A jornada de trabalho é uma das questões centrais para compreender uma contradição fundamental do desenvolvimento econômico. O avanço da técnica permite produzir cada vez mais mercadorias utilizando menos trabalho. Em princípio, portanto, o aumento da produtividade poderia significar uma redução progressiva do tempo que cada pessoa precisa dedicar ao trabalho. Sob o capitalismo, porém, esse resultado não ocorre de forma automática. O tempo economizado pela tecnologia pode ser apropriado pelas empresas na forma de redução de empregos, intensificação do trabalho e ampliação dos lucros. Por isso, discutir a duração da jornada significa discutir quem se apropria dos ganhos proporcionados pelo desenvolvimento tecnológico.
Esse problema possui uma dimensão particularmente importante no Brasil porque se combina com a posição rebaixada do país na divisão internacional do trabalho e com a existência de uma enorme parcela da população desempregada ou submetida a formas precárias de ocupação. No final de 2025, havia 53,784 milhões de trabalhadores assalariados formais diante de 74,632 milhões de pessoas sem emprego ou inseridas em formas de subemprego e informalidade. O chamado exército industrial de reserva corresponde a 58,11% da classe trabalhadora brasileira. Essas pessoas não estão simplesmente fora da relação entre capital e trabalho. Na verdade, sua existência pressiona as condições dos empregados, pois aumenta a concorrência pelos postos disponíveis e amplia a capacidade das empresas de impor salários menores, jornadas maiores e contratos mais precários.
A luta pelo fim da escala 6x1
Não por acaso ganha importância a atual luta contra a escala 6x1. Aproximadamente 62% dos trabalhadores formais, excluído o serviço público, estão submetidos a jornadas distribuídas por seis dias da semana. Mas o debate que se abriu em torno a essa proposta revela duas respostas distintas para um mesmo problema: de um lado, a nova direita sustenta que reduzir a jornada ameaça empregos e competitividade; de outro, a esquerda dominante aposta na redução legal da jornada como mecanismo capaz de melhorar as condições de vida, gerar empregos e distribuir parte dos ganhos de produtividade.
A crítica da nova direita parte, antes de tudo, de uma compreensão equivocada da produtividade. Seu argumento identifica o PIB por hora trabalhada com a produtividade efetiva do trabalhador. Mas produzir maior valor monetário por hora não é o mesmo que produzir fisicamente mais, utilizando a mesma quantidade de trabalho. O PIB por hora é profundamente influenciado pela estrutura econômica de cada país. Economias que concentram semicondutores, softwares, pesquisa e máquinas sofisticadas produzem mercadorias de maior valor agregado do que aquelas especializadas emcommoditiese atividades de menor complexidade. Assim, o baixo PIB por hora brasileiro expressa também o lugar ocupado pelo país na divisão internacional do trabalho, e não simplesmente uma suposta baixa produtividade dos trabalhadores.
Na indústria automobilística brasileira, por exemplo, a produção passou de 6,6 veículos por trabalhador em 1990 para 24,3 em 2024, crescimento superior a 270%. Além disso, os veículos atuais incorporam softwares, sensores e diversos componentes que eram inexistentes ou muito menos difundidos em 1990. O aumento da capacidade produtiva por trabalhador é, portanto, evidente. O problema não é a inexistência de ganho de produtividade, mas o que acontece com o trabalho economizado por esse ganho.

Falsos argumentos contra a redução da jornada
Também está invertido o argumento segundo o qual seria necessário primeiro aumentar a produtividade para somente depois reduzir a jornada. É justamente porque a produtividade aumenta que a redução da jornada se torna possível. Se uma empresa consegue produzir a mesma quantidade utilizando menos trabalho, existem três destinos fundamentais para esse ganho: reduzir o número de empregados e manter a jornada dos restantes; manter o emprego, ampliar a produção e os lucros; ou diminuir a jornada e distribuir o trabalho necessário entre um número maior de pessoas. No capitalismo predominam as duas primeiras alternativas. A tecnologia não produz desemprego por si mesma: isso ocorre porque ela é utilizada pelas empresas de acordo com seus objetivos de valorização e concorrência.
Também não se sustenta a projeção de que uma redução da jornada necessariamente provocaria milhões de demissões. Para chegar a esse argumento, transforma-se previamente a redução das horas trabalhadas em uma redução equivalente da produção. A partir daí se constrói uma cadeia na qual menor produção gera menos empregos, menor renda, menor consumo, menor investimento e novamente menor produção. O problema é que a conclusão já está presente na premissa inicial. Com a mesma lógica seria possível construir a sequência oposta: jornada menor, novas contratações, maior massa salarial, maior consumo, produção e investimento. Nenhum desses dois percursos pode ser tomado de modo isolado como resultado necessário.
Enfrentar o sistema
Acabar com a escala 6x1, reduzir a jornada e ir além
O fim da escala 6x1 e a redução da jornada sem diminuição salarial são conquistas reais, mas uma mudança legal isolada não altera a estrutura que produz continuamente desemprego e informalidade. A redução para 40 ou 36 horas alcança diretamente aqueles que possuem emprego formal, enquanto milhões permanecem desempregados ou subempregados. Ao mesmo tempo, as empresas podem responder aos ganhos tecnológicos eliminando empregos, terceirizando atividades ou ampliando o trabalho intermitente e a remuneração por tarefa. Assim, enquanto a direita pretende rebaixar os direitos dos empregados em nome daqueles que estão excluídos, a esquerda dominante melhora os direitos de uma parcela dos trabalhadores sem eliminar os mecanismos que reproduzem a exclusão.
O problema também não pode ser resolvido supondo que o aumento do consumo provocado pela redução da jornada e por novas contratações produzirá automaticamente uma expansão correspondente da produção nacional. Esse mecanismo encontra limites em uma economia concentrada em bens básicos e intermediários e que não controla grande parte dos setores tecnológicos que concentram os principais investimentos mundiais. A discussão sobre jornada conecta-se, portanto, diretamente à estrutura produtiva do país. Não basta distribuir melhor os empregos existentes: é necessário ampliar a própria capacidade produtiva e desenvolver setores industriais, científicos e tecnológicos capazes de incorporar trabalho de maior complexidade.
A redução da jornada adquire, nessa perspectiva, um significado muito mais amplo. O fim da escala 6x1 deve constituir o ponto de partida para uma redução progressiva do tempo de trabalho, sem redução salarial e sem mecanismos que recomponham as horas eliminadas por meio de banco de horas, trabalho intermitente ou remuneração por hora de trabalho. Se o desenvolvimento técnico permite produzir a mesma riqueza em menos tempo, o trabalho necessário deve ser distribuído entre a população disponível, em vez de uma parcela trabalhar excessivamente enquanto outra permanece desempregada ou subempregada. Essa política precisa caminhar junto com a reconstrução produtiva do país, criando condições para incorporar a força de trabalho atualmente excluída.
Trabalhar menos para que todos trabalhem
Se considerarmos a incorporação dos desempregados e subempregados em relações formais de trabalho e simultaneamente uma redução de 25% da jornada, poderíamos estimar um PIB potencial de R$ 21,361 trilhões, diante de um PIB efetivo de R$ 12,738 trilhões. O cálculo não pretende prever o comportamento da economia capitalista, mas mostrar a dimensão da capacidade produtiva que permanece inutilizada ou subutilizada pela existência estrutural do desemprego e da informalidade.
No entanto, distribuir o trabalho disponível e reconstruir a estrutura produtiva ainda não resolve o problema na íntegra. Enquanto as decisões sobre tecnologia, produção e emprego permanecerem exclusivamente nas mãos dos proprietários das grandes empresas, cada inovação continuará sendo introduzida prioritariamente para elevar lucros e vencer a concorrência. Por isso, conquistas sobre a jornada podem ser continuamente compensadas por intensificação do trabalho, terceirização, metas, banco de horas e novas modalidades de contratação. A questão decisiva é colocar a própria produtividade sob controle social.
Se uma inovação permite produzir em 30 horas aquilo que antes exigia 40, a consequência socialmente racional não é demitir um quarto dos trabalhadores nem obrigar os restantes a produzir mais no mesmo tempo. É reduzir a jornada, preservar os salários e distribuir o trabalho necessário entre todos. Isso exige que as decisões sobre tecnologia, emprego e repartição da riqueza deixem de responder exclusivamente às necessidades de valorização do capital.