Grêmio Estudantil: organização e transformação social
Fernando de Souza
Ao longo da minha trajetória como educador da rede pública, compreendo a educação como um espaço atravessado pelas contradições da sociedade capitalista. A escola, embora reproduza parte dessas contradições, também pode constituir-se em espaço de formação crítica, organização coletiva e construção de possibilidades de transformação social.
Foi nessa perspectiva que, em 2009, fundamos o ”Grêmio Estudantil Metamorfose” na EMEF Alceu Amoroso Lima, localizada no Jardim Pro Morar Rio Claro, Zona Leste de São Paulo. Essa experiência nasceu do trabalho coletivo e do envolvimento de estudantes, professores, equipe gestora, funcionários, famílias e comunidade escolar.
Sempre considerei a organização estudantil fundamental para a formação da consciência crítica. A escola, como uma microssociedade, é um espaço no qual se manifestam conflitos, relações de poder e contradições sociais, mas também se constroem solidariedade, participação democrática e resistência. É nessa dinâmica que crianças e adolescentes podem compreender que a realidade é histórica e, portanto, passível de transformação.
Os estudantes da periferia precisam reconhecer que o território em que vivem não determina os limites de suas possibilidades. São sujeitos históricos, cidadãos do mundo, capazes de compreender as desigualdades sociais e participar de sua transformação. Por isso, a formação política deve começar desde cedo, não apenas como conteúdo, mas como prática cotidiana de organização e participação coletiva.

O trabalho desenvolvido pelo Grêmio Metamorfose repercutiu em outras escolas da DRE São Mateus, tornando-se referência para o compartilhamento de experiências. Foi nesse contexto que recebi o convite do jornalista Jamil Kfouri para apresentar essa prática no programa Boas Práticas, da TV Cultura.
Recebo esse reconhecimento como resultado de uma construção coletiva. Acredito que a educação não transforma, isoladamente, as estruturas sociais, mas pode contribuir para formar sujeitos conscientes de seu papel histórico e capazes de se organizar para enfrentar as desigualdades.
Defender a escola pública é também defender uma educação que não se limite a adaptar os indivíduos à lógica do capital, mas que estimule a consciência crítica, a participação política e a emancipação humana. É nessa perspectiva que sigo acreditando na força da organização estudantil e na possibilidade de construir uma sociedade mais justa e igualitária.
