A extrema direita brasileira tenta se renovar com Augusto Cury

Quilombo das Rosas, (PSTU Zona Leste/São Paulo)
A extrema direita brasileira tenta se renovar com Augusto Cury
Foto Divulgação

Danilo Soares

Após o debate realizado pela TV Bandeirantes, que não contou com a presença de Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e, também do candidato Hertz Dias (PSTU), além de outros partidos de esquerda que sequer foram convidados, o candidato à presidência Augusto Cury (que a princípio também havia desistido do debate), voltou atrás e acabou tendo um saldo positivo, viralizando nas redes sociais. Cury ganhou cerca de 600 mil seguidores em suas plataformas e a busca por seu nome também aumentou consideravelmente.

Não é difícil encontrar diversos relatos nas redes sociais, especialmente de um público jovem que antes votaria em Flávio Bolsonaro e agora afirma que votará em Cury. O mais peculiar são relatos de pessoas que se dizem de "esquerda" também afirmando que foram seduzidas por essa "terceira via" e que votarão no candidato.

Para quem acompanha a política brasileira nos últimos anos, sabe que esse movimento não é novidade. Após o visível desgaste do bolsonarismo, a direita busca suavizar o discurso para aumentar novamente seu eleitorado. A figura de Augusto Cury, me baseando em seu plano de governo com cerca de 200 páginas, não é diferente de Aécio Neves, Geraldo Alckmin, José Serra, Ciro Gomes, entre outros.

É perceptível um ciclo dentro da democracia burguesa brasileira que gira em torno do social-liberalismo do Partido dos Trabalhadores, da centro-direita moderada à lá PSDB/MDB e da ultradireita de Bolsonaro e MBL. Todos expressões de alternativas de administração do capitalismo num contexto de decadência e retrocesso do Brasil, ainda que de diferentes formas.

É intencional gerar essa noção de mudança periódica para que o capitalismo siga nos destruindo de forma imperceptível para a maioria das pessoas. Trazendo um jargão utópico que mescla a lógica capitalista com uma certa "consciência social", Augusto Cury não é uma terceira via, muito menos um viés de esquerda. Trabalhar para superar o capitalismo de forma internacional e definitiva segue sendo a única opção de perspectiva para o futuro.

Nesse sentido, o fenômeno Cury cumpre um papel estratégico e muito bem calculado para a burguesia nacional: capturar o descontentamento legítimo da juventude precarizada e de setores da classe trabalhadora que já não se veem representados nem pelo lulismo desgastado e de conciliação de classes, nem pelo bolsonarismo abertamente reacionário.

Ao oferecer um discurso que mistura autoajuda, psicologia positiva, meritocracia com verniz emocional e uma suposta gestão técnica e eficiente do capital, ele consegue canalizar a revolta e a angústia geradas pelo próprio capitalismo para uma saída completamente inofensiva ao sistema. É a velha estratégia de mudar tudo na aparência para que nada mude na estrutura, esvaziando qualquer perspectiva real de transformação radical e fazendo com que a esperança de mudança seja depositada, mais uma vez, em um salvador da pátria burguês.

Em conclusão, a ascensão de Augusto Cury não representa ruptura, mas sim a reciclagem necessária do projeto burguês para se manter hegemônico. É a tentativa de apresentar, com uma roupagem mais palatável, técnica e "humanizada", o mesmo programa de austeridade, privatizações e conciliação com o mercado que já nos foi vendido tantas vezes. Enquanto nos distraímos com a ilusão de uma terceira via que seria mais moderada, as estruturas que geram desigualdade, miséria e opressão permanecem intocadas.

Por isso, não há saída por dentro desse revezamento controlado entre PT, PSDB e bolsonarismo repaginado. A tarefa histórica que se impõe segue sendo a organização independente da classe trabalhadora, para além das ilusões eleitorais, com o objetivo de romper definitivamente com o capitalismo e construir uma alternativa socialista e internacionalista.

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