Muito antes da bola rolar

Brasil e Japão, uma história de trabalhadores, migrações e encontros entre povos

Érika Andreassy
Muito antes da bola rolar
Brasil e Japão se enfrentam no mata-mata da Copa do Mundo 2026 Rafael Ribeiro/CBF

Quando Brasil e Japão entraram em campo no início da fase de mata-mata da Copa do Mundo de 2026, muita gente viu apenas um confronto entre duas seleções separadas por um oceano, por idiomas diferentes e por culturas aparentemente distantes. Eu vi outra coisa.

Nasci em Maringá, no norte do Paraná. Cresci numa cidade onde a presença japonesa sempre fez parte da vida cotidiana. Nos sobrenomes dos colegas de escola, nos parques da cidade, em nomes de ruas e avenidas, nas festas da cidade, na culinária, nas associações culturais, nas famílias que ajudaram a construir a região.

Tenho primas casadas com descendentes de japoneses. Seus filhos carregam naturalmente duas histórias familiares. Uma delas viveu por mais de dez anos no país do Sol Nascente. Meu pai participou da comissão encarregada pela recepção ao príncipe Akihito e a princesa Michiko, quando ambos visitaram a cidade em 1978, e guardou até hoje um pequeno chaveiro distribuído naquela ocasião. Uma lembrança que simboliza a amizade construída entre dois povos separados por quase dezoito mil quilômetros, mas unidos por uma história comum.

Por isso, quando Brasil e Japão se enfrentaram nesta Copa, não consegui enxergar apenas um jogo de futebol. Vi uma história centenária entrando em campo.

Um oceano atravessado pelos trabalhadores

Essa história começou muito antes de a televisão transmitir partidas entre ambas as seleções. Começou quando milhares de trabalhadores japoneses atravessaram o Pacífico em busca de uma vida melhor. A partir de 1908, desembarcaram no Brasil para trabalhar principalmente nas lavouras de café. Vieram enfrentando uma realidade dura, marcada por jornadas exaustivas, preconceito e enormes dificuldades de adaptação.

Ainda assim, permaneceram. Construíram famílias, cooperativas agrícolas, escolas, associações culturais e cidades inteiras. Transformaram profundamente regiões como o oeste paulista e o norte do Paraná.

Maringá é parte dessa história. Assim como Bastos, Londrina, Registro e tantas outras cidades brasileiras onde a imigração japonesa deixou marcas que hoje fazem parte da própria identidade nacional.

Mais de um século depois, o Brasil abriga a maior comunidade de descendentes de japoneses fora do Japão. Mas essa nunca foi uma história de mão única.

Um brasileiro ajudou a reinventar o futebol japonês

Décadas depois de milhares de japoneses cruzarem o oceano rumo ao Brasil, a história começou a percorrer o caminho inverso.

No final dos anos 1980 e ao longo da década de 1990, durante o período de forte expansão econômica japonesa, centenas de milhares de brasileiros — conhecidos como dekasseguis — migraram para o Japão em busca de trabalho. Em muitos casos, eram netos e bisnetos daqueles trabalhadores que haviam deixado o Japão décadas antes para construir uma nova vida no Brasil.

Foi justamente nesse período que outro brasileiro também desembarcou no país. Quando Zico chegou ao Japão, no início da década de 1990, o país ainda não era uma potência do futebol. O esporte mais popular continuava sendo o beisebol. A recém-criada J-League dava seus primeiros passos e o futebol profissional japonês ainda buscava construir uma identidade própria.

Zico não levou apenas talento. Levou uma cultura futebolística. Ajudou a construir a identidade do Kashima Antlers, participou da formação de jogadores, influenciou treinadores, ajudou a consolidar uma mentalidade profissional e tornou-se uma das figuras mais respeitadas da história do futebol japonês.

O crescimento impressionante da seleção japonesa nas últimas décadas deve muito àquele projeto. O Japão não importou apenas um craque brasileiro. Importou conhecimento, experiência e uma maneira de pensar o futebol.

Mas, ao mesmo tempo em que Zico ajudava a transformar o esporte japonês, centenas de milhares de brasileiros construíam suas vidas nas fábricas, nos estaleiros e nas cidades japonesas. Alguns permaneceram por poucos anos. Outros constituíram família, criaram filhos e estabeleceram novas raízes.

É difícil encontrar uma relação entre dois países em que as influências tenham circulado de forma tão intensa nos dois sentidos. Enquanto trabalhadores japoneses ajudaram a construir o Brasil ao longo do século XX, trabalhadores brasileiros também passaram a fazer parte da sociedade japonesa nas últimas décadas. E, paralelamente, um brasileiro ajudava a construir a escola de futebol que hoje encanta o mundo.

Muito além do futebol

É curioso observar como essa história desafia a maneira pela qual os nacionalistas costumam enxergar o mundo. Para eles, cada povo deveria permanecer fechado dentro de suas fronteiras, protegido de influências externas e preservando uma suposta identidade pura.

Brasil e Japão contam exatamente a história oposta. Do encontro entre trabalhadores japoneses e brasileiros nasceram famílias, empresas, universidades, cooperativas agrícolas, manifestações culturais e amizades que atravessam gerações. Do encontro entre um jogador brasileiro e um projeto esportivo japonês nasceu uma das seleções mais organizadas do futebol atual.

Nada disso diminuiu qualquer um dos dois países. Ao contrário. Ambos se enriqueceram.

O internacionalismo também se aprende

Nesta série sobre a Copa de 2026 escrevemos sobre fronteiras fechadas para iranianos, discriminação contra seleções africanas, racismo, xenofobia e as contradições produzidas pelo imperialismo. Tudo isso continua sendo parte da realidade.

Mas Brasil e Japão lembram que a história da humanidade também é feita de outra matéria. Os mesmos processos que deslocam milhões de trabalhadores pelo planeta podem produzir encontros extraordinários entre povos diferentes.

Nem sempre esses encontros acontecem em condições de igualdade. A imigração japonesa para o Brasil foi marcada por exploração e dificuldades. A circulação internacional de profissionais, inclusive no esporte, responde muitas vezes às necessidades do próprio capitalismo. Mas a história não termina aí.

Os trabalhadores também produzem cultura. Produzem conhecimento. Produzem solidariedade. Produzem novas formas de viver. E, muitas vezes, transformam relações criadas sob a lógica do capital em verdadeiros patrimônios da humanidade.

Muito antes da bola rolar

Quando o árbitro apitou o início de Brasil e Japão, parecia apenas mais um jogo do mata-mata. Na verdade, muito antes da bola rolar, essas duas seleções já compartilhavam uma longa história.

A história dos trabalhadores japoneses que ajudaram a construir o Brasil. A história dos trabalhadores brasileiros que atravessaram o oceano décadas depois para construir suas vidas no Japão. A história de um brasileiro que ajudou a construir o futebol japonês. A história de milhares de famílias que aprenderam a viver entre duas culturas sem deixar de pertencer a nenhuma delas.

Vendo Brasil e Japão em campo, pensei novamente naquele pequeno chaveiro que meu pai guardou por toda sua vida. Não pelo seu valor material, mas talvez porque ele tenha compreendido muito melhor do que ninguém o significado daquele encontro entre dois povos que já compartilhavam uma história muito antes das autoridades trocarem cumprimentos oficiais.

Uma história construída por trabalhadores que cruzaram oceanos, por famílias que aprenderam a viver entre duas culturas e por povos que descobriram que é possível compartilhar muito mais do que imaginavam.

Os nacionalistas gostam de transformar fronteiras em muros. Minha cidade conta outra história. Minha própria família conta outra história. E o futebol também.

Para mim essa foi uma das imagens mais bonitas desta Copa. Porque, antes de existir uma disputa entre Brasil e Japão, já existia algo muito mais importante: uma história comum construída pelo trabalho, pela migração e pela capacidade dos povos de aprender uns com os outros.

É essa história que a extrema direita tenta apagar quando transforma a imigração em ameaça e o estrangeiro em inimigo. Mas ela continua viva. Nas ruas de Maringá. Nos bairros da Liberdade. Nos campos de futebol do Japão.

E, por noventa minutos, voltou a estar viva diante dos olhos de milhões de pessoas.

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