Dia 3 de junho, o Brasil celebra o Dia Nacional em Defesa do Rio São Francisco. Mais do que uma data simbólica, a ocasião convida à reflexão sobre o futuro de um dos rios mais importantes do país. Responsável por abastecer cidades, gerar energia, irrigar plantações e sustentar a vida de milhões de pessoas, o Velho Chico atravessa uma das mais profundas crises de sua história.
Ao mesmo tempo em que suas águas movimentam bilhões de reais em atividades econômicas e recebem vultosos investimentos públicos, comunidades ribeirinhas, pescadores, povos tradicionais e pequenos agricultores seguem enfrentando falta de saneamento, insegurança hídrica e dificuldades para acessar a água.
Especialistas, pesquisadores e movimentos sociais alertam que a defesa do São Francisco passa não apenas pela recuperação ambiental do rio, mas também pela democratização do acesso à terra, à água e às políticas públicas.
O debate sobre o futuro do Velho Chico revela uma questão central: quem se beneficia de suas águas e quem paga o preço de sua degradação?
O rio que integra o Brasil
O rio São Francisco é um dos principais símbolos geográficos, históricos e culturais do país. Nascendo na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e desaguando no Oceano Atlântico entre Alagoas e Sergipe, percorre cerca de 2.863 quilômetros e atravessa cinco estados brasileiros: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.
Sua bacia hidrográfica, no entanto, é ainda mais ampla. Ela alcança também áreas de Goiás e do Distrito Federal, ocupando aproximadamente 8% do território nacional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabiliza 506 municípios integrados ao sistema hidrográfico do São Francisco. Em toda essa área vivem aproximadamente 18 milhões de pessoas, o equivalente a cerca de 8% da população brasileira
Ao longo de séculos, o São Francisco consolidou-se como uma das principais artérias do território nacional. Suas águas abastecem cidades, movimentam embarcações, irrigam lavouras, geram energia elétrica e sustentam atividades econômicas fundamentais para o Nordeste e parte do Sudeste.
Mas o Velho Chico é mais do que infraestrutura hídrica. O rio moldou culturas, tradições e formas de vida. Dele dependem pescadores artesanais, vazanteiros, quilombolas, povos indígenas, agricultores familiares e comunidades ribeirinhas que construíram sua história às margens de suas águas.
Poucos rios possuem tamanho peso econômico, social, ambiental e simbólico na formação do país. Por isso, qualquer ameaça ao São Francisco ultrapassa a questão ecológica e se transforma também em uma questão social.
Um gigante ameaçado
Embora continue sendo um dos maiores rios do Brasil, o São Francisco enfrenta um processo crescente de degradação ambiental.
Pesquisadores, órgãos ambientais e entidades ligadas à gestão hídrica alertam para a combinação de fatores que vêm comprometendo a saúde do rio: desmatamento, assoreamento, poluição urbana e industrial, expansão de atividades econômicas de alto consumo de água e os efeitos cada vez mais intensos das mudanças climáticas.
Uma das pesquisas mais recentes sobre o tema foi publicada em 2024 pela revista científica Wate. O estudo foi desenvolvido pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), sob coordenação dos pesquisadores Humberto Barbosa e Catarina Buriti.
O levantamento identificou uma redução superior a 60% na vazão média anual da região centro-norte da bacia do São Francisco ao longo das últimas três décadas. Os pesquisadores também registraram perda de aproximadamente 15% da cobertura vegetal da bacia entre 2012 e 2020.
Em entrevista ao portal sergipano Mangue Jornalismo, o pesquisador Humberto Barbosa afirmou que o aumento das temperaturas e a ocorrência de secas-relâmpago têm exercido papel decisivo nesse processo: “À medida que fica mais quente, a atmosfera retira mais água das fontes da superfície e menos água flui para o Rio São Francisco”.
Outros estudos publicados na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental também registraram alterações significativas no comportamento hidrológico do rio e de seus afluentes ao longo das últimas décadas.
Além da redução da vazão, a poluição representa uma das principais ameaças ao Velho Chico. Grande parte dos municípios da bacia ainda lança esgoto sem tratamento adequado diretamente no rio. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) aponta que, entre os mais de 500 municípios da bacia, apenas Lagoa da Prata (MG) tem 100% do seu esgoto tratado.
A degradação ambiental tem consequências diretas para quem vive do rio. Pescadores relatam redução dos estoques pesqueiros. Comunidades ribeirinhas enfrentam dificuldades crescentes para manter suas atividades tradicionais. Povos indígenas, quilombolas e agricultores familiares denunciam mudanças profundas na dinâmica ecológica que sustenta sua sobrevivência.
Somam-se a isso os impactos provocados pelas barragens e hidrelétricas instaladas ao longo do curso do São Francisco. A alteração artificial dos fluxos de água modificou ciclos naturais importantes para a reprodução de peixes e para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.
O resultado é um paradoxo preocupante: um dos rios mais importantes do país continua movimentando a economia nacional, mas vê sua capacidade de sustentar a vida sendo progressivamente comprometida.
Para onde vai a água do São Francisco?
A crise do Velho Chico não pode ser compreendida apenas pela ótica ambiental. Ela também envolve uma disputa econômica e social sobre quem controla a água e para quais finalidades ela é utilizada.
Embora o São Francisco seja fundamental para o abastecimento humano de milhões de pessoas, a maior parte de suas águas não é destinada ao consumo doméstico.
Segundo levantamento divulgado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), com base em dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aproximadamente 79% do consumo hídrico da bacia do São Francisco está ligado à irrigação agrícola.
O dado acompanha uma tendência nacional observada pela própria ANA. Em todo o país, a agricultura irrigada figura historicamente como a atividade que mais consome água, superando o abastecimento urbano, o uso industrial e a dessedentação animal.
No Vale do São Francisco, esse processo ganhou escala a partir da implantação de grandes perímetros irrigados financiados pelo Estado brasileiro ao longo das últimas décadas.
Com forte presença nos municípios de Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e em outras áreas do Submédio São Francisco, esses projetos transformaram a região em um dos maiores polos de fruticultura irrigada do mundo. Manga, uva, melão e outras frutas produzidas às margens do rio abastecem mercados nacionais e internacionais e movimentam bilhões de reais anualmente.
A expansão desse modelo produtivo foi acompanhada por pesados investimentos públicos em barragens, canais de irrigação, sistemas de bombeamento, eletrificação e infraestrutura logística. Dados da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) mostram que os perímetros irrigados se tornaram um dos principais motores econômicos da região.
Mas a prosperidade gerada por esse modelo não alcança de forma igual todos aqueles que dependem das águas do Velho Chico. Pesquisadores e movimentos sociais argumentam que a distribuição dos benefícios produzidos pelo rio é profundamente desigual. Enquanto grandes empreendimentos agrícolas possuem acesso permanente à água, tecnologia e infraestrutura, milhares de famílias agricultoras convivem com dificuldades para irrigar pequenas áreas de produção ou mesmo garantir abastecimento regular em suas comunidades.
Essa desigualdade ajuda a explicar uma das maiores contradições da bacia do São Francisco.
O paradoxo das margens
Poucos lugares ilustram tão claramente a desigualdade no acesso à água quanto as próprias margens do Velho Chico. Ao longo do vale, comunidades instaladas ao lado de um dos maiores rios do Brasil ainda convivem com dificuldades para obter água tratada e saneamento básico.
A situação foi documentada por diversos estudos acadêmicos realizados nos últimos anos. Um deles é o artigoAbastecimento de água em comunidade ribeirinha no município de Juazeiro-BA, publicado na Revista de Desenvolvimento Econômico da Universidade Salvador (UNIFACS), por R. Matta Almeida e colaboradores.
A pesquisa analisou comunidades ribeirinhas localizadas na região de Juazeiro e identificou problemas relacionados ao abastecimento de água, além da dependência direta das águas do São Francisco para atividades domésticas e produtivas.
Outro estudo, desenvolvido pela pesquisadora Janaina de Moraes Peres, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avaliou a qualidade da água utilizada para abastecimento em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).
A pesquisa identificou situações em que a água consumida por comunidades locais era captada diretamente do Rio São Francisco ou de canais de irrigação ligados ao sistema hídrico da região, revelando vulnerabilidades relacionadas ao abastecimento e à qualidade da água disponível.
Os problemas não se restringem ao abastecimento. Em muitas localidades da bacia, a ausência de saneamento básico faz com que esgoto doméstico seja lançado diretamente nos cursos d’água, agravando a contaminação ambiental e ampliando os riscos para a saúde pública.
O contraste é evidente. Enquanto grandes empreendimentos agrícolas operam sistemas modernos de irrigação financiados com recursos públicos e acesso contínuo à água, comunidades ribeirinhas enfrentam limitações que vão desde o fornecimento irregular até a falta de infraestrutura básica para tratamento e distribuição.
Essa realidade evidencia que o problema não é apenas a disponibilidade física de água, mas a forma como ela é distribuída e controlada.
Terra, água e poder no Vale do São Francisco
A disputa pelas águas do São Francisco está intimamente ligada à disputa pela terra.
Pesquisadores que estudam a transformação econômica do vale argumentam que os grandes projetos de irrigação implantados ao longo das últimas décadas não apenas reorganizaram o uso da água, mas também contribuíram para a valorização fundiária e para a concentração da propriedade da terra.
Um dos estudos mais importantes sobre o tema é o artigoA apropriação da água e a concentração hídrico-fundiária no Vale do São Francisco, publicado na revistaGeoTemas, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), pelos pesquisadores José Eloízio da Costa e Maria Auxiliadora da Silva.
Os autores utilizam o conceito de “concentração hídrico-fundiária” para explicar o processo pelo qual grandes proprietários e empresas passaram a controlar simultaneamente os recursos hídricos e as áreas agrícolas mais valorizadas da região.
Segundo o estudo, os investimentos públicos em infraestrutura hídrica favoreceram principalmente grandes empreendimentos voltados à produção para exportação, ampliando a concentração da terra e o acesso desigual à água.
Análises semelhantes aparecem nos trabalhos da geógrafa Valéria de Marcos, professora da Universidade de São Paulo (USP). Ao estudar a expansão da agricultura empresarial irrigada no semiárido nordestino, a pesquisadora concluiu que os projetos de modernização agrícola contribuíram para aprofundar desigualdades sociais e territoriais, concentrando infraestrutura produtiva e acesso aos recursos naturais em grandes empresas do setor agrícola.
Pesquisas do geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), também relacionam a expansão do agronegócio irrigado aos conflitos territoriais e à concentração de recursos estratégicos no campo. Segundo o pesquisador, a ampliação das fronteiras do agronegócio costuma ocorrer acompanhada de disputas por terra, água e infraestrutura pública, afetando comunidades camponesas, povos tradicionais e pequenos produtores rurais.
Nesse contexto, a água deixa de ser apenas um recurso natural e passa a representar também uma relação de poder. Quem controla a terra controla os canais de irrigação. Quem controla a irrigação controla a produção. E quem controla a produção concentra renda, influência política e acesso privilegiado aos investimentos do Estado.
Por isso, para muitos pesquisadores e movimentos sociais, a crise do São Francisco não pode ser reduzida a uma questão ambiental. Ela é também uma questão agrária, social e política.
A promessa da transposição
Poucas obras públicas provocaram tantos debates no Nordeste quanto o Projeto de Integração do Rio São Francisco, popularmente conhecido como transposição do São Francisco.
A ideia de transferir parte das águas do Velho Chico para regiões mais secas do Nordeste não é recente. Projetos semelhantes já eram discutidos desde o século 19, ainda durante o Império. No entanto, foi apenas no início dos anos 2000 que a proposta ganhou forma definitiva e passou a ser executada pelo governo federal.
Apresentada como uma solução histórica para o problema da seca no Nordeste Setentrional, a obra foi concebida para transportar água do São Francisco por meio de dois grandes sistemas de canais — os eixos Norte e Leste — destinados a abastecer áreas de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Segundo o governo federal, o empreendimento teria como objetivo ampliar a segurança hídrica de aproximadamente 12 milhões de pessoas residentes em regiões sujeitas a longos períodos de estiagem. As obras foram iniciadas em 2007, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após anos de disputas judiciais, debates técnicos e mobilizações sociais favoráveis e contrárias ao projeto.
Desde o anúncio da transposição, governos federais apresentaram a iniciativa como um marco da infraestrutura hídrica nacional, capaz de reduzir a vulnerabilidade das populações atingidas pelas secas recorrentes do semiárido.
Mas a proposta nunca foi consenso. Pesquisadores, entidades ambientalistas, movimentos sociais, organizações religiosas e setores acadêmicos questionaram tanto os impactos ambientais da retirada de água do São Francisco quanto a eficácia da obra para atender as populações mais pobres do sertão.
Estudo publicado na Revista de Direito GV, pelos pesquisadores Sílvio Luiz Henkes e Maria Luiza Machado Granziera, identificou que a transposição esteve cercada por controvérsias relacionadas aos impactos ambientais, aos conflitos federativos e à própria definição das prioridades de uso da água.
As críticas ganhariam ainda mais força à medida que a obra avançava.
Quem ganhou com a transposição?
Os defensores da transposição destacam que a obra ampliou a segurança hídrica de importantes centros urbanos do Nordeste e contribuiu para reduzir os impactos das secas em diversas regiões.
Mas a pergunta que acompanha o projeto desde sua origem continua presente: quem se beneficiou efetivamente das águas transpostas?
Artigo publicado na revistaMade, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que a implantação da transposição provocou transformações profundas nos territórios atravessados pelos canais, gerando deslocamentos, conflitos fundiários e disputas pelo acesso à água. Segundo os pesquisadores, muitas comunidades atingidas pela obra passaram a enfrentar novas formas de vulnerabilidade social e territorial.
Outro estudo, apresentado no Encontro da Rede de Estudos Rurais, analisou a trajetória dos conflitos relacionados à transposição e observou que uma parcela importante da água transportada acabou direcionada para sistemas de abastecimento urbano e polos econômicos regionais.
Movimentos sociais também questionam o fato de que muitas comunidades rurais dispersas, justamente aquelas historicamente mais atingidas pela seca, continuam enfrentando dificuldades para acessar água de qualidade mesmo após a conclusão de parte das obras.
Outra crítica frequente está relacionada aos custos do empreendimento. Fiscalizações do Tribunal de Contas da União (TCU) registraram sucessivas revisões orçamentárias e aditivos contratuais ao longo da execução do projeto. O custo total da obra ultrapassou os valores inicialmente previstos e envolveu contratos bilionários com grandes construtoras nacionais.
O projeto reproduziu uma lógica histórica presente nas políticas para o semiárido: grandes investimentos concentrados em obras de infraestrutura, enquanto problemas estruturais relacionados ao acesso à terra, à água e ao saneamento permanecem sem solução.
A alternativa construída pelos movimentos sociais
Enquanto governos apostavam na transposição, organizações populares do semiárido desenvolveram outro caminho. A principal referência dessa proposta foi a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), rede que reúne centenas de organizações sociais, sindicatos, cooperativas, pastorais e movimentos populares de toda a região.
Em vez da lógica tradicional de “combate à seca”, a ASA passou a defender o conceito de “convivência com o semiárido”. A diferença entre as duas abordagens é profunda.
A ideia de combate à seca parte da premissa de que a estiagem é um problema a ser vencido por grandes obras hidráulicas. Já a convivência com o semiárido entende que a seca é uma característica natural do clima da região. O verdadeiro problema está na concentração histórica da terra, da água e da riqueza.
O semiárido não é inviável. Ao contrário: trata-se de uma região onde é possível viver e produzir desde que existam políticas públicas adequadas e acesso democrático aos recursos naturais.
Foi a partir dessa visão que surgiu algumas das experiências sociais mais conhecidas do Nordeste brasileiro. O Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) tornou-se símbolo dessa estratégia ao levar sistemas de captação de água da chuva para milhões de pessoas em áreas rurais.
Ao longo dos anos, outras iniciativas foram incorporadas ao modelo de convivência com o semiárido: cisternas para produção agrícola; barragens subterrâneas; bancos comunitários de sementes crioulas; reuso de águas cinzas; pequenos reservatórios comunitários; quintais produtivos agroecológicos; manejo sustentável da Caatinga; e recuperação de nascentes e áreas degradadas.
A lógica dessas tecnologias sociais é simples: descentralizar o acesso à água, reduzir custos, fortalecer a agricultura familiar e ampliar a autonomia das comunidades.
A fome e a pobreza não decorrem da seca em si, mas da desigualdade social e da concentração dos recursos produtivos. A convivência com o semiárido representa uma mudança de paradigma na forma de pensar as políticas públicas para a região.
Essa visão foi compartilhada por diversos movimentos sociais reunidos na Conferência dos Povos do São Francisco e do Semiárido, realizada em 2008, que se posicionou contra a transposição e em defesa da revitalização do rio, da agricultura familiar e da democratização do acesso à água. Plenária que contou com a participação da militância do PSTU.
O PSTU esteve entre as organizações políticas que se opuseram ao projeto de transposição desde sua origem. O partido defendia que os recursos investidos na obra deveriam ser direcionados para políticas estruturantes de convivência com o semiárido, reforma agrária, recuperação ambiental da bacia e fortalecimento da agricultura familiar.
Defender o Velho Chico é defender seu povo
O debate em torno do Rio São Francisco revela que o problema histórico do semiárido brasileiro nunca foi apenas a seca. A própria experiência das populações sertanejas demonstra que a escassez de chuvas transforma-se em tragédia social quando terra, água e riqueza permanecem concentradas nas mãos de poucos.
Enquanto o agronegócio irrigado recebe crédito público, incentivos fiscais, infraestrutura estatal e acesso privilegiado aos recursos hídricos, milhões de pequenos agricultores, pescadores, quilombolas, indígenas e comunidades ribeirinhas seguem enfrentando dificuldades para produzir, viver e permanecer em seus territórios.
Os dados apresentados ao longo deste texto mostram que a maior parte da água da bacia é consumida pela irrigação em larga escala, voltada principalmente para a produção agroexportadora. Ao mesmo tempo, persistem problemas de saneamento, abastecimento e acesso à água em inúmeras localidades que dependem diretamente do rio.
Nesse cenário, defender o Velho Chico significa muito mais do que proteger um patrimônio ambiental. Significa recuperar nascentes, preservar matas ciliares, combater a poluição, universalizar o saneamento básico e garantir a revitalização efetiva da bacia hidrográfica.
Mas significa também enfrentar a concentração fundiária e hídrica que marca a história do vale. A democratização do acesso à terra, à irrigação e à água é condição indispensável para que o São Francisco continue cumprindo sua função social.
Os movimentos populares que historicamente defendem a convivência com o semiárido insistem que outro modelo é possível: um modelo baseado na agricultura familiar, no uso sustentável dos recursos naturais, na recuperação ambiental do rio e no acesso democrático à água.
Mas os problemas enfrentados pelo São Francisco também levantam uma questão mais profunda. A degradação do rio, a concentração da terra, o uso intensivo da água pelos grandes empreendimentos econômicos e a permanência da pobreza em suas margens não são fenômenos isolados. Fazem parte de uma lógica de desenvolvimento baseada na transformação da natureza em mercadoria e na subordinação das necessidades humanas à busca permanente do lucro.
Sob esse modelo, rios, florestas, terras férteis e até a água tornam-se recursos a serem explorados até seus limites, ainda que isso comprometa o equilíbrio ambiental e a sobrevivência de milhões de pessoas. O drama vivido pelo Velho Chico é também uma expressão dessa contradição.
Por isso, a defesa do São Francisco não pode se resumir à preservação ambiental ou à adoção de políticas públicas específicas. Ela está ligada à necessidade de construir uma sociedade em que a produção e o desenvolvimento sejam organizados a partir das necessidades humanas e do respeito aos limites da natureza, e não da acumulação privada de riqueza.
Uma sociedade capaz de planejar o uso dos recursos naturais de forma democrática, sustentável e socialmente justa. Uma sociedade em que a água seja um direito, e não uma mercadoria. Uma sociedade em que a terra cumpra sua função social. Uma sociedade em que a vida esteja acima do lucro.
Essa transformação só pode ser realizada por meio de uma reorganização profunda da sociedade, baseada na propriedade coletiva dos grandes meios de produção, no planejamento democrático da economia e na construção de uma relação harmoniosa entre humanidade e natureza, isso é, numa sociedade socialista.
O São Francisco não é apenas um curso d’água. É memória, cultura, alimento, trabalho e sobrevivência. O Velho Chico corre como uma veia aberta no coração do Brasil. Das nascentes em Minas Gerais ao encontro com o Atlântico entre Sergipe e Alagoas, ele carrega histórias de resistência, fé e luta popular.
Defendê-lo é impedir que suas águas sejam reduzidas a mercadoria ou transformadas apenas em instrumento de acumulação econômica. É garantir que continuem servindo à vida.
Porque quando um rio como o São Francisco seca, não seca apenas a água. Seca a pesca. Seca a lavoura. Seca a esperança de quem vive de suas margens.
E um país que permite a morte de um rio como o Velho Chico permite também que desapareça parte de sua própria história.