Manu Souza, Diretor de Universidades Públicas da UEE-SP e
Maria Clara, Coordenadora do DCE da USP e do CAELL
A reitoria de Aluísio Segurado, capacho do governador de extrema direita de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deu uma gratificação de R$ 4.500 por dois anos para os professores de início de carreira e nada para técnicos-administrativos e estudantes. Diante dessa provocação, os técnicos responderam rápido, com um ato que contou com mais de 3 mil pessoas no dia 14 de abril, e na sequência deflagraram greve exigindo isonomia na bonificação.
Pouco mais de uma semana depois, os estudantes também entraram em greve pelas suas pautas. A reitoria ficou com medo e recuou, dando bonificação de R$ 1.600 para todos os técnicos.
Ao ter que atender a pauta dos técnicos, Aluísio e Tarcísio pensaram que conseguiriam dividir a luta, mas fracassaram. Foram realizados novos atos unificados, e a luta segue independente do fim – vitorioso – da greve dos servidores.
Nossos aliados são os trabalhadores e, nessa luta, não podemos ter confiança em nenhuma reitoria, governo ou instituição burguesa. A unidade entre estudantes e trabalhadores é um grande patrimônio da greve da USP, um caminho a ser seguido nas federais e na UERJ, onde os técnicos já estão em greve.
Entenda
Mais de 130 cursos em greve
Da capital ao interior, a greve ganhou imensa adesão, porque a situação dos estudantes é gravíssima, em especial a permanência estudantil. Se liga nas reivindicações da greve:
Minuta dos espaços estudantis
A minuta da reitoria proibia os centros acadêmicos de alugarem espaços da faculdade para vendinhas e lanchonetes, na prática acabando com a principal fonte de financiamento das entidades estudantis, uma prática digna dos tempos da ditadura militar para desarticular o movimento estudantil.
Papfe (Bolsa permanência)
Hoje, 36% dos estudantes pobres que solicitam a bolsa permanência não a recebem. Para piorar, seu valor é de R$ 850, que não chega nem perto de garantir aluguel, transporte e alimentação em São Paulo – muito menos perto da USP. Por isso, uma das principais pautas é o aumento da Papfe para o valor do salário mínimo paulista (R$ 1.804).
Bandejão
No cardápio: rato, barata, larva, pedra e até caco de vidro. Os restaurantes universitários são uma das principais políticas de permanência da universidade, mas quase todos foram entregues para empresas terceirizadas. A terceirização significa uma comida de qualidade horrível, superlotação, filas que ultrapassam uma hora e superexploração do trabalho das terceirizadas, que trabalham tanto quanto as concursadas, mas não têm direito sequer ao ônibus circular ou aos hospitais.
Moradia
No Butantã, o Crusp está caindo aos pedaços. Os estudantes sofrem com a falta constante de água e energia, e quem chega agora na universidade tem que morar amontoado na associação de moradores por meses até conseguir uma vaga. No Direito e no quadrilátero da Saúde, EACH, e em diversos interiores, nem sequer há moradia estudantil. A reitoria apresenta um auxílio de R$ 300 para os moradores do Crusp, o que não dá sequer para pagar o transporte do mês.
Cotas trans
O Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas trans e travestis. Relegadas aos piores postos de trabalho ou à prostituição, o ensino superior não está na rota. O Grupo de Trabalho conquistado na greve de 2023 sobre cotas trans teve como conclusão, por parte da reitoria, que a USP não precisa de cotas. Por isso, defendemos a implementação de cotas trans já, pelo direito de acessar a universidade.

Às ruas
Por uma greve unificada das estaduais paulistas para derrotar Tarcísio
O projeto do governador é privatizar tudo. Foi assim com a Enel, a CPTM e a Sabesp, e é o rumo da USP. Contraditoriamente, a USP tem dinheiro sobrando em caixa, mas não investe em permanência – enquanto cede a patente de nossas pesquisas para multinacionais e está de portas abertas para encher o bolso do setor privado. A lógica da reitoria e do governador é a mesma: garantir o lucro dos bilionários, expulsar os estudantes pobres da universidade pela falta de permanência e privatizar.
Por outro lado, a Unesp e a Unicamp sofrem com a falta de repasse de orçamento, e o Instituto de Artes da Unesp está ocupado. No dia 4 de maio, tivemos um dia de paralisação unificada das estaduais durante a negociação com os reitores e o governador. Agora, defendemos a construção de uma greve unificada das três estaduais que se junte aos professores do município e categorias em luta. Para isso, convocamos todos a ocuparem as ruas no próximo dia 20, na Marcha Estadual contra Tarcísio.
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