A Copa, o VAR e o fantasma do supremacismo branco

Érika Andreassy
A Copa, o VAR e o fantasma do supremacismo branco
Árbitro australiano Shaun Evans faz gesto durante transmissão de jogo Foto Reprodução

Bastaram poucos segundos de uma transmissão da cabine do VAR para que uma nova polêmica tomasse conta da Copa de 2026. O árbitro australiano Shaun Evans apareceu fazendo um gesto que muitos identificaram imediatamente como uma referência ao símbolo “white power", apropriado nas últimas décadas por organizações supremacistas brancas e grupos da extrema direita.

A repercussão foi instantânea. Organizações antirracistas exigiram providências da FIFA. A entidade abriu uma investigação relâmpago. Evans afirmou que o gesto não possuía qualquer significado político, apesar de “coincidentemente” ter sido filmado justamente durante um jogo entre Alemanha e Curaçao — uma nação caribenha de maioria negra. Em menos de 48h o caso foi arquivado.

O episódio é ilustrativo. E se bem é provável que jamais saibamos exatamente as verdadeiras intenções do árbitro, talvez essa nem seja a questão mais importante. A verdadeira pergunta é outra: por que milhões de pessoas reconheceram imediatamente naquele gesto uma demonstração de racismo?

Há vinte ou trinta anos, a maior parte do público provavelmente não faria qualquer associação política ao vê-lo. Hoje, porém, o simples fato de um movimento feito com a mão ter sido imediatamente relacionado ao supremacismo branco diz muito menos sobre o árbitro e muito mais sobre o mundo em que vivemos.

O fantasma fascista voltou a assombrar.

Quando o fantasma deixa de ser fantasma

Durante décadas, após a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, os movimentos abertamente supremacistas permaneceram relativamente marginalizados na maior parte das democracias liberais ocidentais. Continuaram existindo, mas confinados a grupos pequenos, organizações clandestinas ou setores políticos sem grande expressão. Esse cenário mudou profundamente nas últimas duas décadas.

A crise econômica mundial, o aumento das desigualdades sociais, os fluxos migratórios provocados por guerras e pela própria dinâmica do capitalismo global e o desgaste dos partidos tradicionais abriram espaço para o fortalecimento de correntes nacionalistas, xenófobas e autoritárias em diversos países. Trump nos Estados Unidos, Le Pen na França, Meloni na Itália, a AfD na Alemanha, o Vox na Espanha, Bolsonaro no Brasil e Milei na Argentina expressam, cada um à sua maneira, esse fenômeno mais amplo.

Não se trata de uma repetição mecânica do fascismo clássico dos anos 1930, mas de um processo real de fortalecimento da extrema direita em escala internacional. Nesse contexto, símbolos, códigos e referências antes conhecidos apenas por círculos extremistas passaram a circular muito mais amplamente. O que antes era reconhecido apenas por especialistas ou militantes antifascistas tornou-se parte do repertório político de milhões de pessoas.

É por isso que o episódio do VAR ganhou repercussão mundial. Quando a FARE Network — organização parceira da FIFA no combate à discriminação — perguntou publicamente "por que um supervisor do VAR usa esse símbolo num evento global justamente no momento em que sabe que as câmeras o estão filmando?", estava formulando exatamente a questão nesses termos. Não porque todos tenham certeza do que o árbitro quis dizer, mas porque todos sabem que existe hoje uma extrema direita suficientemente forte para que a hipótese pareça plausível.

O racismo não está apenas nas arquibancadas

A FIFA costuma apresentar o racismo como um problema de comportamento individual. Um torcedor que “imita” um macaco nas arquibancadas. Um jogador que faz uma ofensa racista. Um dirigente que profere declarações preconceituosas. Sem dúvida, esses episódios existem e devem ser combatidos. A própria Federação tem um protocolo estabelecido para o racismo no futebol. Construído ao longo de décadas de pressão de organizações antidiscriminação. Tal protocolo é uma conquista. Mas a Copa de 2026 mostrou que limitar o debate ao comportamento individual significa ignorar uma questão muito mais profunda.

Porque o racismo que esta Copa expôs não aparece principalmente como xingamento nas arquibancadas. Aparece como política de Estado: árbitro somali deportado mesmo com documentação correta. Delegação senegalesa submetida a detectores de metal e obrigada a tirar os sapatos ainda na pista do aeroporto. Seleção iraniana foi expulsa do país sede após cada jogo. Torcedores africanos, árabes e latino-americanos enfrentando congelamento de vistos, cheques caução e restrições que torcedores europeus jamais conhecerão.

Nenhum desses episódios foi classificado pela FIFA como infração disciplinar. Nenhum gerou investigação, punição ou sequer nota de repúdio. Porque o modelo disciplinar da entidade foi construído para lidar — ou fingir lidar — com o racismo de indivíduos, não com o racismo estruturado em políticas migratórias, sanções econômicas e hierarquias de passaporte que organizam quem pode e quem não pode circular pelo mundo.

As mesmas sociedades que apoiam campanhas publicitárias contra o racismo dentro dos estádios convivem com políticas migratórias cada vez mais seletivas, com a criminalização de refugiados, com a islamofobia e com o fortalecimento de discursos nacionalistas que apresentam determinados povos como ameaças permanentes. O problema não está apenas em indivíduos preconceituosos. Está também em instituições, governos e políticas públicas.

O que a FIFA não quer discutir

A FIFA gosta de se apresentar como uma entidade neutra. Seu lema — "For the Game. For the World" — expressa justamente essa pretensão de universalidade. O futebol seria uma linguagem comum capaz de unir povos, culturas e nações acima dos conflitos políticos. Mas poucas vezes na história das Copas, o torneio demonstrou tanto os limites dessa narrativa como em 2026.

A rapidez da investigação levanta dúvidas legítimas sobre sua profundidade. Em menos de 48 horas, a FIFA concluiu que não havia elementos para qualquer sanção. Não se sabe, porém, quais procedimentos foram efetivamente realizados, se houve análise do histórico do árbitro ou apuração de eventuais vínculos com organizações da extrema direita. A velocidade do encerramento do caso sugere menos uma disposição de investigar os fatos do que a preocupação em impedir que a polêmica contaminasse a imagem do torneio.

Essa desconfiança não é casual, o silêncio ou alegação de falta de competência ou impossibilidade de intervenção sobre a discriminação sistemática dos EUA, sede da Copa atual, contra determinados países, restrições migratórias ou desigualdades produzidas pela própria ordem internacional, fala por si só. É mais fácil condenar — ou absolver — manifestações individuais de preconceito do que questionar estruturas de poder que produzem exclusão em escala global. A neutralidade da FIFA termina exatamente onde começam os interesses dos governos e das grandes potências que sustentam o negócio do futebol mundial.

O gesto e o mundo

Talvez nunca saibamos o que passava pela cabeça de Shaun Evans naquele momento. Mas isso não altera o problema. O episódio ganhou repercussão mundial porque ocorreu num momento em que o nacionalismo xenófobo, a islamofobia, o racismo e a extrema direita voltaram a ocupar o centro da vida política internacional. O gesto do VAR foi apenas o estopim de um debate que já estava presente muito antes de a bola começar a rolar.

A extrema direita não entrou na Copa por causa desse episódio. Ela já estava lá: nas fronteiras fechadas para determinados povos. Nas restrições impostas a seleções consideradas inconvenientes. Na suspeita permanente lançada sobre árabes, africanos, migrantes e refugiados em geral.

Talvez o maior mérito involuntário daquela imagem tenha sido justamente o de lembrar que o racismo e a extrema direita não são fantasmas do passado. São forças políticas reais, atuantes e cada vez mais influentes no mundo atual.

E a Copa de 2026, mais uma vez, acabou revelando isso diante dos olhos de bilhões de pessoas.

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