De volta aonde tudo começou?

Luiz Carlos Prates (Mancha), de São José dos Campos (SP)
De volta aonde tudo começou?

O início da campanha para a reeleição de Lula à Presidência foi marcado para o dia 16, no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Neste estádio, em 1979, foram realizadas grandiosas assembleias de greve dos operários do ABC paulista (São Bernardo, Santo André e São Caetano), que desafiaram as multinacionais e o regime militar. Durante dias, uma multidão que chegou a 80 mil pessoas se reuniam e decidiam os destinos da greve, cercada pela repressão. 

Lula, naquele momento presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, era o protagonista do movimento. Daí nasce o caráter simbólico que agora tentam resgatar. Mas se passaram 47 anos, e muita coisa mudou no movimento operário e no próprio Lula. Naquela época, a classe operária do ABC, jovem, oriunda do campo e de uma imigração predominantemente nordestina, entrava em cena. 

A greve em si era um gesto político, pois era proibida pela ditadura. Esse movimento custou caro: resultou em intervenção nos sindicatos, prisão de líderes e demissão de centenas de ativistas. A mobilização se espalhou pelo interior do estado de São Paulo, avançou pelo país e alcançou outras categorias, dando origem ao que se convencionou chamar de “Novo Sindicalismo”. 

Em 1980, a partir de uma proposta inicialmente apresentada por José Maria de Almeida, o Zé Maria, no Congresso dos Metalúrgicos em Lins em 1979, foi fundado o PT, rompendo com os partidos do regime: a Arena (Aliança Renovadora Nacional, aliada dos militares) e a oposição consentida (MDB). Em 1982, Lula candidatou-se ao governo do estado de São Paulo pelo PT. Seu lema era: "Vote no 3, o resto é burguês" (em alusão ao seu número na urna). Isso escancarava a vocação classista do partido, que se apresentava de forma antagônica a todas as variantes patronais.

Quase cinco décadas depois, a ditadura caiu, veio a Nova República e o PT, outrora combatente do regime e visto como antissistema, chegou ao poder. Primeiro conquistou prefeituras, depois institucionalizou-se no Parlamento e, finalmente, alcançou o governo federal. Agora, o PT não atua mais como um partido independente dos patrões, mas sim em alianças explícitas com a burguesia, como fez no passado com José Alencar e, atualmente, com Geraldo Alckmin. 

No governo, o partido administrou o sistema. Em alguns momentos, aproveitando-se de uma situação internacional estável de alta das commodities, pôde fazer pequenas concessões sociais. Contudo, diante da crise global do capital, o partido é empurrado a rebaixar as condições de vida do povo, tornando-se o gestor do capitalismo nacional. Toda uma geração nascida nas últimas décadas teve sua iniciação política sob o impacto dos governos petistas.

O desgaste da Nova República, a decadência e a desindustrialização do país, somados à desilusão e à desmobilização dos trabalhadores causadas por anos de conciliação de classes, abriram espaço para a extrema direita (um fenômeno mundial). Esta última capitaliza o descontentamento e aparece como "antissistema", quando na verdade representa a face mais horrorosa desse mesmo capitalismo decadente. 

Foi assim que a reação ganhou relevância e chegou ao governo federal com o desastroso governo Bolsonaro.É sob o temor do retorno desse pesadelo que se alicerçam a base social do governo Lula e a sua política de "Frente Ampla", uma estratégia que arrasta toda a chamada esquerda institucional, como se a cartilha econômica e política do PT fosse a única saída possível. 

O problema central é que não enfrentar as raízes da exploração capitalista e insistir em administrar a crise apenas fornece mais combustível para a extrema direita. Assim, o mote de "voltar aonde tudo começou" não passa de uma ilusão que nega a essência da história. O que surgiu das lutas e das greves do ABC contra o regime militar e contra o sistema já não existe mais na direção atual do partido. O Brasil mudou, e o PT mudou: deixou de ser uma alternativa classista para se tornar o pilar de sustentação do próprio sistema. Por uma ironia histórica, o início dessa campanha ocorre em um dia 16, trazendo à memória o antigo jargão operário: "Contra burguês..."

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