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Quem tem medo da delação de Vorcaro?

Phill Natal

25 de março de 2026
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Após prisão, Daniel Vorcaro assina termo de confidencialidade e pode fechar delação premiada | Foto: Redes Sociais/Reprodução

Longe de um desfecho, o escândalo da fraude do Banco Master acaba de inaugurar um novo e explosivo capítulo: a possível delação premiada do banqueiro mafioso Daniel Vorcaro à Polícia Federal (PF). No último dia 19, Vorcaro assinou um termo de confidencialidade e foi transferido para a carceragem da Superintendência da PF, em Brasília. O objetivo era discutir os termos para o fechamento de um acordo que já vem deixando os três poderes da República de cabelo em pé.

O pânico em Brasília tem razão de ser. Uma figura como Vorcaro sempre teve trânsito livre entre alguns dos nomes mais proeminentes da política, circulando entre representantes da extrema direita, do Centrão e até figuras do próprio governo Lula. Mas a teia de relações promíscuas do banqueiro não para por aí. As recentes revelações das investigações colocaram também a cúpula do Judiciário, incluindo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes, no epicentro da crise.

O caso do Banco Master não é apenas um escândalo financeiro. Se Vorcaro falar, o que pode vir à tona é algo muito maior: a forma como os grandes capitalistas se infiltram no aparelho de Estado, compram influência, constroem proteção política e buscam garantir impunidade quando seus negócios entram em crise. Em outras palavras, o que o gangster pode expor é a engrenagem que liga banqueiros, grandes empresários, políticos, juízes e governos em um mesmo circuito de favores, interesses e blindagens. E é precisamente isso que assusta Brasília.

Empurra-empurra

Desde que as fraudes do Master vieram à tona, no ano passado, o que se viu foi um grande jogo de empurra-empurra, no qual cada setor tenta jogar a responsabilidade no colo do adversário. A extrema direita aponta para o governo Lula como responsável. O governo, por sua vez, tenta reduzir tudo a uma herança do bolsonarismo. O Judiciário tenta posar de poder neutro, como se estivesse acima da crise. Mas, quando se coloca a lupa mais de perto, nem a extrema direita, nem o Centrão, nem os governos do PT e estaduais, nem o Judiciário saem ilesos.

É fato que Daniel Vorcaro conseguiu impulsionar sua falcatrua durante o governo Bolsonaro, com o Banco Central sob a presidência de Roberto Campos Neto. Nesse período, desenvolveu relações sólidas com governadores, senadores e deputados da extrema direita e do Centrão. Por outro lado, a mutreta seguiu no governo do PT, e Vorcaro contou com o auxílio de nomes ligados ao próprio governo, como Rui Costa, Jacques Wagner e Guido Mantega, para articular um encontro com Lula em dezembro de 2025, três meses depois do início das movimentações suspeitas no Master.

Já no STF, a atuação do então relator do caso, o ministro Dias Toffoli, foi, no mínimo, suspeita. Primeiro, decretou o sigilo das investigações e tentou impedir que a PF analisasse as provas contra Vorcaro. Depois, descobriu-se que Toffoli é sócio da empresa que vendeu participação em um resort de luxo ao banqueiro. A repercussão e o desgaste foram tão grandes que o ministro acabou sendo afastado da relatoria. Além disso, como se já não bastassem as trocas de mensagens atribuídas ao banqueiro e ao ministro Alexandre de Moraes, soma-se a recente revelação do contrato de R$ 129 milhões entre Vorcaro e o escritório de advocacia então ligado a Viviane Barci, esposa de Moraes.

Não é um caso isolado, é a regra no capitalismo

O caso Master, portanto, vai muito além de um mero escândalo de fraude financeira. Ele expõe, a céu aberto, como o grande capital captura o Estado e suas instituições, bem como seus operadores políticos em todas as esferas de governo, para proteger seus negócios, garantir lucros e assegurar a própria impunidade. O que estamos vendo não é apenas a ação isolada de Vorcaro, nem a crise de um banco, muito menos um simples caso de desvio moral individual. O que está diante dos nossos olhos é a relação promíscua entre a burguesia, seus operadores políticos e as instituições do Estado burguês.

Trata-se do uso das instituições do regime em benefício próprio, tanto por Vorcaro quanto por seus agentes, que transformam a Câmara e o Senado em terreno de influência e blindagem, os governos em espaços de acesso privilegiado e favorecimento, e o Judiciário em mais uma peça dessa engrenagem de proteção. Nada disso é acidental, pois é assim que funciona a República dos ricos.

Quem tem medo da delação de Vorcaro não é apenas este ou aquele nome que possa aparecer em uma mensagem ou na agenda de contatos do banqueiro, embora esses também tenham motivos para temer. Teme a delação todo setor do regime que, de uma forma ou de outra, cruzou seu caminho com o do banqueiro, abriu portas para seus negócios, ofereceu proteção ou se beneficiou de sua rede de influência. Ou seja, o que se teme é que venha à tona o funcionamento de toda essa engrenagem corrupta e altamente lucrativa.

Combater a corrupção e o capitalismo

Entretanto, mesmo nos marcos deste sistema e deste regime dos ricos, a corrupção precisa ser enfrentada e combatida. Não pela perspectiva hipócrita da direita, que só denuncia a corrupção dos adversários para proteger a corrupção dos seus, nem pelo discurso vazio da “ética na política” de uma esquerda da ordem. O combate consequente à corrupção exige unir a denúncia dos esquemas e privilégios à exigência de investigação rigorosa, à punição exemplar de todos os corruptos e corruptores e ao combate do próprio capitalismo, que é o terreno em que tudo isso se reproduz.

O problema é que essa luta só pode ser levada de forma coerente, consequente e até o fim a partir de uma posição de independência de classe. E é justamente isso que o PT e a esquerda adaptada ao regime não podem fazer. Sua política de conciliação de classes e de administração do capitalismo não apenas os impede de enfrentar a corrupção de maneira real, como também os arrasta para dentro da própria crise que dizem combater.

No fundo, é isso que o caso Master escancara. A República dos ricos não funciona apesar dessas relações, mas por meio delas. É assim que os capitalistas financiam influência, governos abrem portas, parlamentares operam interesses e setores do Judiciário garantem blindagem. Por isso a possível delação de Vorcaro causa tanto medo. Porque ela ameaça arrancar o verniz institucional e mostrar, sem maquiagem, como o Estado burguês opera a serviço dos de cima e contra os de baixo.

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