O resultado eleitoral do primeiro turno levou a uma grande reação nas ruas contra Flávio Bolsonaro. Ela é justa e necessária. O bolsonarismo ameaça retirar direitos, fechar o regime e atacar os setores oprimidos para aumentar ainda mais a exploração da classe trabalhadora. Mas por que, depois de quatro anos de um governo eleito com a promessa de derrotar o bolsonarismo, a extrema direita saiu fortalecida das urnas?
Não podemos ter explicações simplistas para processos complexos. Responder a essa pergunta exige compreender as raízes do fenômeno e definir uma política para combatê-lo.
Uma crise que ultrapassa o Brasil
A extrema direita é um fenômeno internacional, expressão das mudanças profundas que atravessam o capitalismo e sua ordem mundial. Trump, Milei, Bukele e Bolsonaro têm diferenças de programa, base social e métodos de governo. Mas fazem parte de uma reação que procura responder à crise com mais exploração e autoritarismo.
A crise econômica de 2008 expôs os limites da globalização capitalista. Governos da direita tradicional, da social-democracia e do chamado progressismo administraram essa crise. Com diferenças entre eles e concessões em determinados períodos, defenderam os interesses dos grandes capitalistas. Quando os compromissos com o capital exigiram ajustes, governos eleitos com apoio dos trabalhadores também impuseram austeridade e frustraram expectativas de mudança. A extrema direita encontrou espaço para apresentar uma saída reacionária como ruptura com os responsáveis pelo sofrimento popular. O bolsonarismo é expressão dos problemas e das contradições do Brasil, mas também desse fenômeno internacional, fruto da crise da ordem imperialista.
O Brasil mudou. A classe trabalhadora também
No Brasil, a crise se combina com o aprofundamento da dependência econômica e com o rebaixamento do país na divisão internacional do trabalho. Os setores primários exportadores ganharam peso e avançaram numa desindustrialização relativa. A economia ficou mais subordinada aos grandes monopólios e à exploração intensiva dos recursos naturais e do trabalho.
O projeto do PT, aplicado ao longo de seus governos, foi administrar essa estrutura em aliança com a burguesia, ampliando o consumo e promovendo políticas sociais sem enfrentar o controle dos bancos, do agronegócio e das grandes empresas. O período favorável das exportações permitiu melhorias reais, mas não rompeu as bases da dependência. Quando essas condições mudaram, apareceram os limites da conciliação. O PT administrou transformações que aprofundaram a precarização e fortaleceram setores do capital que alimentam o bolsonarismo.
A classe trabalhadora também se transformou. A terceirização, a informalidade e o trabalho por plataformas fragmentam os trabalhadores, enfraquecem vínculos coletivos e transferem para eles os custos e riscos do trabalho. A precariedade não elimina a possibilidade de organização, mas o sindicalismo e as organizações de esquerda capturadas pela política de conciliação de classes não estiveram à altura desses desafios.
A crise da Nova República, que conquistou liberdades democráticas mas preservou o poder da burguesia e os aparatos da ditadura, aprofundou-se sob os governos do PSDB e do PT e abriu espaço para o bolsonarismo reunir militares, ultraliberais e lideranças religiosas reacionárias numa saída autoritária.

O PT e a defesa de uma ordem em crise
Para uma população que exige mudanças, o PT oferece a preservação de uma ordem desacreditada e a promessa de recuperar um passado que seu próprio projeto não consegue restabelecer. Essa política cobra um preço na organização da classe. As direções governistas subordinam reivindicações à governabilidade e contêm a luta em nome de uma correlação de forças desfavorável. Mas, ao desmobilizar, enfraquecem a capacidade dos trabalhadores de alterá-la. A defesa do governo passa a bloquear a construção de uma oposição de esquerda que dispute o descontentamento. A direção do PT pede que os trabalhadores aceitem os limites do presente para evitar algo pior.
O projeto de conciliação de classes do PT arrasta outros setores da esquerda para sua órbita, como o PSOL e as correntes que se apresentam à esquerda do PT. Ao integrar o governo, o PSOL assume compromissos com a gestão da crise que deveria combater. Sua esquerda precisa responder como pretende construir uma alternativa socialista mantendo o apoio político a esse governo. O mesmo vale para Jones Manoel, que em nome da viabilidade eleitoral, abdicou da construção de um projeto independente. Em nome da viabilidade eleitoral e do combate à extrema direita, a construção de uma alternativa independente dos trabalhadores vai sendo adiada, enquanto essas organizações se subordinam à defesa do governo.
A extrema direita oferece uma explicação de mundo
A revolta com as condições de vida não leva, por si só, ao socialismo. Nem a decepção com o PT conduz necessariamente à esquerda. A extrema direita disputa esse descontentamento com uma explicação de mundo: diz por que a vida piorou, aponta responsáveis e oferece uma saída. Suas mentiras ganham força porque se apoiam em problemas que os trabalhadores vivem.
A riqueza cresce, mas o trabalhador continua endividado e sem segurança. A tecnologia avança, mas ele trabalha cada vez mais. O pequeno comerciante perde espaço para grandes empresas e fica nas mãos dos bancos. A extrema direita reconhece parte dessas contradições, mas inverte sua explicação. Diz que o mercado e a livre concorrência poderiam garantir prosperidade, se não fossem uma elite financeira, o Estado e os “comunistas” que, segundo ela, controlam as instituições. A concentração de riqueza produzida pelo capitalismo aparece como conspiração contra seu funcionamento.
O olavismo dá uma forma a essa interpretação. Universidades, imprensa, movimentos sociais e organismos internacionais seriam instrumentos de um mesmo projeto de dominação. A luta das mulheres, as cotas raciais e os direitos LGBTI entram nessa narrativa como ataques à família, ao mérito e à liberdade. Por mais fantasiosa que seja, essa explicação liga experiências dispersas e oferece inimigos contra os quais agir.
Pavanato e Campopiano, apoiados por Nikolas, levaram essa “guerra cultural” às eleições. Os ataques aos direitos de pessoas trans, às cotas e ao aborto integram uma visão de sociedade que apresenta as conquistas dos oprimidos como causa da decadência. Suas votações mostram o alcance dessa disputa, que vem sendo construída muito antes da campanha.
Explicar o resultado eleitoral apenas pela dificuldade da esquerda nas redes deixa de fora o conteúdo dessa disputa. A propaganda reacionária encontra apoio nas condições atuais da classe: apresenta direitos como privilégios e vende a precariedade como liberdade. Há problemas de comunicação a enfrentar, mas uma estratégia de redes não substitui um programa que explique as causas do sofrimento e ofereça uma saída. Para disputar essa consciência, é preciso enfrentar os problemas concretos dos trabalhadores e romper com as amarras da conciliação de classes.

À luta
Combater a extrema direita com independência de classe
O resultado do primeiro turno coloca uma tarefa imediata: enfrentar o bolsonarismo e impedir que avance seu projeto de ataques aos trabalhadores e às liberdades democráticas. Por isso, o PSTU defende o voto crítico em Lula contra Flávio Bolsonaro, sem apoio político ao governo. Mas o balanço destes quatro anos exige ir além da disputa eleitoral. O fortalecimento do bolsonarismo mostra o limite da promessa de derrotá-lo pela administração do capitalismo. Precisamos construir um projeto que supere o PT e enfrente as condições que alimentam a reação.
Essas tarefas devem caminhar juntas. Precisamos da mais ampla unidade de ação contra as ameaças autoritárias. Ao mesmo tempo, precisamos preservar nossa independência, denunciar os ataques do governo e disputar os trabalhadores para outra estratégia.
A política de conciliação pede aos trabalhadores que adiem suas necessidades para defender uma ordem que lhes oferece cada vez menos. A extrema direita aproveita essa ausência de perspectiva e apresenta seu projeto como mudança. Romper esse ciclo exige uma saída para o país que responda ao desemprego, à precarização, à carestia e à dependência, enfrentando o poder dos bancos, dos monopólios e do imperialismo.
Por uma alternativa revolucionária e socialista
É esse o sentido de um programa socialista: expropriar os grandes grupos dos setores estratégicos e planejar a economia sob controle dos trabalhadores. Esse projeto precisa ser construído nas greves, nos bairros, nas escolas, entre os trabalhadores de plataformas. Precisa unir os diferentes setores da classe e enfrentar as opressões que a dividem. A correlação de forças pode mudar, mas isso depende também do que organizamos e da perspectiva que apresentamos.
O medo da extrema direita não pode servir para prender os trabalhadores ao projeto que administra essa crise. Precisamos combater o bolsonarismo com toda a força e construir, nessa luta, uma alternativa à conciliação. Um partido revolucionário e um projeto de governo socialista dos trabalhadores precisam ser construídos agora, nesses enfrentamentos.