Uma candidatura revolucionária e socialista no coração do Império

Redação
Uma candidatura revolucionária e socialista no coração do Império
Rosa Pepper-Macias, candidata ao Senado pela Voz dos Trabalhadores - LIT-QI

O Opinião Socialista conversou com Rosa Pepper-Macias, uma jovem militante da Voz dos Trabalhadores (Workers’ Voice, seção da Liga Internacional dos Trabalhadores, a LIT, nos EUA), candidata ao Senado por Connecticut nas eleições de meio de mandato (midterms), que abrangem a Câmara dos Representantes (o que seria nossa Câmara dos Deputados), além de um terço do Senado.

Com um programa revolucionário e socialista, Rosa explica a necessidade de se fortalecer a organização independente dos trabalhadores contra Trump e a extrema direita, superando o Partido Democrata e suas correntes supostamente radicais.

Rosa, por que você se candidatou, a que cargo, qual o partido e quais são os principais pontos do seu programa?

Sou uma cozinheira, transgênero, tenho 23 anos e trabalho em um hotel em New Haven, Connecticut. Sou candidata ao Senado estadual de Connecticut pelo Distrito 11. Connecticut ocupa o segundo lugar entre todos os estados do país em desigualdade de renda.

Essa é uma das muitas razões pelas quais me candidato pela Voz dos Trabalhadores, com uma plataforma que exige: comitês de defesa dos trabalhadores para deter a campanha de terror do ICE; o fim das guerras e das agressões imperialistas dos Estados Unidos; controle operário sobre a produção para combater as mudanças climáticas; uma jornada de trabalho mais curta, sem redução salarial; reparações integrais e autodeterminação para a população negra, os porto-riquenhos e todas as comunidades indígenas e colonizadas; o fim das agressões contra as pessoas trans e todas as pessoas LGBTQIA+; contraceptivos, serviços de aborto, cuidados infantis e atendimento às pessoas idosas gratuitos, públicos e oferecidos de acordo com a demanda; apoio econômico e social integral às pessoas com deficiência; a construção de um partido classista que una toda a classe trabalhadora e as pessoas oprimidas na luta contra os capitalistas; a expropriação pública das empresas da lista Fortune 1000 — incluindo bancos, empresas do setor energético, de transporte e logística, grandes redes varejistas e indústrias manufatureiras — sob controle democrático dos trabalhadores; e um governo dos trabalhadores e uma economia planificada: pelo socialismo!

Para nós, nos dias de hoje, o Partido Democrata tem sido sistematicamente a face “de esquerda” dos capitalistas. É o órgão que, assim como o baço, absorve tudo aquilo que ameaça o sistema como um todo, para filtrar e eliminar essas ameaças.

Assim como os heróis sobreviventes da luta pelos direitos civis da década de 1960, que viveram o suficiente para se verem transformados no establishment dos anos 2000, pessoas como Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Zohran Mamdani verão, mais ou menos lentamente, sua retórica radical e suas posições social-democratas serem filtradas, destruídas ou marginalizadas.

Cada vitória de candidatos alinhados à DSA (Democratic Socialists of América - Democratas Socialistas da América em português) nas primárias democratas aprofunda ainda mais a integração da organização ao Partido Democrata e às suas instituições, afastando cada vez mais do horizonte a suposta “ruptura” com o partido capitalista que muitos integrantes da DSA afirmam, desde 2016, estar prestes a acontecer. Os esforços da DSA para reintegrar ao sistema os trabalhadores descontentes tiveram bastante sucesso e representam um grande obstáculo ao desenvolvimento de uma esquerda socialista e revolucionária independente.

O Partido Democrata é um partido capitalista e, independentemente das justificativas, aqueles que o constroem fortalecem o poder da classe capitalista. O que este período demonstra é tanto a popularidade das ideias socialistas quanto a necessidade de organizações independentes da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, os ataques de Trump e da extrema direita não vão parar por conta própria. Os democratas travaram uma luta muito limitada contra essa política — talvez nem sequer seja possível chamar isso de luta.

O que será decisivo nos próximos meses não é a quantidade de democratas no Congresso, mas a quantidade de trabalhadores e sindicatos que estarão nas ruas, organizando greves e construindo os núcleos organizativos capazes de colocar em movimento o poder da classe trabalhadora.

Precisamos urgentemente organizar campanhas de defesa política para libertar todos os presos políticos e defender os povos imigrantes e oprimidos contra os capangas do ICE, além de ampliar essas lutas até que se tornem movimentos de massas.

Como você avalia a situação atual das liberdades democráticas nos Estados Unidos? Quais são os principais riscos e desafios enfrentados pelos movimentos populares e pela classe trabalhadora?

O governo Trump está promovendo uma avalanche de ataques às liberdades democráticas nos Estados Unidos. Os sindicatos, as conquistas dos movimentos antirracistas, LGBTQIA+ e de mulheres estão sendo atacados. Até mesmo as liberdades básicas de expressão e as instituições democráticas liberais, como as eleições, vêm sendo enfraquecidas.

Trump ainda conta com um movimento de massas fascista, embora ainda não tenha imposto uma ditadura completa. Seu governo aproveita todas as oportunidades que surgem para reforçar a autoridade ditatorial do Estado e, de modo geral, continua contando com o apoio fundamental dos setores mais poderosos da burguesia.

No entanto, falta-lhe amplo apoio, apesar de manter uma base consistente de aproximadamente 30%. Ele também foi obrigado a recuar em determinadas políticas e a mudar seus planos diante da resistência e da indignação popular, como vimos nas suas políticas de deportação.

Temos, portanto, o desafio central de consolidar e ampliar um movimento de massas capaz de enfrentar essas políticas de maneira consciente e consistente, em escala nacional.

Por um lado, precisamos estar conscientes dos ataques diretos do governo e atentos a eles. Devemos reconhecer que vivemos um momento político em que ainda existem muitas garantias de liberdade que nos permitem organizar publicamente nossas lutas e que continuam contando com amplo apoio de setores da classe trabalhadora. Por isso, precisamos urgentemente organizar uma defesa política que seja a melhor maneira de proteger essas liberdades.

Qual é a responsabilidade do governo norte-americano na guerra em Gaza e por que a luta em defesa da Palestina é uma questão estratégica para os trabalhadores e a juventude dos Estados Unidos?

Israel só consegue realizar seus ataques militares graças ao apoio militar dos Estados Unidos, que fornecem todas as aeronaves e a logística necessária para conduzir campanhas de bombardeios por toda a região.

Além disso, os Estados Unidos forneceram importante apoio diplomático a Israel, garantindo-lhe impunidade apesar das atrocidades que cometeu.

Por isso, a luta em defesa da Palestina nos Estados Unidos, conduzida pela juventude e pelos trabalhadores, tem um caráter estratégico. Se nos organizarmos, poderemos deter a política pró-Israel deste país.

Além disso, temos o desafio de organizar os trabalhadores das indústrias bélicas norte-americanas que abastecem o Exército sionista, para que rompam com essa política belicista e imperialista.

Os democratas apostam que vão se beneficiar eleitoralmente com o atual desgaste de Trump. Como você analisa a situação dos EUA hoje? Que alternativas os trabalhadores encontram diante da polarização entre republicanos e democratas?

É verdade que Trump chega a estas eleições muito mais desgastado do que na última vez, e é possível que os democratas se beneficiem disso.

Mas os democratas não oferecem nenhuma saída nem alternativa. Não têm um plano de recuperação econômica para a classe trabalhadora.

Há um cenário de descontentamento, miséria e desilusão em amplos setores da classe trabalhadora. Não existe alternativa pronta: precisamos construí-la. Isso começa pela organização de sindicatos combativos e de movimentos de massas em defesa dos oprimidos, organizados democraticamente e fora do controle do Partido Democrata.

A iniciativa e a disposição existem, mas ainda temos pela frente a tarefa da organização.

O Brasil também está passando por um processo eleitoral neste período. Que mensagem você gostaria de transmitir aos trabalhadores, à juventude e aos movimentos sociais brasileiros que acompanham a luta da classe trabalhadora nos Estados Unidos?

Minha mensagem é que continuem nas lutas e mantenham sempre uma consciência internacionalista. Estamos unidos na luta contra o capitalismo, que representa um desafio global. Nossas lutas contra a opressão, em todas as suas dimensões, são parte indissociável desse quadro.

Diante das ameaças da extrema direita, sofremos a pressão de buscar saídas rápidas ou fáceis, tentando chegar a um acordo com o capitalismo para reformá-lo e, assim, alcançar uma vida melhor.

Mas o que vivenciamos nos Estados Unidos e em todo o mundo é que esses acordos nos tiram as forças para continuar lutando. Eles nos desarmam diante do próximo ataque.

Por isso, é fundamental seguir um caminho independente, baseado no poder da classe, em nossas próprias forças e em nossa própria direção.

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