Nos últimos dias veio a público uma história que atravessa quase toda a vida de uma mulher de 62 anos. Em junho, uma operação da Auditoria-Fiscal do Trabalho a resgatou de condições análogas à escravidão em uma casa localizada num condomínio de luxo de Eusébio, região metropolitana de Fortaleza, no Ceará. Durante 55 anos ela trabalhou para a mesma família.
Aos sete anos, deixou Padre Marcos, no interior do Piauí, para substituir a própria mãe no trabalho doméstico. Ali ela cresceu, tornou-se adulta, envelheceu. Limpou casa, preparou refeições, lavou roupas, cuidou dos filhos dos patrões e, mais tarde, dos netos. Enquanto três gerações da família construíam suas próprias histórias, ela via a sua passar dentro da mesma casa.
A Auditoria-Fiscal estima que ela tenha mais de R$ 1,5 milhão a receber em salários e direitos trabalhistas nunca pagos. Mas existe uma dívida impossível de calcular. Quem devolve cinquenta e cinco anos de liberdade? Quem devolve uma infância transformada em trabalho e uma vida inteira à serviço de atender às necessidades de outras pessoas?
Ainda segundo a investigação, a família utilizava o benefício do Bolsa Família como parte da manutenção dessa relação de exploração. Para isso, a trabalhadora foi declarada desempregada e integrante de uma família unipessoal, condição incompatível com a versão apresentada pelos advogados, segundo a qual ela mantinha relações com “características familiares”, de “convivência, cuidado e afeto” com os empregadores, como recebia remuneração, tinha férias, plano de saúde e contribuições previdenciárias regularmente recolhidas.
Ou seja, para justificar décadas de trabalho escravo, ela era retratada como alguém integrada à família e com direitos trabalhistas assegurados. Para receber o Bolsa Família apresentada como uma mulher sozinha, sem emprego e sem renda. Até sua identidade civil foi moldada conforme os interesses dos patrões.
Mesmo após o resgate, ela permaneceu na residência, agora acompanhada por uma equipe psicossocial. Depois de cinquenta e cinco anos vivendo sob controle da mesma família, romper essa relação não depende apenas da abertura da porta da casa. A escravidão deixa marcas que não desaparecem no momento em que a fiscalização chega.
“Ela era como se fosse da família”
A família responsável pertence à elite econômica de Fortaleza. Advogados apressaram-se em divulgar notas públicas sustentando que jamais houve escravidão, apenas uma longa relação de afeto. Um velho argumento que reaparece sempre que um caso como esse vem à tona.
A frase é conhecida nas suas mais variadas versões. Foi com ela que, durante décadas, milhares de famílias brasileiras esconderam relações de exploração profundamente violentas. Era "como uma filha", mas dormia no quartinho dos fundos. Era "parte da família", por isso não recebia salário. Era "como uma irmã", e assim passava a vida cuidando dos filhos dos patrões enquanto não podia construir a própria família. Esse caso causa indignação justamente porque expõe uma realidade que permanece escondida atrás dos muros das casas mais ricas do país, mas que está longe de ser um episódio raro.
Os números da escravidão moderna no Brasil
Desde que o Estado brasileiro passou a reconhecer oficialmente o trabalho análogo à escravidão, em 1995, mais de 68 mil trabalhadores já foram resgatados dessa condição. Somente em 2025 foram 2.772 pessoas libertadas em operações de fiscalização, um aumento de 38% em relação ao ano anterior. Mais de 80% das vítimas se declararam negras.
Durante muito tempo, quando se falava em trabalho escravo, a imagem mais comum era a de homens submetidos a jornadas exaustivas em fazendas isoladas, carvoarias ou garimpos. Essa realidade continua existindo. Mas ela já não resume o problema.
Pela primeira vez, em 2025, a maior parte dos resgates aconteceu em áreas urbanas. Oficinas de costura, obras da construção civil, restaurantes, empresas e residências passaram a concentrar mais trabalhadores libertados do que as atividades rurais.
Entre as mulheres, a realidade tem características próprias. Enquanto os homens aparecem em maior número nas fazendas, carvoarias e canteiros de obras, os casos envolvendo mulheres concentram-se principalmente no trabalho doméstico e no trabalho de cuidados. Elas cozinham, limpam, lavam, passam, cuidam de crianças, idosos e pessoas doentes. Produzem diariamente as condições para que outras famílias possam estudar, trabalhar, acumular riqueza e desfrutar do tempo livre.
É impossível olhar para a história da trabalhadora resgatada no Ceará sem enxergar esse padrão. Ela não foi a primeira menina pobre levada do interior para servir a uma família urbana. Durante décadas, essa foi uma prática corriqueira no Brasil. Meninas entregues por familiares, intermediadas por conhecidos, religiosos ou autoridades locais, sob a promessa de estudo, proteção ou uma vida melhor. Cresciam dentro da casa dos patrões, incorporadas ao serviço doméstico desde muito cedo. Muitas jamais conheceram outro modo de vida.
A escravidão não desapareceu com a assinatura da Lei Áurea. Ela mudou de forma. A casa-grande perdeu o direito legal de ser proprietária de pessoas. Conservou, porém, boa parte das relações sociais construídas durante mais de três séculos de escravidão. O quarto de empregada ocupou o lugar da senzala. O trabalho gratuito transformou-se em trabalho informal. A violência física cedeu espaço à dependência econômica, ao isolamento, ao controle psicológico e à naturalização de jornadas sem fim.
A história dessa trabalhadora não começou quando ela entrou naquela casa aos sete anos de idade. Ela começou muito antes, quando a burguesia brasileira aprendeu que era possível manter mulheres pobres trabalhando para ela durante toda a vida, convencendo-as de que aquilo era gratidão, proteção ou afeto.
Cinco décadas depois, bastou que uma equipe de auditores fiscais atravessasse o portão de um condomínio de luxo para que toda essa farsa viesse abaixo.
O Estado que resgata também protege quem escraviza
Sem a operação realizada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho essa trabalhadora provavelmente morreria naquela casa, como morreram tantas outras mulheres cuja história jamais chegou aos jornais. Mas, o mesmo Estado que envia auditores para resgatar trabalhadores escravizados cria mecanismos para aliviar as consequências enfrentadas pelos empregadores flagrados explorando trabalho escravo.
Em 2024, o governo Lula publicou a Portaria nº 18, alterando o funcionamento da chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, um instrumentos importantes de combate a esse crime. Desde sua criação, a lista tornou-se referência internacional porque expõe publicamente empregadores responsabilizados por utilizar trabalho escravo, dificultando acesso a crédito público, financiamentos e contratos com empresas preocupadas em preservar sua imagem.
A nova portaria abriu a possibilidade de que empregadores flagrados explorando trabalho escravo celebrassem termos administrativos e obtivessem sua retirada antecipada do cadastro mediante o cumprimento de determinadas condições. A medida foi imediatamente criticada por auditores fiscais do trabalho, procuradores e pela Defensoria Pública da União. A Lista Suja sempre existiu para produzir constrangimento público. Transformá-la em objeto de negociação significa substituir a responsabilização política pela lógica da conciliação administrativa.
Mas o problema não parou aí. Em 2025, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, utilizou repetidas vezes o mecanismo da avocação para retirar da esfera técnica processos envolvendo grandes empregadores flagrados utilizando trabalho escravo. Foi assim nos casos da JBS Aves, da Santa Colomba Agropecuária e da Apaeb. Pela primeira vez desde a criação da Lista Suja, um ministro interveio diretamente para afastar decisões construídas por auditores fiscais que haviam investigado, produzido provas e reconhecido a existência de trabalho análogo à escravidão.
A reação foi imediata. Auditores fiscais entregaram cargos de coordenação, denunciando interferência política e iniciando um movimento nacional de protesto. O conflito já não dizia respeito apenas à situação de um ou outro empregador. Colocava em discussão quem, afinal, define a política de combate ao trabalho escravo no Brasil: os órgãos técnicos encarregados da fiscalização ou o governo submetido às pressões dos grandes grupos econômicos?
Poucos meses depois, uma nova denúncia aprofundou essa crise. Após a fiscalização encontrar mais de 160 trabalhadores chineses submetidos a condições análogas à escravidão nas obras da fábrica da BYD, em Camaçari, na Bahia, vieram a público informações de que o Ministério do Trabalho, mais uma vez, pressionou pela retirada da empresa da Lista Suja. O secretário que resistiu à interferência acabou deixando o cargo.
Esses episódios expressam uma característica estrutural do governo Lula: a conciliação permanente com os interesses da burguesia. O governo gosta de celebrar os números de trabalhadores resgatados. E eles merecem, de fato, ser celebrados pelos auditores que realizam essas operações muitas vezes sob ameaça de morte.
O problema é que o governo que aparece nas fotografias dos resgates senta-se, no dia seguinte, à mesa de negociação com os representantes do agronegócio, das grandes indústrias, das multinacionais e dos grupos empresariais que pressionam justamente para reduzir os custos de quem explora trabalhadores. É a lógica da conciliação de classes funcionando diante dos nossos olhos. Liberta-se um trabalhador com uma das mãos. Protege-se o grande capital com a outra.
Essa política produz um resultado perverso. A exploração continua sendo tratada como um desvio de alguns maus empregadores, quando, na verdade, ela faz parte da própria dinâmica de acumulação do capitalismo brasileiro. Não por acaso, muitos dos maiores resgates de trabalhadores escravizados das últimas décadas ocorreram em cadeias produtivas ligadas ao agronegócio exportador, à mineração, à construção civil e às grandes indústrias, justamente setores tratados por sucessivos governos como motores do desenvolvimento nacional.
Enquanto isso, a estrutura da fiscalização permanece insuficiente. O número de auditores fiscais do trabalho é hoje menos da metade do necessário para cobrir um país com dimensões continentais. Muitos estados contam com equipes reduzidas, recursos escassos e dificuldades para realizar operações permanentes.
O resultado aparece nas estatísticas. Quase 70 mil trabalhadores foram resgatados desde 1995, mas muitos outros provavelmente jamais foram encontrados. A mulher libertada no Ceará passou cinquenta e cinco anos invisível para o Estado. Quantas continuam invisíveis ainda hoje?
Essa pergunta conduz inevitavelmente a outra. Quem se beneficia dessa invisibilidade? Certamente não são as trabalhadoras domésticas. Também não é a classe trabalhadora. Quem ganha com ela é a burguesia brasileira, que há mais de um século construiu seu conforto sobre um trabalho doméstico barato, invisível e profundamente marcado pelas desigualdades de classe, raça e gênero.