Como milhões de brasileiros, a cada quatro anos me reúno na frente da TV para torcer pelo Brasil. Quero ver a seleção levantar a taça, comemorar os gols e viver a atmosfera única que só uma Copa do Mundo proporciona. Afinal, o futebol continua sendo a maior paixão popular do planeta.
Isso não significa fechar os olhos para as contradições que cercam o torneio.
A Copa do Mundo de 2026 tem exposto uma realidade cada vez mais evidente: o futebol se afasta daqueles que o construíram. Os preços dos ingressos atingiram valores absurdos, chegando a centenas de milhares de reais no mercado oficial de revenda da FIFA, que também ampliou os mecanismos de “preço dinâmico”, transformando o acesso aos jogos em uma espécie de leilão para quem pode pagar mais. O resultado é um futebol cada vez mais elitizado.
Esse processo não surgiu do nada: a FIFA sempre esteve ligada aos interesses econômicos e políticos dominantes, conviveu com ditaduras, acumulou escândalos de corrupção e construiu relações estreitas com grandes empresas e patrocinadores. A Copa de 1978, sediada pela ditadura militar argentina de Videla, é um exemplo conhecido dessa história.
Nos últimos anos, porém, o lucro passou a determinar ainda mais os rumos do esporte. A Copa do Catar, em 2022, e a escolha da Arábia Saudita para sediar a edição de 2034 mostram até onde a FIFA está disposta a ir quando bilhões de dólares estão em jogo. Regimes denunciados por violações de direitos humanos se tornam parceiros estratégicos em nome dos negócios.
A edição de 2026 escancara outra contradição. Enquanto Gianni Infantino, presidente da FIFA, aproxima-se de Donald Trump e faz do maior torneio do futebol uma espécie de “Copa para Trump chamar de sua”, o evento convive com políticas migratórias xenofóbicas que dificultam a participação de torcedores e delegações de diversos países.
Iranianos enfrentaram obstáculos para obter visto e tiveram ingressos cancelados dias antes da abertura do torneio. Haitianos convivem com ameaças de deportação. O árbitro somali Omar Artan, integrante do quadro da FIFA, teve o visto negado e não pôde participar da competição. Cidadãos de diversos países africanos enfrentam restrições que tornam a viagem aos Estados Unidos praticamente inviável. A entidade que fala em união entre os povos aceita, na prática, que milhões de pessoas sejam excluídas da festa.
Isso vai além da entidade. Empresas como a Nike aumentam sua relação com seleções nacionais (como a seleção brasileira) com contratos bilionários nebulosos. No Brasil, a expansão das SAFs, a venda cada vez mais precoce de jovens talentos para o mercado europeu e a influência crescente das casas de apostas mostram como o futebol vem sendo reorganizado pelos interesses do mercado. Hoje, cerca de 90% dos clubes da Série A têm algum vínculo com casas de apostas, um setor que movimenta bilhões de reais por ano e se tornou um dos principais financiadores do futebol brasileiro.
Esse cenário também atinge quem está em campo. Para milhões de jovens das periferias, o futebol continua sendo uma das poucas possibilidades de ascensão social. Não é coincidência que grande parte dos atletas profissionais venha de famílias trabalhadoras e tenha enfrentado enormes dificuldades antes de chegar ao topo.
No entanto, a realidade da maioria dos jogadores está muito distante da imagem vendida pelas transmissões de televisão. Enquanto uma pequena elite acumula salários milionários e contratos publicitários, milhares de atletas vivem com remunerações baixas, contratos precários e carreiras curtas. O mesmo esporte que produz estrelas globais também reproduz desigualdades profundas.
É preciso devolver o futebol aos trabalhadores
Quem construiu esse esporte foram os trabalhadores que lotaram arquibancadas durante gerações, os clubes de bairro, os campos de várzea e milhões de torcedores espalhados pelo mundo.
Defender o futebol popular significa lutar contra a elitização dos estádios, por ingressos acessíveis e pela democratização das entidades esportivas. Mas significa também entender que essa transformação do esporte em negócio não é um fenômeno isolado: faz parte de um sistema que converte tudo em mercadoria e coloca o lucro acima das necessidades humanas.
Se queremos que o futebol volte a pertencer ao povo, precisamos enfrentar essa lógica e o sistema que sustenta o capitalismo.
Porque o futebol nasceu do povo. E é ao povo que ele deve pertencer.