Nacional

Três anos depois do 8 de Janeiro, reafirmar: Nenhuma anistia a golpista!

O combate à extrema direita exige mobilização e a derrota da política de conciliação e de sustentação do sistema do governo Lula

Redação

8 de janeiro de 2026
star4.43 (7) visibility 150
Palácio do Supremo Tribunal Federal destruído, após tentativa de golpe Foto Valter Campanato/ABr

Nesta quinta-feira, 8 de janeiro, completam-se três anos da tentativa de golpe de Estado bolsonarista. A invasão dos prédios dos Três Poderes reivindicando uma “intervenção militar” foi o ápice de uma campanha golpista que, conforme veio à tona com as investigações, teve como roteiro não só os acampamentos golpistas.

A campanha golpista de Bolsonaro, de seu entorno e da alta cúpula militar, incluiu a tentativa de impedir, e depois negar, o resultado das eleições, via intervenção militar. Passou pela tentativa de impedir que eleitores do Nordeste votassem, por tentativas de atentados terroristas visando a explosão de torres de energia e uma tentativa de atentado a bomba no aeroporto de Brasília. Também pela mobilização reacionária de mais de cem mil apoiadores diretamente por um setor do agronegócio, e a participação da própria polícia no bloqueio de estradas. Culminando, finalmente, na descoberta de um plano articulado para assassinar autoridades, como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e o então presidente eleito Lula.

A tentativa de golpe foi frustrada, contou com o rechaço popular, e não conseguiu apoio da maioria da burguesia e do imperialismo naquele momento. Hoje, Bolsonaro e uma parte de membros da cúpula militar que compuseram seu governo estão presos.

Mas, três anos depois, qual o balanço do 8J?

Golpe frustrado, mas extrema direita e seu projeto autoritário não morreu

A tentativa de golpe, longe de ser um ato espontâneo dos setores mais radicalizados do bolsonarismo, compôs o plano para a volta de Bolsonaro ao poder e a consequente instauração de uma ditadura no país. Uma trama com articulação política, militar e financiamento empresarial, particularmente de setores do agronegócio. Nisso, a extrema direita saiu derrotada.

Bolsonaro está hoje preso e cada vez mais desmoralizado. Sem a liderança do golpista, a extrema direita se divide numa renhida disputa por seu espólio.

A ultradireita, porém, está longe de ter seu atestado de óbito assinado. Um fenômeno mundial, expressão da decadência capitalista e, especialmente no Brasil, reflexo da decadência e retrocesso do país nas últimas décadas, assim como do desgaste e desmoralização dos governos de conciliação de classes do PT, a extrema direita mostra-se como um fato consolidado, com quadros expressivos e forte inserção em setores médios e, inclusive, na classe trabalhadora e setores populares e semiproletários do país.

A investida de Eduardo Bolsonaro junto a Trump no caso da ingerência imperialista no país com o tarifaço foi uma mostra do estrago que a ultradireita ainda pode fazer.

A aprovação da chamada “Lei da Dosimetria” no Congresso Nacional, uma anistia disfarçada com o objetivo declarado de reabilitar Bolsonaro, com apoio de parlamentares do PT e do líder do governo Lula, não evidencia apenas que o perigo de vermos esses golpistas soltos e prontos para voltar é uma ameaça real, mas também que a política econômica capitalista, de submissão ao imperialismo e de defesa da democracia dos ricos do governo Lula segue reproduzindo as condições que possibilitam o desenvolvimento da extrema direita.

Leia também

Por debaixo dos panos PT participa de acordão para votar anistia a golpistas

A ascensão de Tarcísio de Freitas ou do governador Claudio Castro, com um discurso de aprofundamento da política de repressão, extermínio e encarceramento em massa da juventude pobre e negra, reivindicando o modelo Bukele de El Salvador, mostra como esse discurso encontra respaldo num ambiente de desagregação social, de desindustrialização, de rapina imperialista, em que, estruturalmente, o país retrocede, cada vez mais privatizado e desnacionalizado. Assim como parlamentares que não hesitam em defender uma nova ditadura, ou até mesmo uma invasão militar de Trump, como o famigerado Nikolas Ferreira.

Neste 8 de janeiro, é preciso reafirmar: ditadura nunca mais! Nenhuma anistia a golpista! Que Bolsonaro e seus cúmplices mofem na cadeia, que é o lugar deles. Mas é preciso lembrar que a sombra da ameaça de uma nova ditadura não se dissipará de vez com uma política de conciliação com a direita e de gerenciamento desse sistema que aí está.

Não ao acordão: Nenhuma anistia a golpista

Desde o primeiro momento, o governo Lula se negou a combater, de forma consequente e até o fim, o golpismo da extrema direita. Boa parte da alta cúpula militar permanece impune, a estrutura do comando das Forças Armadas foi intocada, e o Artigo 142, uma excrescência utilizada como justificativa para os militares se colocarem como “poder moderador”, ainda está na Constituição e nem mesmo isso o governo tentou enfrentar.

Se o governo Lula e o Congresso Nacional, porém, não enfrentam o projeto de anistia, o STF, visto por muitos, inclusive por amplos setores da esquerda, como garantidores das liberdades democráticas, tampouco o fará, visto as denúncias que a “dosimetria” passou num grande conchavo envolvendo a ultradireita, o governo e a sua base, e o próprio tribunal.

Terceirizar a luta contra o golpismo para o STF, uma instituição cujo único propósito é manter essa democracia dos ricos, é um grande erro. O escândalo do Banco Master mostrou como o tribunal age em favor dos bilionários. Se ontem Alexandre de Moraes e o restante do tribunal se mostraram duros com os golpistas, hoje nem tanto. E amanhã nada garante que estendam um tapete vermelho na porta de saída da cadeia para aqueles que tentaram impor uma ditadura no país.

Manifestação em janeiro de 2022, em SJC Foto Sindmetal/SJC

Combater o sistema capitalista, a democracia dos ricos e, portanto, enfrentar com independência de classe o governo Lula

Bolsonaro está preso e temos que exigir que fique lá. Assim como todos os golpistas, começando pela alta cúpula militar, e os empresários cúmplices, sejam também punidos. Mas isso de nada adiantará se o governo Lula continuar aplicando uma política neoliberal que joga nas costas dos trabalhadores os custos da crise, mantendo o arcabouço fiscal que rebaixa o salário mínimo e impõe cortes drásticos (como o recente corte nas universidades federais), para garantir o pagamento de juros da dívida aos banqueiros.

De nada adiantará se o governo não atacar a superexploração e o subemprego, a jornada 6×1, as terceirizações e a reforma trabalhista. Temos hoje uma ampla camada de trabalhadores, sobretudo jovens, que enxergam a CLT como um xingamento e são ganhos por um discurso do empreendedorismo propagado por essa extrema direita. Ao contrário do senso comum, temos hoje uma classe trabalhadora altamente qualificada, mas que não consegue postos de trabalho à altura, e são obrigados a se submeterem à precarização e à ditadura das plataformas digitais dos grandes monopólios, e sua falsa sensação de liberdade.

A política do governo Lula, de beneficiar os grandes monopólios capitalistas estrangeiros e o grande agronegócio, e o rentismo, aprofunda a decadência do Brasil. A subordinação aos imperialismos afasta qualquer projeto de desenvolvimento real, que sirva à classe trabalhadora e à população mais pobre. O resultado é uma situação em que, apesar das boas estatísticas oficiais neste momento, temos uma população que se mata de trabalhar em jornadas extenuantes, cada vez mais sem direitos, com a renda corroída pela inflação e sem perspectivas de melhora.

A violência urbana é outra bandeira que a extrema direita utiliza para ganhar cada vez mais a consciência da classe trabalhadora. O governo Lula, e os governos estaduais comandados pelo PT e seus aliados, não só não combatem a política de repressão e extermínio da juventude negra e pobre, como a reproduz e a aprofunda. A polícia que mais mata hoje no país é a da Bahia, governada há duas décadas pelo PT. Sob os governos Lula 1 e 2, o encarceramento de jovens negros explodiu, resultado da Lei de Drogas aprovada em seu governo.

Leia também

Os socialistas e as forças policiais em nossa sociedade

Tal situação é um prato cheio para a extrema direita, tanto para um discurso á lá Milei, de um ultraliberalismo de terra arrasada, quanto para um programa à lá Bukele, de campos de concentração para pobres e encarceramento em massa. Enganam a classe trabalhadora com um falso discurso antissistema, enquanto são a parte mais podre desse mesmo sistema. Enquanto isso, o projeto do governo Lula e da esquerda da ordem é administrar esse mesmo sistema capitalista em crise, levando a classe trabalhadora a um beco sem saída.

Uma alternativa realmente antissistema, revolucionária e socialista

Para derrotar de vez o golpismo, precisamos que a classe trabalhadora entre em campo com sua verdadeira força, ou seja, se mobilizando e se organizando de forma independente, lutando para mudar de vez as condições do país e do mundo que permitem a direita se perpetuar e fortalecer. Isso passa pela luta em defesa das reivindicações mais imediatas, como o fim da Escala 6×1 de verdade, salário, direitos, a titulação e regulamentação das terras indígenas e quilombolas e o fim da política de repressão e chacina da Polícia Militar.

E passa também, consequentemente, pela luta contra os grandes monopólios que controlam e subordinam nosso país aos seus interesses e se opõem às nossas reivindicações, impondo um país com mais exploração e mais subordinado. Ou seja, passa pelo fim do arcabouço fiscal de Lula e do Congresso, a suspensão da dívida aos banqueiros e a expropriação das maiores empresas e multinacionais. Passa, sobretudo hoje, pelo enfrentamento real com os imperialismos, e não se subordinando como faz o governo Lula ao prometer entregar as terras raras a Trump.

Só derrotaremos de fato a extrema direita através da organização e da mobilização da classe trabalhadora, construindo e fortalecendo uma alternativa realmente antissistema, revolucionária e socialista.

WordPress Appliance - Powered by TurnKey Linux - Hosted & Maintained by PopSolutions Digtial Coop