O que revela o primeiro turno das eleições?

  • A vitória da extrema direita e a derrota de Lula mostram os limites da conciliação de classes, em uma eleição marcada pela insatisfação popular, a crise das instituições e o voto de rejeição
Deyvis Barros
O que revela o primeiro turno das eleições?
Servidores preparam urnas eletrônicas para votação no 1º turno das eleições Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O primeiro turno terminou com uma vitória de Flávio Bolsonaro e da extrema direita. Não apenas pela vantagem sobre Lula na disputa presidencial, mas pelo crescimento do bolsonarismo no Congresso, nos governos e assembleias estaduais. Do outro lado, o PT sofreu uma derrota política que não se explica apenas pelos erros de campanha. O resultado revela um país atravessado pela insatisfação, pela desconfiança nas instituições e por uma polarização em que o medo do adversário pesa mais do que a esperança no próprio candidato.

A crise do Supremo Tribunal Federal (STF), escancarada pelo caso Banco Master, e a interferência de Trump na política brasileira também marcaram a eleição. Mas o resultado expressa, sobretudo, a insatisfação de milhões de trabalhadores que, diante de problemas que se acumulam governo após governo, não enxergam uma perspectiva de mudança.

Polarização e voto sem esperança

O PT saiu derrotado da disputa presidencial, mesmo tendo renovado parte de sua bancada e conquistado mais uma cadeira na Câmara. Seu problema vai além da diferença de votos. Em outros momentos, Lula conseguiu despertar expectativas de mudança, sobretudo entre os mais pobres. Desta vez, uma parcela importante de seus eleitores votou menos por acreditar que o governo transformará sua vida e mais para impedir a volta do bolsonarismo ao Planalto.

A crise do Supremo também pesou nesse ambiente. Durante anos, o PT apresentou o STF, e especialmente Alexandre de Moraes, como uma espécie de garantia da democracia contra a extrema direita. Ao fazer isso, associou sua própria defesa das liberdades democráticas a uma instituição que, para muitos trabalhadores, é parte de um sistema político marcado por privilégios e corrupção. O escândalo do Master tornou essa contradição ainda mais visível. E o bolsonarismo aproveita o desgaste, embora esteja atolado até o pescoço nos esquemas que diz combater.

Enquanto Lula perdeu terreno na disputa presidencial, o bolsonarismo ganhou força para além dela. Avançou no Senado, na Câmara e nos governos estaduais, esvaziou outras candidaturas da direita e reduziu o espaço do Centrão. Mesmo que Lula consiga reverter o resultado no segundo turno, terá pela frente um Congresso ainda mais à direita. Esse avanço também se insere em uma onda internacional de crescimento da extrema direita, em meio à qual Trump intensifica sua ofensiva sobre a América Latina e vê em Flávio um aliado político.

Há também uma mudança na forma como essa direita se organiza e disputa não apenas votos, mas a consciência das pessoas, especialmente dos jovens. Figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato mostram a capacidade de transformar audiência nas redes sociais em milhões de votos e em novas lideranças. Mobilizam o antipetismo, mas não vivem apenas dele. Utilizam uma linguagem provocativa e conteúdos que viralizam para difundir ideias reacionárias, alimentar o ódio contra mulheres, negros e LGBTI+ e transformar preconceitos em identidade política. Ao mesmo tempo, defendem políticas ultraliberais e apresentam o autoritarismo como solução para a crise, explorando a insatisfação e a falta de perspectivas de parte da juventude.

O resultado revela, portanto, uma polarização que não pode ser explicada apenas pela adesão aos projetos dos dois candidatos. Flávio Bolsonaro conta com uma base identificada com suas posições, mas parte importante dos seus votos vem daqueles (inclusive muitos trabalhadores) que não suportam mais Lula e o PT. Da mesma forma, Lula mantém eleitores que apoiam seu governo, mas uma parcela importante votou nele principalmente para impedir a volta do bolsonarismo. Esse cenário coloca a necessidade de construir uma alternativa política capaz de enfrentar o bolsonarismo e superar, pela esquerda, o projeto de conciliação de classes do PT.

Lula anuncia benefícios aos MEI'a Foto> Ricardo Stuckart

Desgaste

Por que as medidas de Lula não mudaram o resultado?

Na reta final, Lula utilizou a máquina do Estado para adotar medidas de forte apelo popular: aumento do Bolsa Família, medidas contra as bets, renegociação de dívidas e até a promessa de oferecer canetas emagrecedoras pelo SUS fizeram parte dessa ofensiva. Algumas dessas medidas trazem benefícios reais para a população. Ainda assim, não foram suficientes para recuperar o apoio perdido.

A pergunta é o porquê. Não parece razoável responder que os trabalhadores não perceberam os benefícios, ou que faltou explicar melhor as realizações do governo. Quem depende do salário para chegar ao fim do mês sabe o que mudou e o que não mudou. A renda continua apertada, o endividamento consome boa parte do orçamento, a moradia custa caro e milhões trabalham em jornadas exaustivas ou sem direitos. Não se formou um sentimento de melhora nas condições de vida.

O problema é que as medidas pontuais convivem com uma política econômica que preserva os interesses responsáveis pelos problemas reais que enfrenta a classe trabalhadora. O arcabouço fiscal limita os investimentos públicos enquanto bancos continuam lucrando bilhões e grandes empresas e o agronegócio mantêm seus privilégios. Lula negocia com esses setores e procura tranquilizar o mercado, enquanto pede aos trabalhadores que tenham paciência. Já se fala em novo ajuste fiscal para 2027.

É comum ouvir que a direita cresceu porque fala dos problemas cotidianos, enquanto a esquerda se perdeu em assuntos distantes da população. Essa explicação esconde mais do que explica. A extrema direita não tem um programa para melhorar a vida dos trabalhadores: quer ampliar privatizações, retirar direitos e aprofundar a submissão do país aos interesses do capital. Consegue, porém, apresentar-se como mudança diante de um governo que administra a mesma ordem econômica.

Não se trata, portanto, de escolher temas mais populares ou encontrar uma propaganda melhor. Enfrentar de verdade o custo de vida, a precarização do trabalho e a falta de serviços públicos exige mexer nos lucros dos bancos, na propriedade dos grandes grupos econômicos e na dependência do Brasil em relação ao imperialismo. O PT não faz isso porque seu projeto se sustenta justamente na conciliação com esses interesses. A promessa de derrotar o bolsonarismo por meio de uma frente ampla com a burguesia chega ao segundo turno profundamente desmoralizada.

PSOL amplia votos e aumenta sua adaptação

O PSOL aumentou sua votação e suas bancadas, apesar de não superar a cláusula de barreira. Mas esse crescimento pode aprofundar sua contradição política. Ao integrar o governo Lula e apoiar sua candidatura desde o primeiro turno, ganhou espaço institucional, enquanto abriu mão da independência de classe.

Construir uma alternativa à esquerda do PT exige defender um projeto socialista, capaz de responder às necessidades do povo trabalhador e enfrentar a extrema direita, sem se subordinar ao governo e às suas alianças com a burguesia. Independentemente do resultado do segundo turno, o PSOL segue um caminho de crescente adaptação ao PT e às instituições do regime, afastando-se dessa perspectiva.

Derrotar Flávio agora, e construir uma esquerda revolucionária que supere a esquerda da ordem

O risco de uma vitória bolsonarista exige uma resposta imediata. Por isso, defendemos o voto crítico em Lula no segundo turno, sem apoio ao seu governo nem confiança de que sua política reverterá a decadência do país ou mesmo derrotará a extrema direita. As manifestações que começaram depois do primeiro turno, especialmente entre jovens, mostram disposição de luta. É preciso participar delas, organizar plenárias, comitês e brigadas de voto crítico nos bairros, escolas e locais de trabalho.

Mas a mobilização não pode acabar nas urnas. Seja quem for o próximo presidente, precisaremos enfrentar os ataques aos direitos e construir uma esquerda independente dos empresários, do Centrão e dos governos. Uma esquerda socialista e revolucionária, que não se limite a administrar a crise, mas organize os trabalhadores para mudar o país.

PSTU

Continuaremos nas lutas, disputando a classe trabalhadora para um outro projeto de país e sociedade

Sem os recursos dos grandes partidos e praticamente excluído da mídia, o PSTU fez campanha nas fábricas, nos canteiros de obras, nas escolas, nos serviços públicos e nas periferias. Com Hertz Dias e nossas demais candidaturas, buscamos algo maior que a disputa por votos: conversar com os trabalhadores sobre os problemas do país e fortalecer sua organização.

Defendemos um programa socialista que enfrente a desindustrialização, a dependência econômica e o poder dos grandes monopólios, colocando a soberania nacional e o controle dos trabalhadores sobre os setores estratégicos da economia no centro de um projeto de transformação do país. Queremos continuar esse diálogo. Seguimos neste segundo turno lutando para derrotar a extrema direita e, principalmente, manteremos nossa presença nas greves, mobilizações e lutas populares, buscando construir uma alternativa socialista para os trabalhadores brasileiros.

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