Não são recentes na tradição teórica ocidental as tentativas de conciliar os saberes produzidos pela psicanálise e a teoria socioeconômica marxiana e marxista. Em “Psicologia das Massas do Fascismo”, livro publicado originalmente em 1933, Wilhelm Reich – psiquiatra e psicanalista austríaco expulso do Partido Comunista da Alemanha (KPD) naquele mesmo ano por defender ideias consideradas muitos radicais – evidencia-se como um dos principais expoentes do chamado freudo-marxismo. Na obra, Reich denuncia a vulgarização do pensamento marxiano, os equívocos do economicismo e do objetivismo, e a degeneração do socialismo na Rússia Soviética sob o regime stalinista.
Como fruto de sua experiência clínica e teórica, Reich conseguiu transitar com profundidade entre o inconsciente individual e os condicionamentos sociais materiais próprios da sociedade a qual pertencia, observando que o marxismo vulgar havia negligenciado o papel da subjetividade, da ideologia, no desenrolar-se da história, procurando demonstrar que, no caso específico do fascismo alemão – um movimento político-partidário de massas sustentado pela classe média baixa e por parcelas significativas do proletariado – as condições de miserabilidade a que estavam submetidos os trabalhadores não resultaram em uma maior adesão ao projeto socialista, mas sim, ao contrário das previsões objetivistas, em um virada radical à direita, na medida em que o fascismo era a expressão politicamente organizada da estrutura de caráter do homem médio, condicionada, por sua vez, pela superestrutura e as ideologias e mistificações que dissemina.
Partindo desta tradição, este texto busca explorar alguns pontos de contato entre a teorização psicanalítica acerca do “fetiche” como fenômeno psicossexual e a caracterização marxiana do “fetichismo da mercadoria”, desenvolvendo algumas implicações dessa convergência no que tange à relação dialética entre subjetividade e objetividade, entre indivíduo e sociedade. Neste sentido, o texto é orientado pela seguinte questão-problema: como as relações de semelhança entre os dois conceitos podem auxiliar-nos em uma análise da sociedade que permita ao partido revolucionário a elaboração de táticas de intervenção na luta de classes e de disputa ideológica que partam de uma radicalidade, isto é, uma compreensão dos processos e dinâmicas sociais a partir de suas raízes?
A origem do termo “fetiche”
A palavra francesa fétiche tem sua origem no termo português feitiço, que surgiu no século XV para se referir a objetos com poderes mágicos ou sobrenaturais utilizados em práticas rituais por povos da África Ocidental. Podemos notar, portanto, que, desde sua origem, a palavra fetiche já trazia em seu significado algumas das características que lhe são próprias nos usos a ela atualmente atribuídos, o que nos ajuda a compreender tanto o conceito psicanalítico, quanto a categoria que Marx utilizou para revelar um dos pontos centrais do funcionamento do modo de produção capitalista.
Os colonizadores portugueses que utilizaram pela primeira vez esta palavra expressaram um processo lógico-linguístico que está no cerne da apreensão de seus posteriores significados, a saber, uma substituição simbólica, uma metonímia, em que ocorre um deslocamento de foco dos processos (rituais) para os objetos que neles são utilizados ou que deles resultam. Veremos, adiante, que este é um ponto central para a relação que se busca realizar no presente texto.
A economia psíquica do fetichismo
Para a psicanálise, o fetiche é uma defesa que o indivíduo mobiliza quando se defronta com a angústia da castração, tendo por objetivo (inconsciente) protegê-lo dessa emoção e mascarar sua falta constitutiva, sua incompletude. A solução fetichista surge diante do trauma que a criança do sexo masculino experiencia quando percebe a ausência do pênis na mulher, o que provoca o temor face à ameaça da castração. O menino, simultânea e contraditoriamente, nega e reconhece a falta do falo na mulher, substituindo o pênis do qual, para ele, ela está privada, por algum objeto (sapatos, meias) ou parte do corpo feminino (pés, mãos, cabelos) que se revelam antes da percepção traumática, investindo sua libido neste substitutivo sem o qual, a partir de então, a excitação não pode se realizar.
O fetiche exerce, portanto, na acepção psicanalítica da economia psicossexual, uma função mediadora entre desejo e realidade, mascarando a falta estrutural inerente à condição humana e mistificando a sexualidade através da ocultação de uma relação mais complexa, profunda e, sendo assim, potencialmente angustiante.
Mercadoria, valor e fetichismo em Marx
Já na teoria socioeconômica marxiana, o conceito de “fetichismo da mercadoria” é utilizado para descrever o processo através do qual ocorre um ocultamento das relações sociais concretas que produzem as coisas, como a predação da natureza e a exploração do trabalho, sendo que as mercadorias adquirem um valor social autônomo independente dessas relações. Como uma ilusão socialmente necessária à reprodução do modo de produção capitalista, o “fetichismo da mercadoria” naturaliza os processos sociais e econômicos que materializam os produtos, mistificando as relações subjacentes e as substituindo por uma valoração simbólica intrínseca atribuída às mercadorias, tendo como um de seus objetivos a proteção da ideologia dominante contra os conflitos que podem surgir de uma ampliação da consciência de tais processos.
Possíveis mediações entre Psicanálise e Marxismo
Podemos estabelecer muitas aproximações entre o fetiche analisado à luz da psicanálise e o “fetichismo da mercadoria” que Marx desvelou, a começar pela compreensão de que, em ambos casos, e de modo pertinente à origem etimológica da palavra, os fenômenos evidenciam um processo inconsciente e/ou automático que busca ocultar as relações mais profundamente neles implicadas, deslocando-as ou as substituindo, através de uma metonímia, com a finalidade de evitar uma angústia ou os conflitos decorrentes da tomada de consciência, quer da falta constituinte da existência humana, de sua incompletude, quer das relações capitalistas de predação e exploração necessárias à produção de mercadorias.
Cabe nos questionarmos se podemos extrapolar esta similitude e, talvez, conjecturar que, nas sociedades capitalistas, busca-se, como modo de mascaramento da realidade, como um véu encobrindo o real, o ocultamento das contradições próprias deste modo de produção, tornando inconscientes os meios fundamentais à produção e reprodução da sociedade. Um conceito que parece responder a essa amarração dialética que se intenta realizar é o de alienação. O indivíduo que se defende da falta estrutural através do fetiche se aliena da plenitude de sua sexualidade, ficando condicionado ao objeto fetichizado como fonte mística de prazer. Já em sociedade, nas relações de troca, o indivíduo se aliena das relações socialmente necessárias à produção das mercadorias às quais recorre a fim de contornar, ainda que momentaneamente, sua incompletude, encontrando nelas uma fonte fetichizada de gozo e satisfação.
Consumo, desejo e capital
Sabemos que o capitalismo é um sistema econômico e social caracterizado pela produção à revelia do consumo. Primeiro, se produz e, então, por meio do recurso a estratégias de marketing e propaganda, busca-se convencer, ideologicamente, com apelo às camadas mais profundas do inconsciente humano, as pessoas de que necessitam daquela mercadoria. Por isto, as crises do capitalismo frequentemente são crises de superprodução (ou subconsumo). Em uma sociedade em que é operada uma personificação das coisas, e uma coisificação das pessoas, é compreensível que alguns acreditem que sua felicidade e bem-estar depende do status a eles conferidos em consequência da aquisição desta ou daquela mercadoria, ainda que, para produzi-la, tenha sido preciso predar a natureza e explorar os trabalhadores.
Reich e os desafios da luta ideológica na atualidade
No livro que analisou o fascismo alemão desde uma perspectiva que buscava relacionar os fatores subjetivos aos elementos objetivos das condições de produção e reprodução dos indivíduos na sociedade burguesa, Reich procurava trazer a atenção de seus leitores para o fato de que a explicação para o fenômeno político-partidário fascista não se encontrava nos determinantes econômicos que caracterizavam as sociedades europeias de então, mas em condicionamentos ideológicos relacionados à subjetividade das pessoas médias.
Se desejamos ser radicais, isto é, ir às raízes dos fenômenos e processos, hoje, ao refletirmos sobre as tarefas do partido revolucionário a partir dos erros e acertos daqueles que nos precederam na luta pelo socialismo, não podemos tangenciar a percepção de que, tão importante quanto as reivindicações econômicas provisórias caras ao conjunto da classe trabalhadora, precisamos travar uma disputa ideológica que desvele, desmascare, a perversidade do modo de produção (de mercadorias, de subjetividades) capitalista, apontando para a perspectiva de uma sociedade em que a falta que constitui os sujeitos possa ser solucionada através do trabalho como realização de um potencial criativo, e em que a natureza, na sua finitude, não seja vista como um elemento de castração das forças produtivas.
Limites e possibilidades
Por fim, ressalto que este ensaio não tem por finalidade esgotar a temática, senão o de abrir e ampliar o debate acerca da dialética entre indivíduo e sociedade, subjetividade e objetividade, carecendo de maior aprofundamento teórico e servindo, sobretudo, como um convite àqueles que se interessam pela questão para que aportem a este texto suas inestimáveis contribuições e percepções sobre os fenômenos que estiveram em escopo ao longo destas linhas, acrescentando análises e observações que permitam que desenvolvamos a teoria e a prática revolucionárias.
Hoje e sempre, até a Revolução!
Para se aprofundar
REICH, W.Psicologia das Massas do Fascismo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
Wilhelm Reich e a Revolução Ausente.Disponível em:https://movimentorevista.com.br/2024/03/wilhelm-reich-e-a-revolucao-ausente/.
O Freudismo e os “Freudo-marxistas”.Disponível em:https://lavrapalavra.com/2022/05/30/o-freudismo-e-os-freudo-marxistas/
Fetiche.Dicionário Priberam. Disponível em:https://dicionario.priberam.org/fetiche
MELLO, C. A. A.Um Olhar sobre o Fetichismo. Reverso, Belo Horizonte, v. 29, n. 54, set./2007, pp. 1-6 Disponível em:https://pepsic.bvsalud.org/pdf/reverso/v29n54/v29n54a10.pdf.
O que Significa o Fetichismo da Mercadoria?Disponível em:https://blogdaboitempo.com.br/2023/09/06/o-que-significa-o-fetichismo-da-mercadoria/.
Capítulo XIV – As Crises Econômicas - O Fundamento das Crises Capitalistas de Superprodução.In.:Manual de Economia Política.Academia de Ciências da URSS. Disponível em:https://www.marxists.org/portugues/ostrovitianov/1959/manual/14.htm