Trabalhador, não colaborador: A exploração do trabalho e a banalização da morte

Redação
Trabalhador, não colaborador: A exploração do trabalho e a banalização da morte
Sinval Teixeira de Carvalho, trabalhador da CSN morto no último dia 13 de outubro

Alan L.

Em seu artigo “A lição de Henry Ford: empregado não é colaborador, é empregado”, o professor doutor Cássio Casagrande nos convida a refletir sobre o lugar que ocupamos na sociedade enquanto trabalhadores ou, como nos define Karl Marx, proletários. O patrão moderno busca construir uma falsa sensação de pertencimento, tentando nos apaziguar e fazer com que a classe trabalhadora se enxergue como parte de uma grande família, como se os interesses de empregados e empregadores fossem os mesmos.

Como afirma Casagrande:

Nada é tão emblemático do anseio reacionário de derruição do Direito do Trabalho quanto a tentativa algo patética de empregadores de quererem fazer acreditar que a relação de emprego não é uma relação de subordinação (verticalizada), mas sim de colaboração (horizontalizada). Colaborar, na etimologia latina, significa trabalhar lado a lado.

O autor prossegue sua reflexão ao destacar que o termo colaborador, criado pelo patronato e não incorporado espontaneamente ao vocabulário da classe trabalhadora — que, no Brasil, historicamente também utiliza expressões como peão —, carrega um evidente caráter alienante. Seu propósito é fazer com que o trabalhador não perceba a divisão de classes nem reconheça sua posição subalterna; que não se lembre de que seus interesses frequentemente entram em conflito com os do empregador; que deixe de reconhecer sua condição de trabalhador submetido a ordens e disciplina. Em última instância, busca-se apagar sua identidade proletária e enfraquecer a solidariedade entre aqueles que compartilham a mesma condição, dificultando, inclusive, a organização coletiva por meio dos sindicatos.

Dito isso, chegamos a 13 de outubro de 2026. Mais um trabalhador — sim, trabalhador, e não colaborador, como provavelmente será descrito nos informes da empresa — perdeu a vida.

Soube da notícia por meio do meu velho pai, que se orgulha de ter trabalhado 24 horas seguidas dentro dessa mesma empresa. O trabalhador que morreu não era apenas mais um nome em uma estatística: tinha história, família e sobrenome. Chamava-se Sinval Teixeira de Carvalho, de 63 anos, e havia trabalhado com meu pai em outros tempos na Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN.

Sua morte se soma a uma lista que parece não ter fim. Em 2026, registram-se também os falecimentos de Alfredo Jorge Toledo Moreira, de 51 anos, em 18 de maio, e de Magno Rodrigo Vieira de Almeida, de 45 anos, em 10 de janeiro. Em 2025, foi a vez de Laurilene Cristina Leal de Souza, de apenas 28 anos. Em 2023, a lista já havia sido marcada pelas mortes de Antônio Carlos da Silva, de 61 anos, em setembro; Francislei Adamásio Rodrigues, de 40 anos, em 2 de junho; e José Mauro do Nascimento, de 56 anos, em 27 de março.

São nomes, idades e datas que se acumulam, compondo uma relação que não pode ser tratada com naturalidade. Por trás de cada número, existe uma vida interrompida, uma família atingida pela perda e uma história que não pode ser reduzida a uma nota oficial ou a um informe empresarial.

Esses trabalhadores foram à empresa para vender sua força de trabalho, não para se tornarem parte de uma estatística de mortes. Foram trabalhar, não para colaborar com a naturalização da exploração, tampouco para suavizar, por meio de palavras cuidadosamente escolhidas, a realidade das relações de trabalho que os cercam.

É justamente por isso que precisamos questionar a linguagem que transforma empregados em colaboradores, como se a mudança de nomenclatura fosse capaz de apagar as desigualdades, a subordinação e os conflitos inerentes à relação entre capital e trabalho. As palavras importam, sobretudo quando são utilizadas para disfarçar relações de poder e tornar menos visíveis as condições concretas de exploração.

Não podemos permitir que vidas humanas sejam reduzidas a números, nem que a morte de trabalhadores seja incorporada à rotina como se fosse apenas mais um acontecimento a ser comunicado. A defesa da dignidade humana exige que cada morte seja tratada com seriedade, que as circunstâncias sejam apuradas e que as condições de trabalho sejam permanentemente questionadas.

Trabalhadores não são colaboradores de uma suposta família empresarial. São pessoas que vendem sua força de trabalho e têm direito à dignidade, à segurança e à vida.

Que Sinval Teixeira de Carvalho e todos os trabalhadores que perderam suas vidas não sejam esquecidos. Que seus nomes não desapareçam em meio às estatísticas e que suas histórias nos lembrem da urgência de enfrentar a exploração e defender a vida diante dos interesses do capital.

Nenhuma vida deveria ser ceifada pelo trabalho. Nenhum trabalhador deveria morrer para que o capital continue acumulando.

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