Os debates na esquerda ultrapassam as particularidades nacionais e, por vezes, abordam as guerras, revoluções e o papel dos socialistas nesses processos.
Um dos temas que mais tem provocado divergências é a política na Síria e Ucrânia. Os companheiros do UJC/PCBR acusam o Rebeldia/PSTU de adotar “posições questionáveis” ao apoiar a resistência síria contra Assad e a luta do povo ucraniano contra a invasão russa. Debater as posições na esquerda é legítimo, mas exige partir da análise concreta da luta de classes. A abordagem da UJC acaba por apagar a ação das massas. Ao negar apoio às resistências populares nesses países, sob a justificativa de que estariam subordinadas ao imperialismo, a UJC é quem acaba por questionar o direito legítimo das massas de tomarem seu futuro com suas próprias mãos.
A luta na Síria: os socialistas devem tomar partido
A UJC reconhece que o regime Assad se tratava de uma ditadura, mas rejeita a revolução iniciada em 2011. Afirmam que desde o início foi manipulada por forças imperialistas - EUA, OTAN e Israel - e que não mereceria o apoio dos revolucionários.
Essa visão incorre num erro importante: nega o protagonismo do povo sírio, que saiu às ruas exigindo “liberdade, pão e justiça social”. É verdade que setores reacionários, como grupos fundamentalistas islâmicos, ganharam espaço. Mas isso não apaga o caráter da revolução como um levante popular contra uma ditadura sanguinária. Tampouco isenta os revolucionários da tarefa de disputar esse processo contra essas direções.
Ao recusar o apoio à revolução com base em sua “instrumentalização”, a UJC adota uma posição que, na prática, favorece o status quo. A independência de classe exige apoiar as lutas dos explorados, ainda que confusas, denunciando sempre as direções burguesas que atuam aí.
Na Ucrânia não há simetria entre o invasor e o invadido
Na Ucrânia, a UJC recusa-se a apoiar a resistência popular à invasão russa, afirmando que a guerra se trata de um conflito inter-imperialista. Essa análise ignora a invasão de um país soberano e o direito dos povos de se defenderem.
O Rebeldia não defende o governo de Zelensky, tampouco a entrada da Ucrânia na OTAN. Mas reconhece que a resistência armada ucraniana é justa e deve ser apoiada. Particularmente nos lugares onde setores da classe trabalhadora se organizaram para resistir, como é o caso do Sindicato Independente dos Mineiros de Kryvyi Rih. Como única forma de se contrapor às milícias reacionárias.
A posição da UJC, ao igualar todas as forças em conflito e recusar o apoio à resistência ucraniana, na prática, beneficia o imperialismo russo. Não é neutra: é uma posição que enfraquece a solidariedade com os trabalhadores em luta.
Internacionalismo é independência de classe
A raiz das divergências está no método de análise. Enquanto o Rebeldia parte da luta de classes e da necessidade de apoiar os processos revolucionários, ainda que contraditórios, a UJC adota uma leitura centrada em blocos de países.
Essa abordagem reproduz os principais vícios da tradição campista, que remonta à degeneração da URSS, quando a política foi subordinada aos interesses do Kremlin. Em vez da análise concreta da luta de classes, o mundo passa a ser dividido em dois campos: o imperialismo ocidental liderado pelos EUA e pela OTAN e qualquer regime que entre em conflito com esse bloco, independentemente de seu caráter de classe.
O internacionalismo proletário exige estar com as massas em luta, mesmo quando essas se enfrentam com regimes que por vezes se chocam com os EUA, sem apoiar a direção burguesa do processo. A questão central não é “quem se opõe à OTAN?”, mas “quem oprime e explora os trabalhadores?”. Assad, Putin, Xi Jinping - ainda que tenham contradições com o imperialismo hegemônico - são inimigos do proletariado.
Como Trotsky ensinou, é necessário estar com as massas, acompanhar o processo do seu despertar, aprender com elas e ensinar-lhes ao mesmo tempo. Isso exige apoiar e disputar suas lutas concretas como na Síria e na Ucrânia.