Debates

Só a luta independente da classe trabalhadora e um projeto revolucionário e socialista podem derrotar a extrema direita

Apostar no “mal menor” é repetir o que a esquerda da ordem vem fazendo nos últimos trinta anos, esperando um resultado diferente

Diego Cruz

17 de abril de 2026
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O pré-candidato bolsonarista Flávio Bolsonaro Foto Divulgação

No momento em que avançam as articulações para as próximas eleições, os setores majoritários da esquerda capitalista já anunciaram o apoio à reeleição de Lula logo no primeiro turno. O caso do PSOL é emblemático: apesar de fracassada a tentativa de compor uma federação com o PT, o partido, que já compõe o governo, omitiu-se de apresentar uma alternativa própria e definiu o voto a Lula desde já.

A lógica de votar no PT, ou até em candidatos da direita para derrotar a extrema direita, se reproduz nos estados. Em São Paulo, indicam que chamarão voto no ex-ministro Fernando Haddad ao governo. O mesmo Haddad que elaborou o arcabouço fiscal que impõe um teto de gastos e limita as verbas à Saúde, Educação, demais áreas sociais e até mesmo ao salário mínimo.

Mais que isso, correntes do partido já chamam a também ex-ministra Simone Tebet, que deve sair para o Senado após migrar do MDB para o PSB, de “minha senadora”. Tebet, figura histórica da direita, é uma das mais ardorosas defensoras do ajuste fiscal. Ela afirmou que o principal desafio para 2027 é apertar ainda mais as contas públicas.

No Rio Grande do Sul, o PSOL, hegemonizado pela corrente MES, aprovou o apoio a Juliana Brizola (PDT), que até ontem estava no governo de Eduardo Leite (PSDB), conhecido por, no âmbito de sua política neoliberal, atacar de forma perversa o funcionalismo público. Estamos vendo, portanto, o aprofundamento da política do “mal menor” sob o argumento de combater a extrema direita, a qual se alarga até mesmo a apoios à própria direita.

Essa política eleitoral é, na verdade, o desdobramento da posição que a esquerda institucional manteve nos últimos três anos e meio. Sempre sob a justificativa de enfrentar a extrema direita, apoiaram, foram base e sustentaram um governo que implementou uma política neoliberal que não só não enfrentou os problemas da classe trabalhadora, como os aprofundou ainda mais, mantendo uma dinâmica de retrocesso social e econômico do país por décadas e de subordinação ao imperialismo.

Com o terceiro governo Lula chegando ao seu final, seria necessário fazer um balanço dessa política. O apoio ao governo Lula ajudou a mudar a correlação de forças? A situação da maioria da população melhorou? Foi eficaz para se combater a extrema direita e o bolsonarismo?

Simone Tebet e Fernando Haddad Foto Min Fazenda

Situação não melhorou

A única resposta honesta a essas questões é não. A situação da classe trabalhadora não melhorou e o descontentamento popular hoje é generalizado. Resultado disso, a extrema direita, derrotada em sua tentativa de golpe e sofrendo uma crise intestina, se rearticula e continua com força, apoiando-se em Trump, promovendo seu programa de ataques aos trabalhadores e de ameaça autoritária pairando sobre nossas cabeças.

As mais recentes pesquisas revelam uma rejeição a Lula que oscila ao redor dos 50%. E por que isso acontece? Não se trata de uma “guerra de narrativas” ou das conhecidas campanhas de fake news propagadas pela extrema direita, mas da dura realidade da classe trabalhadora. A inflação dos alimentos no último período cresceu bem acima da inflação geral. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias superou os 80%, um recorde.

A deterioração da renda diante do aumento dos preços está fazendo as famílias recorrerem ao cartão de crédito para fechar o mês. Com os juros na estratosfera (principalmente para os trabalhadores), as dívidas vão se acumulando. Junto a isso, a precarização do trabalho formal, a uberização e demais serviços por plataformas, elevam a superexploração a patamares infernais. Têm-se a percepção de que nunca se trabalhou tanto para receber tão pouco.

Como o governo Lula vem tentando responder a isso? O Programa Desenrola, que funcionou até 2024, não reverteu o endividamento. Pelo contrário, ele só aumentou. A limitada medida de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, tida pelo governo como grande trunfo eleitoral, tampouco significou algum impacto relevante, sendo logo absorvido pela inflação e pelas dívidas. Agora o governo prepara novas medidas, como o uso do FGTS para pagar as dívidas que, mais uma vez, não resolverá o problema.

Isso porque o problema é estrutural, de um país cada vez mais subordinado aos grandes monopólios capitalistas e ao imperialismo. Um sistema que o governo Lula não se propõe a enfrentar, mas administrar. Se na campanha eleitoral lá atrás Lula falou em revogar a reforma trabalhista, agora seu governo nem ao menos se dispõe a tocar nos interesses das grandes plataformas como a Uber ou o iFood, mantendo um regime de superexploração sem nenhum direito.

Entreguismo e retrocesso

O governo Lula não só não enfrenta como avança o processo de entrega do país, seja ao imperialismo estadunidense negociando as terras raras, seja à China com toda sorte de subsídios para a instalação de suas fábricas como a BYD (recentemente autuada por trabalho análogo à escravidão), seja com o recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que aprofundará a subordinação do Brasil e seu rebaixamento na divisão internacional do trabalho como exportadora de commodities de baixo valor agregado.

Temos então um quadro em que o país se torna cada vez mais dependente, com uma política econômica que castiga a classe trabalhadora: com impostos, juros extorsivos, inflação, jornadas extenuantes e precarização, que beneficia apenas os bancos, os grandes conglomerados estrangeiros e os países imperialistas. Uma política que não tem como dar outro resultado que não seja a desmoralização. E tudo isso apoiado por grande parte de uma esquerda que, sob a justificativa da volta da extrema direita, não apresenta nenhum projeto de independência de classe e atua para manter os trabalhadores reféns entre diferentes alternativas que administrarão o mesmo capitalismo.

Polarização por dentro do sistema

Ao administrar o capitalismo, governo se desgasta e alavanca a ultradireita

Presidente Lula conversa com Guilherme Boulos durante a cerimônia de posse do deputado como ministro da Secretaria-Geral da Presidência — Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Enquanto fechávamos esta edição, uma nova rodada de pesquisas foi divulgada. Em geral, mostram um cenário polarizado, em que Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado ou vence Lula. Um elemento interessante aqui é que Flávio compartilha com Lula uma alta taxa de rejeição. No Datafolha, Lula é reprovado por 48%, e Flávio, 46%. Na Genial/Quaest, Lula tem 55% de rejeição, enquanto Flávio Bolsonaro tem 52%.

Em alguns cenários, Lula perde ou empata com figuras menores da extrema direita, como o famigerado Ronaldo Caiado ou o não menos perverso governador de Minas Gerais Romeo Zema. Até mesmo o candidato do MBL, Renan Santos, chega a 10% entre o eleitorado mais jovem. Um indicativo que sugere que o que impulsiona de fato a extrema direita é a rejeição a um governo que administra o status quo. Nesse sentido, uma alternativa que se coloque como oposição, mesmo que seja ainda mais abertamente entreguista, neoliberal e contra os trabalhadores, aparece como solução a tudo que está aí.

Ainda mais após quase vinte anos de governos do PT, em que a conciliação de classes e a administração de um capitalismo em crise, com a regressão do país, abriu brechas para ideologias como a do empreendedorismo, que conferem base material para a extrema direita. Se o Estado só serve para arrancar impostos dos trabalhadores e da classe média, não garantindo nem o mínimo de serviços básicos como saúde e educação, quanto menos Estado para atrapalhar melhor, não? É o que prega, de forma cínica e falsa, a extrema direita, até porque eles defendem mais Estado para garantir os lucros e privilégios dos bilionários, e mais Estado para reprimir o povo pobre com a polícia. Mas é um discurso que entra e ecoa na situação que vivemos.

Não há atalhos

Enfrentar os capitalistas e apresentar uma alternativa antissistema

É preciso enfrentar e derrotar a extrema direita. Mas já vimos como não se faz isso. Apostar no mal menor para impedir sua volta ao poder é perpetuar um círculo vicioso que piora cada vez mais. E a solução apresentada pela esquerda parlamentar amplia uma frente já bem ampla. Se antes era PT, agora entra até a direita tradicional.

É possível e necessário fazer unidade de ação contra eventuais ataques do imperialismo, como o tarifaço de Trump ou suas recorrentes ameaças de ingerência e intervenção. Mas, mesmo nesses momentos, é importante manter a completa independência política do governo Lula. O que a esquerda parlamentar faz, ao contrário, é apoiar de forma sistemática o governo em todas as situações e assinar embaixo de sua política econômica neoliberal.

Um projeto socialista e revolucionário

Só se enfrenta a extrema direita mudando as condições de vida da classe trabalhadora, pois é justamente a decadência e a deterioração econômica e social que vivemos que fornecem as condições para que se fortaleçam. E só se muda a vida pela luta independente da classe trabalhadora, com um programa que enfrente de verdade o capitalismo e, junto a isso, uma alternativa política que coloque no horizonte uma revolução socialista, que bote abaixo esse sistema e coloque os trabalhadores no poder.

Apostar no mal menor é repetir o que a esquerda institucional vem fazendo nos últimos trinta anos, esperando um resultado diferente. É necessário fortalecer uma alternativa realmente antissistema. É a isso que a pré-candidatura de Hertz Dias, do PSTU, está a serviço. Fortalecer, junto às lutas, um programa independente da classe trabalhadora e disputar a consciência da classe para uma alternativa revolucionária e socialista.

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