Uma sucessão de acontecimentos mostram que a descarada interferência das big techs nas eleições brasileiras já ultrapassou totalmente o nível de suspeita para se revelar um fato incontestável. Assim como ocorreu nas eleições ao redor do mundo, e na América Latina em especial, as redes sociais se alinham às candidaturas da extrema direita, por sua vez submetidas diretamente à Trump.
Neste 2º turno ficou ainda mais explícito que as big techs não agem somente para angariar milhões em impulsionamento, mas agem politicamente para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Perfis associados à esquerda são banidos ou restringidos sem justificativas, e o contrário acontece às contas da extrema direita.

Manipulação
A recente postagem de Nikolas Ferreira (PL-MG) apresentando uma visão estereotipada e racista do Nordeste é um dos maiores exemplos disso. Mesmo sem áudio, já que o deputado utilizou música não autorizada do cantor Rubel (em parceria com Xande de Pilares), o vídeo atingiu a inexplicável marca de 160 milhões de visualizações. Um alcance desproporcionalmente maior que jogadores de futebol de projeção internacional como Neymar, Messi ou figuras pop como Beyonce.
Levantamento do Sleeping Giants Brasil mostrou que as publicações do político de extrema direita teve desempenho 33,7 vezes superior ao padrão das maiores contas mundiais no Instagram. Algo simplesmente inexplicável, como se até a população de Papua-Nova Guiné estivesse acompanhando com afinco as eleições brasileiras, mais especificamente sobre o que Nikolas tem a dizer sobre elas.
Longe de ser um fato isolado, o caso Nikolas Ferreira é apenas uma das evidências da interferência das big techs. A IA do WhatsApp, por exemplo, de forma também inexplicável, recusava-se a produzir imagens associadas a Lula quando requeridas pelos usuários. Enquanto o mecanismo não encontrava problemas para produzir materiais de campanha de Flávio Bolsonaro.
A conta de impulsionamento oficial da campanha de Lula foi desativada em 23 de setembro, às vésperas do 1º turno, e sofreu restrições entre os dias 9 e 10 de outubro. Diversos relatos de restrições, perda de alcance ou banimento se espalham, sem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tome qualquer medida. A situação é tão descarada que um grupo de especialista da Organização das Nações Unidas (ONU) alertou para as interferências da Meta nas eleições. "Incidentes técnicos podem ocorrer em uma plataforma da nossa escala, mas não representam direcionamento político", respondeu a empresa de Mark Zuckberg, sem explicar porque tais "incidentes" ocorrem só de um lado.
Já a Justiça Eleitoral se limita a "exigir explicações", como o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, fez à Meta nesta quinta-feira, 22. Isso quando não age diretamente para beneficiar o bolsonarismo, como tentou o presidente do TSE, André Mendonça, para censurar o grupo de Whatsapp de Janones às vésperas do 2º turno. Com a moção pronta, acatando integralmente um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, a iniciativa só não foi adiante pois a decisão vazou e gerou uma enorme onda de indignação.
Soberania digital
O caso expõe a vulnerabilidade do país diante do domínio das big techs e seus algoritmos secretos e absolutamente arbitrários. Mostra ainda as limitações do governo Lula e do Marco Civil da Internet, que não tocam ou enfrentam esse poder. Mas, principalmente, revela a necessidade de o país conquistar uma verdadeira soberania digital, exigindo a abertura dos algoritmos das big techs, e avançando para plataformas públicas, de códigos abertos, sem a interferência estrangeira e o direcionamento político das redes.