O Relatório de Conflitos no Campo Brasil, publicado em 27 de abril pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apresentou os dados sobre a violência no campo em 2025 e comparou-os aos anos anteriores. O levantamento revela um aumento no número de assassinatos relacionados aos conflitos agrários entre 2024 e 2025.
Segundo o relatório, o número de vítimas fatais em conflitos no campo dobrou em relação ao ano anterior. Os dados mostram ainda que a Amazônia concentrou 61% das 26 mortes registradas. Embora tenha havido uma redução de 28% no número total de conflitos — passando de 2.207 ocorrências, em 2024, para 1.593, em 2025 —, a CPT destaca que os conflitos por terra continuam sendo a principal forma de violência, representando 75% dos casos. Em seguida aparecem os conflitos trabalhistas (10%), os conflitos por água (9%) e aqueles relacionados a acampamentos, ocupações e retomadas (6%).
A disputa pela terra, portanto, continua sendo a principal expressão da violência no campo, tendo a Amazônia como seu epicentro. A região permanece marcada pela dependência do capital externo e pela expansão de um modelo econômico agroexportador e minerador, concentrando o maior número de assassinatos.
Gilberto Marques e Indira Rocha, no livro Luta camponesa e reforma agrária no Brasil (Editora Sundermann, 2015), afirmam que as políticas voltadas para a Amazônia são concebidas para atrair investimentos estrangeiros e facilitar a entrega de riquezas naturais às grandes corporações. Gilberto Marques também argumenta, no livro Amazônia – riqueza, degradação e saque (Expressão Popular, 2019), que, à medida que se intensifica o saque das florestas, dos recursos hídricos, do solo e do subsolo, aumenta também a pobreza das populações locais.
O relatório da CPT também traça o perfil das vítimas e dos acusados nos conflitos. Entre as vítimas predominam indígenas, quilombolas e posseiros. Já entre os acusados, destacam-se fazendeiros e empresários. Os dados indicam que as terras tradicionalmente ocupadas seguem sendo alvo de disputas, evidenciando um processo de apropriação territorial e de expropriação das comunidades em benefício do avanço do agronegócio e da mineração.
Outro aspecto abordado pelo relatório refere-se aos conflitos trabalhistas. Em 2025, foram registrados 159 casos de trabalho análogo à escravidão, resultando no resgate de 1.991 pessoas. Vale lembrar que a chamada "lista suja" do trabalho escravo foi suspensa durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), sendo necessária uma decisão do Supremo Tribunal Federal para garantir sua constitucionalidade.
Em outras palavras, para aqueles governos, o problema não era a prática do trabalho escravo, mas a divulgação dos nomes dos empresários envolvidos. A publicação da lista foi retomada no governo Lula (PT). No entanto, críticas também são dirigidas ao atual governo, como no caso da anulação dos autos de infração da JBS pelo ministro Luiz Marinho e das denúncias de perseguição a fiscais do Ministério do Trabalho.
Os conflitos relacionados às relações trabalhistas revelam o grau de exploração a que está submetida a classe trabalhadora em pleno século 21. Mesmo diante dos avanços tecnológicos, com a utilização de drones, robôs e sistemas automatizados, o capitalismo não eliminou formas degradantes de exploração, mantendo trabalhadores em condições análogas à escravidão.
As atividades de hidrelétricas e mineradoras têm sido apontadas como uma das principais causas dos conflitos por água. Em Barcarena, no Pará, comunidades quilombolas denunciam há anos a atuação da Albrás/Alunorte, em razão dos impactos causados por vazamentos de rejeitos e pela contaminação dos rios. As populações locais também resistem à exploração de petróleo na Margem Equatorial, exigindo que suas demandas sejam ouvidas. Apesar disso, o presidente Lula chegou a classificar como "lenga-lenga" as exigências do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a concessão das licenças ambientais.
Também existem denúncias contra empresas do agronegócio ligadas ao cultivo de dendê, que despejariam a chamada "tiborna" nos rios, contaminando as águas e provocando a morte de peixes e outras espécies aquáticas. Não por acaso, o relatório aponta o Pará como o estado com maior número de conflitos por água em 2025.

A violência no campo e a ausência da reforma agrária
Os dados expõem uma contradição central: a permanência da violência no campo está diretamente relacionada à ausência da reforma agrária e à priorização de políticas voltadas ao agronegócio e à mineração.
Em 2025, o governo federal anunciou R$ 508,59 bilhões para incentivar o agronegócio, enquanto destinou R$ 85,7 bilhões à agricultura familiar. A discrepância torna-se ainda mais evidente quando se observa que, segundo o Censo Agropecuário, 76,8% dos estabelecimentos rurais brasileiros são classificados como de agricultura familiar. Isso significa que os grandes proprietários, que representam apenas 23,2% dos estabelecimentos, receberam quase seis vezes mais recursos públicos.
Os investimentos governamentais têm priorizado o agronegócio justamente nos setores que mais impulsionam o desmatamento. A expansão da pecuária, da soja e da cana-de-açúcar figura entre as principais causas da destruição das florestas brasileiras, enquanto a mineração tem ampliado significativamente sua participação nesse processo nos últimos anos.
Os dados sugerem que os recursos públicos acabam financiando a conversão de áreas florestais em pastagens e monoculturas, contribuindo para o avanço do desmatamento. Em vez de fortalecer os pequenos produtores, os governos têm favorecido a expansão do agronegócio sobre os territórios tradicionalmente ocupados por povos indígenas, quilombolas e comunidades camponesas.
Um exemplo recente dessa política é a proposta de alteração da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, uma área protegida de aproximadamente 1,3 milhão de hectares. O governador Hélder Barbalho (MDB) atuou pessoalmente junto à Câmara dos Deputados para defender a redução da área protegida e sua transformação em Área de Proteção Ambiental (APA), categoria que flexibiliza regras de conservação e facilita a exploração mineral e a implantação da Ferrogrão.
Fica evidente, portanto, a atuação dos governos como mediadores dos interesses dos grandes grupos econômicos, enquanto a reforma agrária permanece relegada a segundo plano.
As vítimas da violência são expulsas de seus territórios
Os dados da CPT permitem compreender quem são as principais vítimas dessa violência. Mais do que números, os registros representam vidas interrompidas, famílias desestruturadas e comunidades submetidas ao medo permanente.
O camponês Erasmo Teófilo — liderança camponesa do município de Anapu (PA) e defensor de direitos humanos que vive sob constantes ameaças — afirma que apenas quem está no território consegue compreender a gravidade da situação. Segundo ele, a Amazônia tornou-se "um verdadeiro barril de pólvora". As ameaças, relata, partem de diversos setores, incluindo grileiros, latifundiários, políticos e representantes de grandes empreendimentos.
Atualmente, Erasmo apoia a resistência dos povos indígenas contra a instalação da mineradora Belo Sun, que busca obter licença para implantar seu projeto na Volta Grande do Xingu.
As mulheres indígenas têm assumido papel de destaque nessa luta. Para elas, a instalação da empresa canadense pode provocar a contaminação dos rios e da floresta por rejeitos químicos, aumentar o risco de rompimento de barragens, destruir modos de vida tradicionais e ampliar as ameaças contra aqueles que resistem ao empreendimento.
É importante lembrar que, na mesma região, foi construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte durante o governo Dilma Rousseff, causando impactos profundos para milhares de famílias. Contudo, o projeto da Belo Sun é considerado por diversas organizações ainda mais ameaçador, por pretender instalar a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Soma-se a isso o fato de que o estudo da barragem foi elaborado pela VOGBR, a mesma consultoria envolvida no caso da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Diante dessas preocupações, o Ministério Público Federal tem defendido a federalização do processo.
Enfrentar as causas, não apenas os efeitos
O relatório da CPT demonstra que a violência no campo não é um desvio ou uma exceção, mas parte constitutiva de um modelo de desenvolvimento baseado na concentração da terra, na exportação de commodities e na exploração intensiva da natureza e do trabalho. Os assassinatos, as expulsões, as ameaças, a destruição ambiental e o trabalho análogo à escravidão revelam a face mais brutal de um sistema que coloca o lucro acima da vida.
A Amazônia tornou-se a expressão mais acabada dessa contradição. De um lado, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses lutam para permanecer em seus territórios e preservar suas formas de vida. De outro, avançam grandes projetos minerários, hidrelétricos, petrolíferos e do agronegócio, sustentados por volumosos recursos públicos e por políticas que favorecem a apropriação privada das riquezas naturais.
Nesse sentido, a violência no campo não poderá ser superada sem enfrentar suas causas estruturais. Não basta punir os responsáveis pelos crimes ou ampliar mecanismos de fiscalização. É necessário questionar um modelo econômico que transforma terras, florestas, rios e até mesmo seres humanos em mercadorias. Enquanto prevalecer a lógica da acumulação privada e da maximização dos lucros, os conflitos tendem a se reproduzir, assim como a expropriação das populações tradicionais e a destruição ambiental.
Por isso, a luta pela reforma agrária, pela demarcação das terras indígenas, pela titulação dos territórios quilombolas e pela preservação dos bens comuns está diretamente ligada à construção de outro projeto de sociedade.
Um projeto baseado no atendimento das necessidades humanas, na produção planejada de forma socialmente justa e ambientalmente sustentável, em que a riqueza produzida coletivamente esteja a serviço da vida, e não da acumulação de lucros para uma minoria.
Somente a partir de uma transformação profunda das relações econômicas e sociais será possível enfrentar as raízes da violência no campo e construir uma relação harmoniosa entre humanidade e natureza.
Rosi Pantoja é engenheira agrônoma, técnica do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), mestre em agriculturas amazônicas e doutoranda pelo Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf/ UFPA)