No último domingo, 2 de agosto, o PT realizou em São Paulo sua convenção nacional, oficializando a candidatura de Lula à reeleição. Durante o próprio discurso, o presidente interrompeu sua fala para reconhecer publicamente que a organização do evento não havia previsto nenhuma participação feminina. Diante do constrangimento, convidou a primeira-dama, Janja, para subir ao palco. Sem constar da programação, ela iniciou sua intervenção lembrando que as mulheres precisam reafirmar diariamente seu espaço.
O episódio rapidamente foi tratado pela grande mídia e por governistas como uma gafe corrigida a tempo, um mero problema de protocolo solucionado pela sensibilidade do presidente. Mas é preciso observar o fato para além do incômodo momentâneo. O que ocorreu na convenção oferece uma radiografia perfeita sobre o real lugar ocupado pela pauta das mulheres na estratégia política de conciliação do PT.
Um "esquecimento" nada acidental
Uma convenção nacional não é um evento improvisado na véspera. A definição dos oradores passa por semanas de planejamento, negociações de bastidores e decisões políticas conscientes. O partido já havia divulgado previamente a lista de discursos. Nela não figurava nenhuma mulher; nem uma ministra, nem uma dirigente partidária, nem uma representante da Secretaria de Mulheres ou dos movimentos sociais ligados ao partido.
Por isso, é ilusório tratar a ausência como um simples erro de cerimonial. Ela revela uma nítida hierarquia política. No momento de decidir quem teria voz no principal ato político da campanha, nenhuma liderança feminina foi considerada indispensável pela burocracia partidária.
A forma como a situação foi contornada também merece atenção. No lugar de recorrer a uma parlamentar, dirigente ou ministra petistas presente no evento, Lula chamou Janja. A questão aqui não é uma crítica à sua trajetória pessoal; Janja possui décadas de militância no PT e experiência política suficiente para ocupar a tribuna. O ponto político é outro. Diante da necessidade de incluir uma mulher de forma imediata, a referência que surgiu não foi uma liderança feminina construída para falar em nome da luta das trabalhadoras, mas a esposa do candidato.
Isso diz menos sobre Janja e muito mais sobre a estrutura do partido. Quando faltou uma mulher no roteiro, a solução encontrada foi recorrer ao vínculo conjugal do presidente.
Mulheres reduzidas a eleitorado
O conteúdo do discurso também merece atenção. Janja descreveu a sobrecarga vivida pelas mulheres, falou da rotina entre o trabalho, os filhos, o transporte e as tarefas domésticas e concluiu afirmando que seriam elas as responsáveis pela reeleição de Lula, destacando ainda seu compromisso com o enfrentamento da violência de gênero.
Nada disso é irrelevante. Mas a intervenção foi construída fundamentalmente como uma peça de mobilização eleitoral. Não apresentou reivindicações políticas, não abordou a necessidade de ampliar a participação das mulheres nos espaços reais de decisão nem tratou da organização autônoma das trabalhadoras. As mulheres apareceram sobretudo como um segmento decisivo do eleitorado, um alvo estatístico.
Essa escolha dialoga com o momento político. As mulheres tornaram-se um dos principais terrenos da disputa política brasileira. Pesquisas recentes mostram que elas apresentam maior identificação com posições de esquerda do que os homens, ao mesmo tempo em que a direita procura ampliar sua influência junto a elas. Nesse contexto, a pauta das mulheres aparece sobretudo como instrumento de disputa eleitoral, e não como expressão de um processo permanente de organização política e luta.
Do palco ao Congresso: a lógica da governabilidade
O episódio da convenção não é um fato isolado. Ele sintetiza a dinâmica do próprio Governo Federal. Em diferentes momentos, propostas ligadas aos direitos das mulheres foram rifadas nas negociações para a construção de maioria parlamentar com o Centrão e com a burguesia.
Exemplos recentes como a tramitação do PL 1924/2025 e os recuos envolvendo a Resolução 258 do Conanda confirmam essa engrenagem: quando os direitos das mulheres entram em colisão com a estratégia de governabilidade e com os acordos com os setores mais atrasados do Congresso, eles perdem a centralidade e são sacrificados. É justamente essa demonstração prática nas votações que valida e fortalece a interpretação política do episódio ocorrido no palco.
O significado do gesto de Lula
Há uma diferença abissal entre uma presença conquistada pela base e pela organização política das mulheres e uma presença definida de forma emergencial para "apagar um incêndio" de imagem durante o evento.
No primeiro caso, o espaço resulta de organização, pressão e independência de classe. No segundo, decorre de uma concessão paternalista tomada de cima para baixo para responder a uma situação inesperada. Essa distinção importa porque revela duas visões opostas de fazer política: uma baseada na conquista coletiva e permanente, e outra que reduz as mulheres a adereços dependentes das circunstâncias e da boa vontade das principais lideranças masculinas.
A saída é a organização independente
Mais do que uma curiosidade de bastidores, o episódio funciona como um retrato nítido dos limites da política institucional e da conciliação de classes. A ausência inicial de mulheres no principal ato da campanha do PT prova que a representatividade burocrática falha justamente quando as luzes do palco se acendem.
Uma realidade completamente oposta pôde ser vista na recente convenção nacional do PSTU, onde a presença expressiva de mulheres na organização, nas candidaturas, nos discursos centrais e na coordenação política, não decorreu de uma concessão ou um improviso de última hora. Foi o resultado direto do reconhecimento real do papel histórico que as mulheres trabalhadoras cumprem nas lutas cotidianas da nossa classe e na própria sustentação cotidiana do partido. Para nós, revolucionários, a batalha contra o machismo não é uma peça de marketing eleitoral, mas um eixo estratégico e central na formação e na atuação da nossa militância.
A emancipação das mulheres não virá por meio de correções de última hora na engrenagem dos de cima. Exige a destruição do sistema capitalista que oprime e explora, através da auto-organização e da independência de classe, combatendo o machismo para unir a classe e construindo o protagonismo de mulheres que lideram pela força de sua trajetória de luta, e não pelos arranjos da conjuntura burguesa.