Vidas Trans Importam: Arte & Resistência

Lena Leal
Vidas Trans Importam: Arte & Resistência

Na tela diziam que Madri era uma cidade em que os rapazes maquiados dançavam até o amanhecer; em San Blas, o fragmento que me dizia respeito, os adultos discutiam com toda normalidade se era pior ter um filho viciado ou um bicha” - (Alana Portero - Mau Hábito, p. 65 Edit. Amarcord)

Vida trans na periferia de Madri

Em seu romance de estréia a historiadora, escritora e dramaturga - nascida em 1978 - nos entrega pistas sobre o que é ser uma menina transexual no bairro operário de San Blas nos anos 80.

Pouco antes de seu nascimento, com a morte do ditador Francisco Franco em 1975, acabava uma das mais terríveis e longevas ditaduras do século XX no continente europeu.

Madri então respirava ares novos, movimentos sociais iam às ruas, irrompiam grandes greves e um clima de liberdade no ar que permitiu a visibilidade de comunidades LGBTQI+ e de movimentos contraculturais como o famoso Movida Madrileña e o cinema de Pedro Almodóvar. No entanto, nem tudo eram flores!

Narrado na primeira pessoa, o romance acompanha - da infância até a fase adulta - a vida dessa menina que “cresce em um corpo que não sabe habitar”.

Lembrei-me já nas primeiras páginas do personagem Ludovic, do maravilhoso filme “Minha Vida em Cor de Rosa”, roteiro e direção de Alain Berliner, de 1997.

Mas diferente das cores do filme de Berliner - que pinta uma leveza comovente da criança perplexa diante da brutalidade transfóbica da vida adulta - Portero pincela com crueza histórica o bairro operário de sua infância e juventude e as dores de se esconder no armário para sobreviver.

A primeira coisa que uma menina trans aprende quando o entorno é hostil à sua causa, antes mesmo de saber o que é, quando tudo é apenas intuição, é a controlar sua vontade, ou a fingí-la até que ela mesma quase não saiba quando está certa e quando não. A construção do binarismo era feroz nesse início de década (p. 63)


Nesse romance de formação, com analogias e metáforas certeiras, acompanhamos a menina e seu mundo - a família, vizinhos, personagens importantes em sua vida como Margarida, Jay e Eugênia - e as contradições de uma classe operária combativa, mas profundamente saturada de preconceitos com identidades não alinhadas no padrão conceituado como “cisheteronormativo”. Tal padrão comprovadamente não dá conta da complexidade humana na medida em que apenas o aparelho biológico reprodutivo é parâmetro de “normalidade”, não reconhecendo a variedade de subjetividades e sexualidades envolvidas ao longo da vida.

Em sua jornada de autoconhecimento e convívio social - como nos piquetes com seu pai - a menina também percebe as contradições entre a postura combativa nas lutas - “A primeira coisa que entendi foi que um fura-greve é alguém que abandona seus pares e os trai para seu proveito próprio” (p. 41) - e o silêncio masculino diante de situações de violência doméstica.

Frente ao vizinho agressor, a atitude de pacto, uma espécie de auto-proteção masculina era evidente:

Era estranho. Diziam que era um criminoso. Tinham nojo dele mas pareciam ter formado em torno de qualquer homem, um piquete que não podia ser atravessado. (p. 42)

San Blas surgiu como parte de um grande projeto franquista de construção de moradias nos anos 50 - El Gran San Blas. Rapidamente se transformou em espaço de convivência coletiva e forte consciência e solidariedade de classe. Filha de operários e com olhar aguçado, a menina cresce neste ambiente e acompanha as políticas de desmonte desses laços por parte do novo regime democrático-burguês na década de 80.

Muitos anos depois, quando retorna ao bairro já adulta, nos anos 90, percebe as mudanças arquitetônicas como expressão do modelo de vida neoliberal imposto pelo capitalismo.

Tornara-se residencial ao gosto dos governos conservadores, vendendo um aburguesamento fictício(...) as redes de pequenos cuidados foram se desfazendo a cada funeral” (p. 246) e a consciência de classe tinha minguado restando somente uma precária solidariedade. A vida comunitária, mesmo com suas pequenas violências, mas também com afetos e trocas, fora substituída pelas portas fechadas.

Como que provocando delicadamente a nos despirmos de preconceitos, ela indaga:

O ritual constituído por vestir-se, maquiar-se e apresentar-se ao mundo(...) Como algo tão lindo, algo tão pessoal e extraordinário, como compartilhar com o mundo um feito que vibrava pura alegria, poderia ser percebido com tanta maldade por outras pessoas? (p. 230)


La Chola Poblete na Argentina que não é branca

No meu país chamo mais a atenção pela cor da minha pele e traços indígenas do que por ser uma mulher trans” (https://www.artebrasileiros.com.br)

Em outra periferia - Guaymallén, na região de Mendoza, no outro lado do Atlântico - nascia em 1989 a multiartista trans que veio a se identificar como La Chola Poblete.

Premiada na 24ª Bienal de Veneza e com recente Mostra individual no MASP (www.masp.com.br) sua vasta obra - que inclui escultura, pintura, desenho, fotografia, performance e videoarte - desconstrói uma suposta identidade branca e eurocêntrica de seu país. O fato de ser a primeira argentina indígena e trans a receber esse reconhecimento é visto pela artista como a “confirmação de uma lacuna histórica”.

A partir de sua sensibilidade, que também é coletiva, ancestral e vinculada à sua classe social, a artista decidiu se apropriar e ressignificar o termo “Chola”, usado como injúria racial para nominar as trabalhadoras de ascendência indígena na macrorregião dos Andes - Argentina, Chile, Peru, Equador e Bolívia.

Numa conjuntura histórica em que as cenas de racismo por parte da torcida argentina na Copa do Mundo ganhou destaque, obras como a de Poblete são fundamentais para recontar o lado apagado da história latino-americana e visibilizar a “Argentina Marrom”.

Segundo Leandro Muniz, um dos curadores da Mostra da artista no Masp (em cartaz até início de agosto) e que integra o Programa “Histórias Latino-Americanas”, sua obra extrapola o individual ao colocar em cena identidades indígenas, dissidências de gênero e os efeitos persistentes do colonialismo na América Latina.

Pop Andino: Rebeldia que contamina

No centro da sala vemos “Vênus Marrona radiada”, escultura de uma mulher deitada, nua, como que mumificada, feita de pão, de cujas entranhas saem pães trançados. Em destaque como uma porta de acesso à sua obra, a escultura feita com alimento tão importante para a subsistência das comunidades andinas perturba e convida para seguir essa viagem ao seu mundo através das 31 peças expostas. São vídeos, desenhos e pinturas em que a artista nos desacomoda, sacode símbolos e seus significados e firma a presença de corpos trans e racializados.

Pedagoga por formação, usa o que especialistas consideram uma linguagem de contaminação em que grandes mapas mentais surgem em construções visuais estabelecendo novas conexões a partir do já conhecido ou saturado. Há familiaridade e estranheza ao mesmo tempo, refletindo sobre a história argentina e as formas indígenas de resistência à colonização.

Nela elementos da cultura pop se misturam a símbolos andinos, sexuais, slogans políticos, referências à moda e à cultura de massas como na série “Vírgenes Cholas” , onde convivem figuras como Guevara, Mafalda, sereias, dançarinas e indígenas.

Já em seu Manifesto Pop Andino (2023) - www.spotify.com.br Poblete atualiza e radicaliza a arte pop argentina, que nos anos 60 teve como uma das grandes expoentes a artista e amiga Marta Minujín, hoje com 83 anos.

Das esculturas e máscaras feitas com pão, passando pelos painéis com desenhos e pinturas das virgens cholas chegamos a fotografias desconcertantes, em que corpos trans e indígenas são observados como carne e mercadoria por missionários brancos.

A exposição causou polêmica em meios conservadores por sua crítica mordaz à utilização da religiosidade como instrumento de poder colonialista e especificamente, ao papel repressivo dos mórmons na juventude lgbtqia+ na comunidade onde Poblete cresceu.

Por fim, num país como o nosso, em que a cada 3 dias uma pessoa trans ou travesti é morta, e que lidera pelo 18º ano o terrível primeiro lugar em assassinatos, a solidariedade às pessoas e comunidades LGBTQI+ é mais do que urgente.

Tais índices aterradores se sustentam, em parte, pela ignorância, que alimenta omissões, silêncios e preconceitos.

Nesse sentido, a arte de Alana e Poblete nos convoca a repensar o que é definido pelo sistema como “normal” e a romper com o ciclo de opressões.

 Assine
 Assine