Em junho deste ano, Meridiana (Companhia das Letras, 2025), da escritora carioca Eliana Alves Cruz, venceu o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras (ABL), na categoria Livro do Ano – Ficção. O reconhecimento consagra uma das obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea e reafirma a força de uma autora que, ao longo de sua trajetória, tem transformado a experiência negra em matéria-prima para refletir sobre a formação histórica, as desigualdades e as contradições do Brasil.
No romance premiado, Eliana acompanha a trajetória de uma família negra que deixa a favela e alcança a classe média. Poderia ser uma narrativa convencional de superação, daquelas que celebram o mérito individual e a ascensão econômica como solução para os problemas sociais. Mas Meridiana segue outro caminho. Com sensibilidade, profundidade e sofisticação literária, a autora desmonta uma das maiores ilusões produzidas pela sociedade capitalista: a ideia de que a mobilidade social é suficiente para libertar os oprimidos das estruturas que sustentam a desigualdade.
Do Matadouro ao Bougainville
Ernesto e Aurora, moradores da favela do Matadouro, dedicam suas vidas ao sonho de oferecer um futuro melhor aos filhos. Depois de anos de trabalho e sacrifícios, conseguem alcançar aquilo que milhões de brasileiros perseguem: deixam a periferia, conquistam estabilidade financeira e passam a viver em um condomínio de classe média. Poderia ser o final feliz de uma história de sucesso, mas não é.
Com a sensibilidade e a profundidade que marcam sua trajetória literária, Eliana desmonta uma das maiores ilusões produzidas pela sociedade capitalista: a ideia de que a ascensão econômica é capaz de apagar as marcas da opressão racial. A mudança de endereço, de renda e de status social não elimina os mecanismos de discriminação que estruturam a sociedade brasileira. Pelo contrário. Em muitos momentos, os personagens descobrem que o racismo permanece presente, apenas assumindo novas formas.
O condomínio substitui a favela. O preconceito explícito dá lugar às microagressões. O olhar desconfiado continua acompanhando os corpos negros. O sentimento de não pertencimento permanece. O acesso a determinados espaços não significa aceitação plena dentro deles.
É justamente nesse ponto que Meridiana dialoga com uma das reflexões mais importantes de Malcolm X. O revolucionário negro norte-americano insistia que o racismo não era um acidente histórico ou um simples problema moral. Tratava-se de uma engrenagem fundamental de um sistema baseado na exploração e na desigualdade. Por isso, afirma que enquanto existir capitalismo, o racismo continuará existindo. A experiência da família criada por Eliana Alves Cruz confirma essa percepção.
Ernesto e Aurora acreditam que a conquista material abrirá definitivamente as portas da cidadania. Seus filhos percorrem caminhos distintos em busca de reconhecimento, realização pessoal e pertencimento. Mas, em diferentes momentos, todos se deparam com a mesma barreira: a cor da pele continua sendo um marcador social determinante. A escritora e acadêmica Ana Maria Gonçalves sintetizou essa realidade em um outro livro – Um defeito de cor.
O que Ernesto e Aurora esqueceram foi isso: para o capitalismo, nosso defeito é de cor. A frase ajuda a compreender o drama central de Meridiana.
Os personagens acumulam credenciais que deveriam garantir inclusão social. Estudam, trabalham, prosperam economicamente e ocupam novos espaços. Ainda assim, continuam sendo confrontados por uma estrutura que os enxerga antes de tudo como negros.
O romance demonstra que o problema não é apenas individual. Não se trata de falta de esforço, mérito ou adaptação. Também não se resume a comportamentos preconceituosos de determinadas pessoas. O racismo aparece como uma dimensão do sistema social brasileiro, profundamente articulada às relações econômicas produzidas pelo capitalismo.

O preço da integração
Isso não significa desconsiderar a importância das conquistas democráticas ou das lutas por direitos; ao contrário. A história da população negra é marcada por batalhas fundamentais por acesso à educação, ao trabalho, à moradia, às políticas de ação afirmativa e à ampliação da cidadania. Cada uma dessas conquistas representa avanços concretos e indispensáveis. O próprio percurso da família retratada em Meridiana revela a importância dessas transformações.
Mas Eliana Alves Cruz parece alertar para um perigo: o de acreditar que a integração individual ao sistema equivale à libertação coletiva. Ao longo da narrativa, os personagens enfrentam não apenas o preconceito vindo de fora, mas também os conflitos internos produzidos pelo desejo de adaptação. Surge o risco de romper vínculos com a própria origem, de esquecer a trajetória coletiva que tornou possível cada conquista, de substituir a solidariedade pela busca individual de reconhecimento.
É uma questão que atravessa toda a experiência histórica da população negra. Como avançar socialmente sem perder a consciência de quem somos? Como ocupar novos espaços sem reproduzir a lógica que continua excluindo milhões de outros trabalhadores negros? Como conquistar direitos sem se iludir com as promessas de um sistema que depende da desigualdade para sobreviver?s respostas não aparecem de forma explícita no romance. Mas as perguntas permanecem ecoando em cada capítulo.
Por isso, Meridiana ultrapassa os limites de uma narrativa familiar. O livro se transforma em um retrato das contradições do Brasil contemporâneo. Um país que celebra histórias individuais de sucesso enquanto mantém intactas estruturas históricas de exclusão. Um país que permite a ascensão de alguns, mas preserva mecanismos que seguem marginalizando a maioria.
Um horizonte de liberdade
Ao final da leitura, permanece uma lição fundamental. O combate ao racismo não pode ser separado da luta contra as estruturas que produzem e reproduzem a desigualdade. A emancipação negra exige o enfrentamento das opressões raciais, mas também das relações de exploração que sustentam a sociedade capitalista.
Nesse sentido, a trajetória da família de Meridiana reafirma a atualidade da advertência de Malcolm X. Enquanto houver capitalismo, o racismo continuará encontrando novas formas de existir.
A luta por igualdade racial, portanto, não se encerra na conquista de espaços dentro da ordem vigente. Ela aponta para a necessidade de transformar a própria sociedade. Uma transformação que combine o combate ao racismo com o combate à exploração, articulando a luta do povo negro à luta da classe trabalhadora como um todo.
É a perspectiva de uma sociedade em que ninguém seja discriminado pela cor da pele, explorado por sua condição social ou privado de sua humanidade. Em outras palavras, a perspectiva de um mundo pelo qual lutaram gerações de revolucionários e revolucionárias. Um mundo que Rosa Luxemburgo definiu de maneira insuperável: "socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres".