Colunas

Porque Stálin precisava matar Trotsky?

Bernardo Cerdeira

7 de dezembro de 2023
star5 (7 avaliações)

O assassinato de Trotsky por Ramon Mercader, um agente soviético a mando de Stálin, é um episódio bem conhecido da história. Nós abordamos esse crime no primeiro episódio da série “Trotsky, vida, obra e luta”.

Mas, porque Stalin colocou tantos recursos e tanto empenho para assassinar Trotsky? Primeiro, é preciso ressaltar o enorme esforço para matar o revolucionário russo. Stalin organizou uma operação especial do serviço secreto, a NKVD, dirigida por Lavrenti Béria, que por sua vez designou responsável a Pabel Sudoplatov, subdiretor do Departamento do Estrangeiro encarregado das Operações Especiais, um eufemismo para assassinatos.

Stálin ordenou o assassinato de Trotsky

Em seu livro de memórias, Sudoplatov conta que no começo de 1939 foi convocado ao Kremlin, junto com Beria, para uma reunião com o próprio Stalin. O secretário-geral foi claro sobre a prioridade absoluta da “operação” para matar Trotsky. Segundo o relato, Stálin disse literalmente: “Trotsky deve ser eliminado antes que acabe o ano e que a guerra seja desencadeada.

Sudoplatov relata que “Stalin estava muito insatisfeito porque a eliminação de Trotsky tinha sido encarregada desde 1937 a outro subdiretor da NKVD chamado Spiegelglas mas este havia fracassado nessa importante missão de governo”.

Segundo Sudoplatov Stalin lhe ordenou que “fizesse pessoalmente os preparativos para mandar um destacamento especial da Europa ao México” para eliminar Trotsky e lhe assegurou que “lhe seria proporcionada toda ajuda e apoio necessário” e todos os recursos da NKVD. Também garantiu que se a operação tivesse sucesso “o partido recordaria para sempre todos os envolvidos e cuidaria não só deles, mas de todos os membros das suas famílias respectivas para sempre”. Depois vamos ver como isso se deu.

Mas, por que era tão fundamental para Stalin matar Trotsky? Afinal, em 1939 a Oposição de Esquerda tinha sido exterminada nas prisões soviéticas e nos campos de concentração da Sibéria. A IV Internacional, recém-fundada era frágil. Trotsky estava exilado no México e quase não podia abandonar sua casa porque era constantemente ameaçado pelos stalinistas.

Levando em conta essas circunstâncias, pode parecer um exagero fazer uma operação tão custosa e urgente para eliminar um adversário aparentemente impotente.

Porque Trotsky significava uma ameaça para Stálin

Mas, Stalin sabia que essa aparência era enganosa. Trotsky ainda era uma referência para milhões de trabalhadores em todo o mundo. Ele tinha sido, depois de Lenin, o principal líder da Revolução Russa e o fundador e máximo dirigente do Exército Vermelho que tinha vencido a guerra civil.

A memória da grandiosa revolução que levou os operários e camponeses ao poder ainda estava viva entre os trabalhadores de todo o mundo. Trotsky era o último dos dirigentes da Revolução Russa que restava porque Stalin havia conseguido executar todos os outros.

Por outro lado, Stalin era consciente que o regime de terror que ele havia implantado na década de 30, se bem havia eliminado centenas de milhares de comunistas opositores, havia sufocado inúmeras crises que permaneciam encobertas.

Trotsky tinha sido, desde o princípio, um opositor implacável da burocracia stalinista, denunciando permanentemente seu caráter, suas mentiras e suas ações contrarrevolucionárias. E ele continuava lutando e se recusava a capitular.

A proximidade da Segunda Guerra Mundial dava um caráter urgente ao problema. Stálin sabia que a guerra deveria provocar grandes crises e novas revoluções e poderia fazer aparecer novos setores oposicionistas e ameaçar o poder da burocracia.

Nesse contexto da guerra e de suas consequências, Stalin temia que, depois do conflito mundial, Trotsky e o trotskismo pudessem surgir para os trabalhadores como uma alternativa contra o stalinismo.

Aliás, o temor de Stalin de que a guerra produzisse novas revoluções se confirmou. Além da grande revolução chinesa, eclodiram vários processos revolucionários na Europa do pós-guerra, todas eles traídos pelo stalinismo que firmou com os Estados Unidos os famosos acordos de Yalta e Potsdam, dividindo o mundo em áreas de influência entre as duas potências. Isso será tema do próximo episódio sobre Stalin e a Segunda Guerra Mundial.

Falando ainda sobre sua reunião com Stalin, Sudoplatov ressalta que: “Trotsky e seus seguidores significavam uma séria ameaça para a União Soviética ao competir conosco para ser a vanguarda da revolução comunista mundial. ”

Por outro lado, Stalin sabia que o papel de Trotsky era qualitativamente superior a todos os outros dirigentes da recém-fundada IV Internacional porque era o único que tinha vivido a experiência de dirigir uma revolução. Segundo Sudoplatov, Stalin disse: “No movimento trotskista não há figuras políticas importantes além do próprio Trotsky. Eliminado Trotsky a ameaça desaparece”.

Portanto, era imprescindível para Stalin eliminar o homem que simbolizava mais que ninguém a Revolução de Outubro.

A operação para matar Trotsky

Sudoplatov, formou duas equipes para assassinar Trotsky, ambas formadas por agentes que tinham experiência em assassinatos de dissidentes comunistas durante a revolução e a guerra civil na Espanha.

O recrutamento de agentes foi entregue a outro oficial da NKVD chamado Nahun Eitingon, que havia participado na Espanha do assassinato de anarquistas, trotskistas e comunistas dissidentes, inclusive da prisão, tortura e assassinato de Andrés Nin, secretário-geral do POUM.

Uma das equipes, era coordenada por um agente da NKVD, Grigulevitch, que também participara dessas ações, e em campo era dirigida por David Alfaro Siqueiros, famoso pintor muralista mexicano, ex-combatente da guerra civil.

Esse grupo contava com mais de vinte recrutados mexicanos e tinha ordens para realizar um ataque direto à residência de Trotsky. O atentado foi efetuado em fins de maio de 1940, mas fracassou. Os atacantes conseguiram entrar durante a noite na casa de Trotsky e dispararam mais de 300 tiros, mas com pouca experiência de ações desse tipo não conseguiram atingir o seu alvo.

A outra equipe era formada diretamente por Eitingon, por Caridad Mercader, uma comunista de nacionalidade cubana, também agente da NKVD e seu filho, um catalão chamado Ramon Mercader. Mercader havia lutado na guerra civil espanhola, tinha sido recrutado para a NKVD por sua mãe e treinado na União Soviética.

Usando uma identidade falsa de um belga de nome Jacques Mornard e, alternativamente usando outro passaporte canadense em nome de Franc Jacson, Mercader conseguiu se infiltrar no grupo de Trotsky. Para isso, ele enganou e envolveu afetivamente uma trotskista americana de ascendência russa chamada Silvia Ageloff.. Silvia tinha acesso à casa de Trotsky porque trabalhava com as traduções do russo, muito importantes para os escritos de Trotsky e da IV Internacional.

A partir dessa relação, Mercader conseguiu ser recebido por Trotsky, com o pretexto de solicitar sua opinião sobre um artigo que ele escrevera. Enquanto Trotsky se concentrava na leitura, Mercader o golpeou na cabeça com um piolet, uma pequena picareta de alpinismo que ele levava escondida no casaco.

No entanto, o golpe não matou Trotsky imediatamente. Ele gritou e reagiu. Os guardas acudiram, prenderam Mercader e o entregaram à polícia mexicana. Mas Trotsky não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte.

Mas, uma coisa que pouca gente sabe é que mesmo tendo sucesso com a morte de Trotsky, Stálin não podia deixar que se soubesse que ele tinha sido o mandante e o organizador do assassinato. Isso teria provocado o repudio de vários setores do movimento comunista e operário de todo o mundo e também de governos, como o mexicano que tinha dado asilo a Trotsky. Para encobrir esse crime, entrou em ação a Escola stalinista de falsificação, sobre a qual falamos no artigo anterior

A grande mentira do stalinismo para encobrir um crime monstruoso

Para montar a farsa, Mercader tinha levado com ele uma carta falsa onde afirmava que era um ex trotskista decepcionado com seu líder porque este estaria usando as contribuições financeiras que ele havia feito ao movimento para fins pessoais. Dizia também que Trotsky tinha tentado convencê-lo a que se unisse a um grupo terrorista internacional que planejava assassinar Stalin e outros dirigentes soviéticos.

Essas calúnias, como sempre, serviam aos propósitos do stalinismo que divulgou mundialmente que Trotsky tinha sido assassinado por um dos seus próprios correligionários. Sudoplatov declara em suas memórias que “era importante deixar transparecer uma motivação que pudesse minar a imagem de Trotsky e desacreditar seu movimento”.

Mas, com o tempo e as declarações de muitos dos envolvidos, todas as mentiras e calúnias do stalinismo foram desmascaradas.

A polícia constatou que Jacques Mornard e Franc Jacson eram identidades falsas, mas Mercader manteve sua falsa história até 1953 quando sua verdadeira identidade foi descoberta. Quando Mercader saiu da prisão em 1960 viajou para Cuba onde foi acolhido por Fidel Castro. Desde a sua libertação ele viveu entre a União Soviética e Cuba.

Em 1961, Mercader foi condecorado em segredo com a medalha Herói da União Soviética, a Ordem de Lenin e a Estrela de Ouro. Ele recebeu também um posto de coronel e uma pensão equivalente a um general retirado, um apartamento em Moscou e uma dacha (casa de campo).

Antes, logo após o assassinato, toda a equipe de assassinos foi condecorada por Stalin e recebeu cargos e privilégios. Caridad Mercader recebeu a Ordem de Lenin diretamente das mãos de Mikhail Kalinin, presidente do Presidium do Soviete Supremo da União Soviética. Sudoplatov e Grigulevich foram condecorados com a Ordem da Bandeira Vermelha e Eitingon.com a Ordem de Lenin.

Segundo Sudoplatov, foram gastos com a operação para assassinar Trotsky 300 mil dólares na época, o que corrigido pela inflação seriam cerca de 6 milhões de dólares hoje, ou seja mais de 30 milhões de reais, sem contar os gastos com os advogados de Mercader, as pensões para ele e Caridad, etc. Todos esses depoimentos e fatos mostram como foi uma operação de Estado, organizada por Stalin e sua camarilha.

O assassinato de Trotsky foi um dos crimes mais monstruosos de Stálin e mostra de maneira irrefutável como o stalinismo utilizava a máquina do Estado soviético para eliminar seus opositores e, ao mesmo tempo, ocultar seus crimes, mentir e caluniar seus opositores.

Mas, ao fundar a IV Internacional, Trotsky conseguiu evitar que o fio de continuidade do marxismo e do bolchevismo fosse cortado. A história foi implacável e se encarregou de desmascarar os crimes do traidor Stálin, chamado por Trotsky, com justiça, de “coveiro da revolução”. A verdade, que só o trotskismo denunciava naquela época, está confirmada hoje não só pelos arquivos soviéticos e pelos mais sérios historiadores, mas pelos próprios burocratas e até pelos assassinos em suas memórias e depoimentos.

 

Bibliografia

Se você quer saber mais sobre o assassinato de Trotsky indicamos alguns livros onde você pode conhecer mais sobre o tema.

O primeiro é o livro de memórias do General Pabel Sudoplatov da NKVD intitulado “Operações especiais” que nós citamos várias vezes nesse artigo. A edição em espanhol pode ser encontrada na Internet.

Outro livro muito importante se chama “Assim assassinaram Trotsky” do General Leandro Sánchez Salazar – Chefe do Serviço Secreto do México encarregado por Cárdenas das investigações sobre os atentados a Trotsky.

Por fim, indicamos as biografias de Trotsky dos historiadores mais credenciados sobre o tema: a trilogia de Isaac Deutscher, “O Profeta Armado”, “O Profeta Desarmado” e, principalmente, o último livro “O Profeta Banido”; “Trotsky”, do francês Pierre Broué e também o “Trotsky” de Jean Jacques Marie.

Mais textos de Bernardo Cerdeira