Entre a escravidão e o presente: O caso Samara em São Luís (MA) e a violência contra as domésticas

Rosenverck Estrela Santos, do PSTU Maranhão, Quilombo Raça e Classe e vocalista do grupo de Rap Gíria Vermelha
Entre a escravidão e o presente: O caso Samara em São Luís (MA) e a violência contra as domésticas
 Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, acusada de agressão contra trabalhadora doméstica Reprodução

A brutal agressão sofrida pela jovem empregada doméstica grávida Samara, de 19 anos, em Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís, trouxe novamente à tona uma das faces mais cruéis do racismo e do capitalismo brasileiro. A agressora contra a trabalhadora, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, frequentemente chamada pela imprensa de “patroa” ou “empresária” passou a ser alvo de denúncias após a divulgação de áudios no qual ela mesma relata espancamentos, ameaças e humilhações, tudo com a ajuda de um homem e da omissão da polícia.

Mais do que um crime individual, o caso revela a permanência de relações sociais e raciais marcadas pela herança escravocrata, nas quais mulheres negras que exercem o trabalho doméstico ainda são tratadas com desumanização, violência e ausência de direitos.

Ecos da escravidão

A história do trabalho doméstico no Brasil está diretamente ligada à escravidão. Durante séculos, mulheres negras escravizadas foram obrigadas a cozinhar, limpar, lavar roupas e cuidar dos filhos das sinhás e senhores de engenho, enquanto seus próprios filhos eram privados de cuidado, proteção e convivência materna. Essas mulheres sustentaram o funcionamento das casas-grandes e da economia colonial, mas jamais foram reconhecidas como sujeitos de direitos. Seus corpos foram transformados em instrumentos de exploração, servidão e violência.

Mesmo após a abolição formal da escravidão, em 1888, essa exploração sociorracial permaneceu praticamente intacta. O trabalho doméstico continuou sendo destinado, majoritariamente, às mulheres negras e pobres, submetidas a relações de trabalho marcadas pelo autoritarismo, pela informalidade e pela precarização. O caso de Samara revela justamente essa continuidade histórica, no qual existe a suspeita automática sobre a trabalhadora, a humilhação cotidiana, a agressão física e a percepção social de que a vida dessas mulheres vale menos.

Os números confirmam essa desigualdade racial no mercado de trabalho. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que mulheres negras representam 69,9% das pessoas que realizam trabalho doméstico ou de cuidados remunerados no Brasil. Já o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) aponta que cerca de 68% das trabalhadoras domésticas brasileiras são negras e que a maioria ainda enfrenta baixos salários, alta informalidade e ausência de garantias trabalhistas básicas.

Além da desigualdade econômica, essas mulheres também figuram entre as maiores vítimas da violência no país. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo IPEA em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que a violência contra mulheres negras segue crescendo no Brasil e que o ambiente doméstico continua sendo um dos principais espaços de agressão. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que mulheres negras são maioria entre as vítimas de feminicídio.

Nesse contexto, a violência sofrida por Samara deixa de ser apenas um crime individual e passa a representar o encontro brutal entre racismo, capitalismo, desigualdade social e violência de gênero. Quando uma empregada doméstica é torturada dentro da casa onde trabalha, o país revive práticas que deveriam ter sido superadas junto com a escravidão.

É preciso mais do que indignação

Especialistas e movimentos sociais destacam que o trabalho doméstico permanece como uma das atividades mais invisibilizadas da sociedade brasileira, apesar de sua importância econômica e social. São essas profissionais que garantem o cuidado de crianças, idosos, pessoas doentes e a manutenção cotidiana de milhares de lares brasileiros. O funcionamento da economia depende diretamente desse trabalho, ainda que ele continue sendo pouco valorizado e frequentemente desrespeitado.

Outro aspecto que chama atenção no caso é a permanência de uma cultura social que ainda normaliza relações de poder herdadas do período escravocrata. Em muitos lares brasileiros, trabalhadoras domésticas seguem sendo tratadas não como profissionais com direitos, mas como pessoas subordinadas à autoridade absoluta de patrões e patroas. Essa lógica ajuda a explicar por que episódios de violência, humilhação e abuso ainda acontecem com frequência dentro de ambientes privados.

Diante disso, o caso de Samara exige mais do que indignação momentânea. É necessário fortalecer a fiscalização das relações de trabalho doméstico, ampliar a formalização da categoria, garantir proteção jurídica e psicológica às vítimas de violência e combater o racismo e o capitalismo que atravessa essas relações há séculos.

Defender as trabalhadoras domésticas é reconhecer uma dívida histórica do Brasil com mulheres negras que sustentam este país por meio do trabalho, do cuidado e da resistência. Enquanto casos como o de Samara continuarem acontecendo, o Brasil estará em dívida com suas mulheres negras, que inclusive essas relações são demarcadas com o machismo e de como são tratadas as mulheres negras e são a base estruturante do feminicídio. Por isso que lutamos pela destruição do racismo, do feminicídio, do capitalismo e exigimos reparação já!

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