Élie Braz, de Maringá (PR)
Na madrugada da última segunda-feira, dia 2, uma tempestade assolou Maringá. Por volta das 3h, a estação meteorológica do aeroporto da cidade registrou rajadas de vento violentas de até 96,8 km/h. Em pouquíssimo tempo, choveu cerca de 49,8 mm. O resultado foi devastador.
Segundo dados oficiais da Defesa Civil, pelo menos 270 casas foram danificadas pela tempestade. O prédio da prefeitura municipal sofreu danos estruturais, e o quartel do Corpo de Bombeiros foi destelhado, o que também danificou os veículos da própria corporação. Cinco escolas públicas tiveram as aulas suspensas devido aos danos nos prédios. A prefeitura calcula que aproximadamente 500 árvores foram arrancadas pelo vento, interditando avenidas e ruas do município. Além disso, a Copel confirmou que cerca de 84 mil unidades consumidoras ficaram sem energia elétrica, entre elas a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Zona Norte. Também houve alagamentos em postos de saúde, teatros e na biblioteca municipal do centro.
Até o momento, não há previsão oficial definitiva para a normalização dos serviços essenciais de energia elétrica e abastecimento de água. Segundo notas emitidas pela Sanepar e pela Copel, equipes estão trabalhando para normalizar a situação. Na prática, porém, a classe trabalhadora arca diretamente com as consequências, no escuro e sob racionamento de água.

A crise climática e as falsas soluções
Com toda essa situação, alguns debates vêm surgindo nas redes sociais. Algumas pessoas sugerem que a crise climática não existe, enquanto outras naturalizam o desastre e apontam soluções simplistas e absurdas, como a retirada em massa de árvores da cidade. Obviamente, diante do caos em que o município se encontra, não podemos esperar que a população aja com total tranquilidade. É natural a pressa em tentar solucionar os problemas que Maringá vem enfrentando. No entanto, ignorar o equívoco dessas afirmações seria um erro.
Em primeiro lugar, negar que estamos vivendo uma profunda anormalidade climática serve apenas para desarmar a população diante dos perigos reais e desmobilizar a necessária cobrança por medidas efetivas, preventivas e emergenciais que a gestão do prefeito Silvio Barros (PP) deveria adotar para proteger a população.
Em segundo lugar, a sugestão de retirar árvores da cidade surge do desespero de ver troncos caindo sobre casas e carros durante as tempestades. No entanto, essa lógica desconsidera o fato de que a vegetação urbana funciona como uma barreira física essencial. Estudos apontam que as copas das árvores reduzem a velocidade das fortes correntes de vento antes que elas atinjam diretamente as estruturas das residências. Além disso, reduzem o impacto da água sobre os telhados ao reter parte do volume das chuvas e retardar seu escoamento.
O problema não está na existência das árvores, mas no fato de que o asfalto urbano impermeabiliza o solo e sufoca suas raízes, enquanto as podas malfeitas comprometem sua estabilidade natural e favorecem sua queda durante eventos extremos.
Em vez do simplismo de desmatar as ruas, a solução passa pela substituição do atual modelo de fiação aérea vulnerável pelo aterramento completo das redes de energia, eliminando o risco de apagões causados pela queda de galhos. Essa medida deve ser combinada a um plano técnico de manejo ecológico que valorize espécies nativas, com raízes profundas e adequadas ao solo urbano.
A raiz capitalista da catástrofe
O erro central de todas essas falsas saídas é ignorar a verdadeira raiz da catástrofe climática: o sistema econômico atual.
Leon Trotsky, no Programa de Transição (1938), afirmava: “[...] Sem revolução socialista, e no próximo período histórico, toda a civilização humana está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe”. O revolucionário já previa a situação-limite em que nos encontramos. Além disso, Trotsky apontava que “a técnica e a ciência têm seu próprio desenvolvimento. Mas o capitalismo não usa a técnica de forma racional. Na medida em que o capitalismo se choca com os seus próprios limites, toda a ciência e toda a técnica se voltam, em grande parte, para a destruição material e a aniquilação”.
Ou seja, se, por um lado, entramos no século XXI com tecnologia para prever desastres e garantir a segurança da população, por outro, nada disso é colocado à nossa disposição de maneira racional. A única preocupação de quem detém a infraestrutura e os recursos é a acumulação privada de capital. Por isso, a fiação da nossa cidade continua totalmente exposta: enterrá-la exigiria investimentos que reduziriam os lucros já exorbitantes da concessionária privada de energia.
Ao mesmo tempo, enquanto as periferias urbanas sofrem com a falta de água ao primeiro sinal de temporal, o agronegócio exportador consome bilhões de metros cúbicos de água anualmente, de forma predatória. Relatórios oficiais da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam que o Paraná lidera os índices de conflitos pelo uso da água no Brasil. Esses dados evidenciam precedentes históricos em que a apropriação e o barramento privado de recursos hídricos por latifundiários causam escassez e racionamento severo para a população. A Mata Atlântica continua sendo explorada e devastada em nossa região em nome da monocultura e dos lucros de grandes pecuaristas. O resultado prático dessa ganância cega é um distúrbio profundo no microclima regional, que culmina em eventos climáticos extremos e violentos como o desta semana.
E tudo isso tende a piorar na cidade com a aprovação, pela Câmara Municipal de Maringá, da criação da Maringá Data e Tecnologia S.A. A empresa deve operar um data center no município, cuja operação deverá consumir uma parcela significativa da energia e da água da cidade.
Uma saída classista para crise climática
Diante do rastro de destruição, a prefeitura decretou estado de calamidade pública como forma de mitigar os danos, injetando dinheiro público nas empresas privadas que lucram com esse ramo capitalista do desastre. No entanto, não haverá solução real para essas crises sob a gerência do Estado burguês e dos representantes dos patrões, que historicamente priorizam os interesses econômicos em detrimento das necessidades humanas e ecológicas fundamentais.
Enquanto não ocorre o soterramento da fiação, é necessário implementar um plano de podas e de manutenção constante da rede elétrica para prevenir situações como a falta de energia e de água que atingem a população trabalhadora maringaense. No entanto, medidas como essas são inviáveis sob a gestão de uma empresa que visa apenas ao lucro. Por isso, é necessária a completa reestatização da Copel, bem como a garantia de que a Sanepar seja 100% estatal. Ambas devem estar sob o controle dos trabalhadores, que precisam geri-las para promover o bem-estar da população, e não o lucro.
A única maneira de frearmos a catástrofe climática e a barbárie social é construir um programa de transição para o Brasil. Isso passa diretamente pela construção de uma alternativa socialista no país, capaz de enterrar de vez a extrema direita e superar o projeto de conciliação do petismo.
Diante do colapso ecológico que o capitalismo nos impõe, a classe trabalhadora organizada precisa tomar em suas mãos o controle dos meios de produção, dos serviços essenciais de água e energia e de todos os bens comuns da natureza.
• Todo apoio às famílias afetadas!
• Aterramento da fiação elétrica, já!
• Não aos data centers em Maringá!
• Pela reestatização da Copel e por uma Sanepar 100% pública, sob o controle dos trabalhadores!