Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula no primeiro turno, fazendo explodir um movimento de rua pela derrota eleitoral do bolsonarismo. As pesquisas do segundo turno variam dentro da margem de erro e ninguém sabe quem irá ganhar. Flávio já prepara um novo governo, mas Lula pode virar.
A extrema direita terá a maior bancada da Câmara e do Senado a partir de 2027. É um erro imaginar que o segundo turno vai estabilizar o país. A eleição define quem governará, mas não resolve as contradições que produziram a polarização. Sumirá a extrema direita fortalecida, a crise das instituições, a pressão imperialista e a insatisfação social?
No mundo crescem o autoritarismo, o militarismo e as disputas entre nações e setores capitalistas. Guerra dos EUA contra o Irã, disputa entre EUA e China, agressão à Venezuela, guerra da Rússia contra a Ucrânia e genocídio de Israel na Palestina. A crise do capitalismo amplia disputas imperialistas, militarização e autoritarismo, e o Brasil não está fora disso.
No Brasil, segue a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), com novas barbaridades vorcarianas. O Judiciário está desacreditado. Soma-se a isso a sanha imperialista de Trump, tratando a América Latina como seu quintal e fazendo ameaças e intervenções no Brasil.
Também crescem o caos social e a insatisfação dos trabalhadores diante da decadência do capitalismo brasileiro. Nem as medidas progressivas do PT revertem profundamente em sua popularidade. Lula não resolveu os problemas estruturais que alimentam essa insatisfação, disputada pela extrema direita, fortalecida após quatro anos de um desastroso governo do PT.
Após o 2º turno
Nesse cenário de avanço da marcha do capitalismo para a barbárie, há diferentes possibilidades após o segundo turno.
Se Flávio Bolsonaro vencer, tentará usar sua vitória e o novo Congresso para aprofundar seu projeto autoritário e os ataques aos trabalhadores. O endurecimento do regime serve para restringir liberdades, dificultar nossa organização e impor ataques em benefício da burguesia e do imperialismo. Terá melhores condições para isso. A última palavra dependerá da luta dos trabalhadores.
Por isso é necessário preparar desde agora a resistência. Não podemos esperar a posse. Será necessário construir unidade na luta, defender as liberdades democráticas e organizar a mobilização dos trabalhadores, da juventude e dos setores oprimidos.
Qualquer aventura autoritária ou golpista de Bolsonaro, assim como intervenção de Trump, precisará encontrar forte resistência com ampla unidade de ação. Essa unidade não significa apoio político ao PT ou a qualquer setor da burguesia.
Em uma eleição marcada por crise institucional, intervenções de Trump e pelo peso conquistado pelo bolsonarismo, uma vitória de Lula também não devolverá o país a uma suposta estabilidade.
Uma vitória de Lula ocorreria com o bolsonarismo fortalecido, um Congresso mais à direita e um PT desgastado. Como seu projeto é governar em aliança com a burguesia, o PT buscaria novos acordos por cima, incorporaria mais setores burgueses ao governo e cobraria dos trabalhadores a conta.
Os desafios aqui também serão grandes. Será necessário enfrentar qualquer ataque do novo governo Lula e, sobretudo, recuperar a capacidade de mobilização independente da nossa classe.
Um novo governo do PT será marcado por mais acordos com o Centrão, atendimento ao mercado, ajuste fiscal e frustração social. A pior preparação seria convencer os trabalhadores a confiar no governo.
Esse é o desafio mais importante do próximo período.
Alternativa de classe
A política brasileira está cada vez mais polarizada, mas os trabalhadores ainda não possuem um polo próprio capaz de disputar milhões. A polarização segue hegemonizada por projetos burgueses.
De um lado, a extrema direita canaliza este sentimento para um projeto reacionário com aparência antissistema, contra os trabalhadores, os pobres e os setores oprimidos e a serviço dos grandes capitalistas e do imperialismo.
Do outro, o PT se coloca contra a extrema direita para canalizar isso para a administração do capitalismo em crise e governa com outra parte da burguesia. Daí vêm a moderação, a confiança nas instituições e os limites à mobilização. A divergência é sobre qual classe deve governar e contra quem.
Lula e Bolsonaro não são iguais. São projetos burgueses diferentes, mas nenhum representa um projeto dos trabalhadores.
Com a agudização do enfrentamento entre setores burgueses, não se trata de procurar um ponto intermediário nem escolher um deles. É preciso construir uma posição de classe independente.
Quando a sociedade capitalista caminha para uma polarização maior, a tarefa dos trabalhadores é construir seu próprio projeto independente, um polo próprio da classe. Isso significa organizar uma alternativa da nossa classe contra os capitalistas. O caminho para derrotar a direita é radicalizar pela esquerda.
Voto crítico no 13, sem apoio ao governo Lula
O segundo turno define quem governará o país nos próximos quatro anos. Votamos criticamente em Lula contra Flávio Bolsonaro sem apoio político ao governo. Essa tática está subordinada à estratégia de construir uma alternativa independente dos trabalhadores para derrotar a extrema direita de vez e para superar o PT.
Não se derrota a extrema direita apenas com eleições. Ela já tem um forte peso no Senado e Congresso e irá usar isso. Tem apoio de setores burgueses e base social. Para derrotá-la será necessário disputar os trabalhadores, enfrentar as condições de seu crescimento e construir uma alternativa revolucionária e socialista.
Se Flávio vencer, será necessário organizar resistência com ampla unidade de ação, defender as liberdades democráticas e enfrentar seus ataques. Se Lula vencer, será necessário enfrentar os ataques de seu governo, construir uma oposição de esquerda independente e seguir combatendo a extrema direita. São tarefas diferentes dentro da mesma estratégia. Em qualquer cenário, precisamos fortalecer a organização independente dos trabalhadores, romper com a burguesia e construir uma alternativa revolucionária e socialista capaz de disputar o poder e estatizar os setores estratégicos sob controle dos trabalhadores.