A juventude e a classe trabalhadora frente à ofensiva neoliberal

Herbert Claros, de São José dos Campos (SP)
A juventude e a classe trabalhadora frente à ofensiva neoliberal

A Europa atravessa um momento decisivo de mobilizações da juventude e dos trabalhadores. As ruas e praças da França e Espanha convertem-se novamente no palco central da luta de classes. O agravamento das políticas neoliberais acelerado por sucessivos pacotes de austeridade fiscal, inflação, desmantelamento dos serviços públicos e precarização sistemática do trabalho, aprofundam ainda mais a resistência de classe.

Na França, o movimento estudantil coloca o governo contra a parede, unindo-se às centrais sindicais combatentes como a Union Syndicale Solidaires em jornadas de greve, paralisações e bloqueios de escolas. Na Espanha, a crise estrutural do acesso à habitação e a transferência massiva de riqueza dos salários para os fundos de investimento imobiliário mobilizam centenas de milhares de pessoas sob a bandeira do sindicato de inquilinos e sindicatos de base, avançando no rumo de uma greve geral de contornos históricos. Em ambos os países, não estamos perante protestos isolados, mas sim diante de uma resposta organizada das novas gerações contra um modelo político e econômico que subordina a vida humana aos lucros do capital financeiro, das multinacionais e dos grandes proprietários.

A chama francesa: da tradição de combate à convergência com a juventude

Nos últimos anos, sob o mandato de Emmanuel Macron, o aparelho de Estado francês intensificou a sua agenda de liquidação das conquistas históricas do pós-guerra. A imposição por decreto autoritário de medidas extremamente impopulares aprofundou o déficit democrático do regime e alimentou um clima de insurreição latente. Os protestos ganham contornos de grande intensidade a partir da promulgação de novos orçamentos marcados por cortes drásticos em setores vitais como educação, saúde, cultura e transportes, ao mesmo tempo em que o poder executivo garante isenções fiscais milionárias e subsídios ao grande patronato, como a TotalEnergies e o conglomerado LVMH.

Repressão e resistência

Foi neste contexto de sufoco econômico e social que a juventude assumiu um papel de vanguarda. As escolas secundárias e as universidades transformaram-se em focos permanentes de resistência contra a degradação das instalações escolares, a falta crônica de professores e o caráter excludente do sistema Parcoursup, que funciona como uma peneira de classe para barrar os filhos das classes populares no acesso ao ensino superior. A resposta governamental às manifestações estudantis tem sido a repressão policial ostensiva, pela utilização massiva de gás lacrimogêneo e por detenções arbitrárias à porta das escolas, processos judiciais, desencadeando uma onda de indignação que ultrapassou o âmbito estudantil.

Como destaca o manifesto recente da Union Syndicale Solidaires ao convocar as jornadas de mobilização e greve — em particular no marcante 13 de outubro sob o mote "em greve e na rua com a juventude em luta" —, a batalha dos jovens é indissociável da luta geral da classe trabalhadora. As direções sindicais combatentes compreenderam que a resposta à violência policial e à precarização do ensino tem de ser dada na fábrica, no escritório, nos serviços e na rua. Exige-se a revogação imediata das reformas precarizadoras, o aumento geral dos salários para fazer frente ao custo de vida, a taxação severa dos superlucros corporativos e o reinvestimento massivo nos serviços públicos essenciais. A recusa dos trabalhadores em aceitar a narrativa do "não há dinheiro", desmontada cada vez que o governo encontra recursos orçamentais para a repressão ou para os auxílios às grandes empresas, transformou a indignação pontual num movimento político articulado de contestação ao governo Macron.

Estado Espanhol

Espanha e a luta pela habitação: do resgate bancário ao poder dos inquilinos


Enquanto na França o eixo do conflito passa pela defesa dos serviços públicos e do poder de compra frente ao arrocho orçamentário, na Espanha o mapa da mobilização social está articulado em torno do direito à habitação e do combate ao extrativismo imobiliário. O histórico recente remonta ao ciclo de contestação do movimento dos Indignados (15M), em 2011, e à resistência heroica promovida pela Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH) contra os despejos em massa ocorridos após a crise financeira de 2008, quando o Estado espanhol injetou bilhões de euros públicos para salvar a banca privada enquanto abandonava milhares de famílias à pobreza.

Contudo, ao longo da última década, a forma de exploração do capital sobre a reprodução da vida sofreu uma alteração qualitativa: o eixo da pilhagem deslocou-se do crédito hipotecário para o mercado de arrendamento. A financeirização da habitação transformou os centros urbanos de cidades como Madrid, Barcelona, Valência, Sevilha e os arquipélagos das Baleares e Canárias em autênticos parques de diversão para fundos imobiliários abutres (vulture funds), como a Blackstone, bem como para plataformas de turismo massificado e especuladores privados.

Esta dinâmica traduz-se numa situação insustentável para a maioria da população trabalhadora. Em grandes metrópoles, os inquilinos chegam a comprometer entre 50% e 70% do seu rendimento mensal unicamente para cobrir os custos de renda. A habitação deixou de ser encarada como um direito humano elementar para se converter na principal ferramenta de empobrecimento dos trabalhadores, especialmente dos jovens. Embora os discursos oficiais do governo exaltem números macroeconômicos e índices de emprego, a realidade concreta da classe trabalhadora espanhola é marcada pela precarização contratual, salários estagnados e uma inflação dos custos de vida que torna a subsistência um exercício diário de sobrevivência.

Despejo de idosa detona mobilizações

Sob slogans como "Casas sem gente, gente sem casa!" e "Rendeiros culpados, governo responsável!", a Confederação de Sindicatos de Inquilinas e Inquilinos, em aliança com centrais sindicais anticapitalistas (CGT, CNT, Intersindical) e movimentos sociais, articulou manifestações históricas que ocuparam as avenidas das principais cidades espanholas. A nova onda de acampamentos na Puerta del Sol teve início na noite de 26 de setembro de 2026, deflagrada pela indignação popular com o caso de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos despejada de sua casa no bairro do Retiro, em Madri, onde vivia há sete décadas. O imóvel havia sido arrematado por uma empresa de investimentos imobiliários (Urbagestión) que passou a exigir a desocupação. A fagulha do protesto — intensificada por episódios emblemáticos como o despejo violento de idosos de suas casas em contratos antigos e pelo bloqueio legislativo de garantias de habitabilidade — transformou a praça Puerto del Sol no centro de gravidade da luta contra os fundos abutres, os aluguéis abusivos e a especulação imobiliária.

No acampamento de Sol, a juventude e a classe trabalhadora espanhola reúnem-se diariamente para organizar comitês de bairro, debater a preparação de greves de aluguel e exigir a redução drástica dos preços de moradia, a proibição de despejos e o confisco dos imóveis nas mãos da especulação financeira. Ao resgatar a potência simbólica da Puerta del Sol, a classe trabalhadora madrilenha demonstra que o espaço público pertence a quem nele vive e produz, convertendo o centro histórico da capital num baluarte de resistência anticapitalista e de solidariedade de classe.

O movimento deixou de se limitar a petições institucionais para avançar na construção da convocatória de uma Greve Geral da Habitação e do Trabalho para 11 de novembro. Trata-se de uma virada teórica e prática crucial: ao conectar a luta pelo teto com a luta salarial e com a exigência da redução da jornada de trabalho sem perda de salário, o movimento popular espanhol coloca no centro do debate a necessidade de expropriar os especuladores e desmercantilizar o solo urbanizado.

A unidade das lutas e a construção da alternativa anticapitalista

A simultaneidade e o paralelismo das lutas desenvolvidas na França e na Espanha revelam a existência de um padrão estrutural do capitalismo contemporâneo na Europa. Não nos encontramos perante crises isoladas em cada Estado-nação, mas sim perante a gestão autoritária de uma crise do capital que tenta descarregar sobre os ombros da maioria trabalhadora os custos da sua própria decadência.

O primeiro elemento de convergência reside no salto qualitativo da aliança entre a juventude e a classe trabalhadora organizada. Tanto em Paris como em Madri, supera-se a falsa divisão entre estudantes e trabalhadores. A juventude compreende com nitidez que é o trabalhador precarizado do presente e do futuro; por seu lado, os trabalhadores organizados entendem que os ataques à educação, à saúde e ao direito à habitação representam a destruição das condições materiais de vida de toda a sua classe.

Este ciclo de mobilizações coloca em xeque a eficácia da social-democracia conciliadora e das fórmulas reformistas, que se revelaram impotentes para travar a voracidade do capital e o avanço das forças da extrema-direita populista. Como demonstram as assembleias de base na França e os sindicatos de inquilinos na Espanha, a resistência só alcança vitórias quando se apoia no poder popular, na solidariedade de classe e na ação direta organizada.

A construção de uma alternativa radical e internacionalista no continente europeu sairá da capacidade do proletariado e da juventude de unificarem as suas lutas, ocuparem as ruas e imporem, pela força da sua organização, uma sociedade onde a vida esteja acima do lucro.

 Assine
 Assine