A Operação Vectura Corrupta levou à prisão do ex-vereador Milton Leite (União Brasil) em Mogi das Cruzes (SP), no dia 18 de setembro, revelando mais uma face da influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia e na política de São Paulo. Também foi preso o candidato a deputado estadual Danilo Morgado (PL) e há mais 16 investigados.
Milton Leite e Tarcísio: “parceria enorme”
Milton Leite foi vereador por 27 anos, de 1997 a 2024, e presidente da Câmara dos Vereadores de São Paulo por longos períodos. Acumulou tanto poder que chegou a ser visto como o verdadeiro prefeito da capital, especialmente na gestão do completamente sem graça Ricardo Nunes (MDB). Já apoiou Marta Suplicy (na época no PT), Bruno Covas e João Dória (PSDB) e hoje está com Tarcísio de Freitas (Republicanos).
As investigações apontam Leite como o “dono de fato” da Transwolff, uma das empresas de ônibus da capital através das quais o PCC lavaria dinheiro do tráfico de drogas. Em função disso, desde abril de 2024 a Prefeitura decretou intervenção nela e a SPTrans passou a gerenciá-la. Pelos veículos da companhia, passam cerca de 500 mil passageiros por dia, centralmente nas zonas sul e leste da capital.
A relação do político com empresas de ônibus vem do começo dos anos 2000. Naquele período, a então prefeita Marta reorganizou o sistema de transporte público e Leite atuou fortemente a favor dos interesses dos perueiros, donos de transportes informais, que se juntaram em cooperativas para assumir fatias do novo sistema, especialmente nas periferias. A Transwolff nasce, inclusive, de uma dessas associações.
Atualmente, “Miltão” e seus filhos, os deputados Milton Leite Junior e Alexandre Leite, atuavam na campanha à reeleição de Tarcísio. Como revelou o portal Metrópoles, o governador declarou em evento na zona sul no final de agosto: “Assim que nós chegamos em São Paulo, nós fomos abraçados por eles, uma parceria enorme, e o tempo todo eu vi a preocupação com as pessoas. Gente que gosta da gente, gente que gosta de vocês”, reafirmando um carinho especial por famílias com ligações suspeitas.
Da privatização da CMTC à máfia dos transportes
Há um fio que liga o quadro atual à privatização dos serviços de transportes. O transporte clandestino ganhou espaço crescente, especialmente nas periferias, após a privatização da Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC).
"Houve uma grande crise de transporte naquela década. O setor clandestino ganhou muita força, gerando interesse dos membros da facção [PCC] que estava crescendo", contou à reportagem da Folha de S. Paulo o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo.
Hoje, segundo a investigação do MP, 12 das 22 empresas de ônibus de São Paulo seriam controladas pelo PCC. Isso corresponde a nada menos que 72,9 milhões ou 41% dos passageiros transportados por mês.
A facção colocaria no comando das companhias “laranjas” para obedecer ordens de chefes da organização. Sob essa fachada se dariam vários negócios ilícitos. O volume de recursos correntes, a proximidade com autoridades e a relativamente baixa necessidade de investimento seriam fatores atrativos para lavagem de dinheiro no setor. Mas as implicações disso vão além do mero poder econômico.
“Quando uma organização criminosa passa a controlar transportes, ela não está simplesmente abrindo mais uma frente de negócios. Está construindo uma infraestrutura de poder em parceria com segmentos do Estado: controla a circulação, amplia mercados, regula territórios, interfere na vida cotidiana e acumula capacidade de negociação econômica e política”, escreve a antropóloga e cientista política da UFF Jacqueline Muniz, em artigo no Brasil247.
Outras autoridades paulistas suspeitas de envolvimento com o PCC
- José Augusto Coutinho,comandante-geral da PM de Tarcísio até abril, e mais dois altos oficiais, foram citados em áudios e planilhas financeiras do PCC.
- Cezinha de Madureira (PL), deputado federal foi alvo de operação da Polícia Federal em 14 de setembro em investigação sobre crimes como tráfico de influência e corrupção. Seu apelido vem da forte ligação à cúpula da Assembleia de Deus Ministério de Madureira. Emprega em seu gabinete um ex-PM expulso da corporação após investigação aponta-lo como mandante do assassinato de um cabo que fez um dossiê sobre sua ligação com o PCC.
- Senival de Moura (PT), vereador preso em junho deste ano, por suspeita de fazer parte de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC envolvendo uma empresa de ônibus. Está em liberdade atualmente, mas continua sendo alvo de investigações.
- Levi de Oliveira, ex-presidente da SPTrans, empresa municipal responsável por gerenciar, planejar e fiscalizar o sistema de transporte público coletivo por ônibus na cidade de São Paulo.
O sistema é pilantra
O episódio atual faz parte de um quadro mais amplo. A profunda relação do PCC com políticos, policiais de vários níveis hierárquicos e empresários, vem ficando mais nítida. Enquanto as autoridades mantém publicamente um discurso linha dura contra o crime organizado, seus representantes vão se multiplicando dentro do Estado e da “economia legal”, não tão distinta, afinal, da ilegal.
Uma face é a detalhada pela Operação Carbono Oculto, coordenada pela Polícia Federal, Receita Federal e GAECO/MPSP em 2025. Ali ficou demonstrado como o dinheiro sujo do PCC se dilui na em investimentos em postos de combustíveis Brasil afora, fintechs na “Farinha” Lima, portos, padarias chiques no centro de São Paulo.
Esse capital “batizado” se mistura à circulação geral e faz girar a roda do sistema todo. Isso apesar dos discursos raivosos da FIESP em apelos ridículos por mais dureza no combate ao crime. É que o capitalista “é um homem prático, que nem sempre sabe o que diz [...] fora de seu negócio, mas sabe muito bem o que faz dentro dele”.
A outra face é o braço político do qual Milton Leite parece ser um dos maiores representantes. Exemplos como esse ajudam a explicar a amplitude do poder do PCC, possivelmente inalcançável sem a ajuda dos políticos burgueses. Juntemos as duas pontas agora.
Quando chamamos o PCC de empresa capitalista do crime é justamente porque seu desenvolvimento tem total conexão com a propriedade privada capitalista. Empresários “legítimos” e “criminosos”, junto de seus representantes políticos, têm interesse em fazer do nosso direito de ir e vir uma mercadoria pela qual usamos um serviço ruim e que, ainda assim, dá muito lucro e poder para um punhado de pilantras.
Precisamos articular maneiras de mudar esse jogo. Não existe ainda um meio nítido para isso. Mas é um ótimo ponto de partida colocar a necessidade do controle estatal do sistema de transporte de forma democrática, ou seja, com base no poder do povo trabalhador.
Quando descobrirmos como fazer para chegar lá, de uma vez só tiraremos as forças do crime organizado e dos governantes privatistas.