Diário da tristeza comum

Lena Leal
Diário da tristeza comum

“O inimigo pode derrotar Gaza. Pode cortar todas as suas árvores. Pode quebrar seus ossos. Pode plantar seus tanques na barriga de suas mulheres e de seus filhos (...) Gaza não dirá sim aos conquistadores.” (Editora Tabla)

Lançado em Beirute em 1973 e absurdamente atual, cada um dos nove textos que acompanham a vida do poeta - desde a infância roubada na diáspora de 1948 (Nakba), o retorno e a condição de exilado em seu próprio país - saem das páginas como estilhaços da tristeza comum ao povo palestino.

Nascido em 1941 no vilarejo de Al-Birweh, próximo à Akka, foi o segundo de oito filhos de uma família de proprietários de terra, arrasada pela violenta invasão sionista. Lançou seu primeiro livro de poesia aos 19 anos - Pássaros sem asas - e, entre prisões e exilio, ingressa na OLP (Organização pela Libertação da Palestina) em 1970, sendo de sua autoria a Declaração da Independência da Palestina, de 1988. Em 93, rompe com a organização por discordar do teor entreguista dos Acordos de Oslo, e em 95 retorna do exílio e se instala na região da Cisjordânia. Considerado um dos grandes poetas da língua árabe, escreveu dezenas de livros e recebeu premiações em vida, por sua obra.

Olhei a capa. Senti aquele cheiro típico de livro novo e, após dias, dei-me conta que o abria e fechava. Estava a fugir dele, de sua lucidez desconcertante. Sabia que estava por embarcar numa viagem sem volta. Sem desvios melodramáticos ou autopiedosos, página a página, a vida do poeta se entrelaça com o tipo particular de violências múltiplas, hipocrisia e genocídio a que é submetido o povo palestino.

Para além de toda a percepção que possamos ter da longa história de usurpação, massacre e heróica resistência, a leitura do Diário nos faz penetrar em camadas profundas do que significa ser palestino a partir de crônicas mergulhadas numa poesia, ora melancólica, ora irônica ou raivosa. Darwish nos leva para as tristezas e absurdos kafkanianos, mas também para a alegria persistentemente guerreira em defesa da vida palestina, alimentada pela justa indignação diante do saque e genocídio. Ler o Diário nos sacode para que não percamos o sentido da solidariedade internacional a todos os povos oprimidos.

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Ghurba como condição de vida: fragmentos biográficos

“O mero ato de procurar é a prova de que me recuso a me perder na minha perda.”

Ghurba, em árabe, significa o sentimento de quem está fora de sua terra, mesmo que nela esteja. Essa saudade particular, um estado de deslocamento e estranhamento quase indizível se traduz nas palavras do poeta ao longo do livro.

Em “A lua não caiu no poço” acompanhamos a procura de Darwish por sua infância nas colinas do vilarejo, a ida confusa e iludida da família para o Líbano, em 1948, e o choque do retorno. “O que era mais doloroso, ser refugiado no país dos outros ou no seu próprio país?” o poeta se pergunta ao ver as aldeias devastadas para serem ocupadas pelos conquistadores. Para ele, o retorno da família foi uma forma de torná-los “intensamente conscientes” de estarem ali, transformando o tormento em potência de rejeição.

Em “A pátria: entre a memória e a história”, a pergunta sobre o que é, afinal, uma pátria, serve de pano de fundo para andarmos em sua estrada do exílio. As respostas são muitas, atravessando sua história e a da Palestina que, em 1973, completava um quarto de século da usurpação e ocupação pelo Estado de Israel.

E foi no sul do Líbano quando criança que Darwish entendeu, pela primeira vez, o que era a pátria: “era aquela coisa que se perdeu”.

Fecho o livro. Preciso me afastar um pouco. Quando o reabro, está ali, escrito há mais de 50 anos o que define o que vemos acontecer em proporções gigantescas, em Gaza - “Não se trata de guerra nem de luta, mas de genocídio”.

A luta entre memórias

“Viemos, atiramos, queimamos, explodimos, expulsamos e mandamos para o exílio” - Yizhar Smilansky,escritor israelense, no romance Khirbet Khizah, 1949

Tal frase, vinda de um escritor israelense, serve para corroborar o que Darwish chama de disputa de memórias em relação ao sentido de pátria. Desde argumentos bíblicos até o uso do Holocausto como chantagem, ele afirma que a invisibilização absoluta do povo palestino e os usos de violência cotidiana permitem visualizar terríveis semelhanças com as práticas nazistas. “Eles ocupam não somente a terra e o trabalho, mas também sua psique”.

Por outro lado, na longa caminhada pelo direito de existir, o poeta descobre que a pátria é agarrar-se à memória e que junto à ela lutar é a única pátria possivel.

Em “Quem mata 50 árabes perde 01 centavo” Darwish se dedica a denunciar o Massacre de Kafar-Qassim, ocorrido em 1956, dias antes do ataque israelense ao Egito. De uma crueldade psicótica, foi decidido toque de recolher no pequeno povoado com a justificativa de que ficava a meio caminho para passagem de tropas. O detalhe é que foi anunciado meia hora antes de iniciar e a ordem (constante nos laudos de um posterior tribunal pantomímico) foi expressa: matar quem estivesse na rua, mesmo com praticamente toda a população não sabendo da ordem, além dos que estavam em deslocamento para casa. Adivinhem o que aconteceu com os assassinos?! O general responsável pela ordem pagou, literalmente, a multa de 01 centavo israelense.

O absurdo como cotidiano

“Acha que vão nos acusar de sermos sírios? Mas vcs não são? Sim. E isso é uma acusação? Não sabemos.”

Pense em qualquer rotina básica, como atravessar uma rua e ir à padaria. Precisa dormir? Quer festejar aniversário com amigos? Trabalhar? Visitar a mãe? Provar que você existe?Tentar se divertir na rua? Tudo, absolutamente tudo é minuciosamente organizado há décadas pelo Estado sionista para transformar a vida de palestin@s e de vizinhos árabes num inferno cotidiano. No texto que dá nome ao livro, Darwish aciona o modo irônico para revelar algumas situações beirando o patético. Já em “A alegria quando trai” ele narra a profusão de sentimentos envolvendo a expectativa e tristeza na Guerra dos Seis Dias (1967).

“ Você vê a guerra. De repente se lembra de que a Palestina é o seu país. Negaram-lhe suas canções antigas da escola e as histórias dos revolucionários e poetas que cantavam louvores a ela. Volta enfim de sua viagem ao absurdo.Você sente uma amizade profunda pelos dias”

Por fim, o “Silêncio por Gaza” parece saído desses dias tristes de 2024 como um grito profundo que procura nos despertar para que não a deixemos morrer.

“Seus poros falam suor, sangue e fogo. Por isso o inimigo odeia o suficiente para matar, tem medo dela o suficiente para cometer crimes e tentar afundá-la no mar, no deserto ou no sangue.”

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