica, se reindustrializando, rompendo com a subordinação ao imperialismo.

Não é do interesse de nenhum setor burguês, imperialista ou nacional, desenvolver o Brasil. Eles ganham mais dinheiro justamente mantendo o país no atraso. Mudar isso colocaria em risco seus lucros. Por isso não tem como ter soberania e reindustrializar o país, gerando um desenvolvimento que ataque os problemas sociais, sem expropriar setores-chave da produção nacional.

Propomos como primeiras medidas: a expropriação de setores que cresceram a partir de investimentos públicos, como mineração, petróleo, energia elétrica e siderurgia, todos entregues à privatização e à desnacionalização, e reestatizá-los sob controle dos trabalhadores; criar uma empresa estatal para as terras raras, para processarmos esse material aqui, sob controle dos trabalhadores e não das multinacionais; tomar o grande agronegócio da JBS, Marfrig, BRF, Cargill, Ambev e Bunge, que sufoca os pequenos produtores e dolariza a cesta básica; controlar os capitais, proibir a remessa de lucros ao exterior e avançar a nacionalização do sistema bancário.

A renda desses setores deve ser direcionada a um planejamento econômico que permita ao país dar um salto e implementar as medidas que atendem aos interesses dos trabalhadores, o que hoje dizem ser impossíveis.

Bolsonarismo

A engrenagem do ultraliberalismo e do autoritarismo

Flávio Bolsonaro é a expressão eleitoral da extrema direita. Defende o capitalismo sem disfarce, com um projeto de subordinação econômica total do país, a entrega irrestrita das riquezas nacionais, a submissão política aos Estados Unidos e a destruição de qualquer direito dos trabalhadores. Combina-se a isso o autoritarismo, a violência contra mulheres, negros e LGBTI+ e o obscurantismo. Enfrentar e derrotar o bolsonarismo é uma tarefa fundamental para os trabalhadores. Para isso é preciso romper o sistema capitalista que o alimenta.

PT

A engrenagem da conciliação e do social-liberalismo

O PT é o partido que mais governou a Nova República. É corresponsável, junto com a burguesia e a direita, pela decadência do país. O governo Lula administra a dependência do Brasil, negociando com todos os imperialismos sem enfrentá-la de fato.

Mesmo as medidas progressivas são insuficientes. Depois de muita luta dos trabalhadores, o governo apresenta uma proposta de fim da 6×1 reduzindo a escala para 40 horas quando o movimento exigia 36 horas. É sempre a lógica de rebaixar tudo ao gosto do centrão e da direita. Mesmo essa medida está a serviço de manter os trabalhadores subordinados à burguesia e a um projeto neoliberal com inclusão social mínima.

Os trabalhadores não podem confiar no governo. Este mandato de Lula bateu o recorde de privatizações e concessões: foram 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos, contra 45 de Bolsonaro e 26 de FHC.

Os trabalhadores precisam se manter independentes, fortalecendo uma oposição de esquerda com programa revolucionário e socialista. Esse é o caminho para derrotar a extrema direita de verdade.

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop