Reafirmação de tarifaço mostra que Trump quer o Brasil de joelhos

Apesar de novo ataque, governo Lula se nega a aplicar Lei da Reciprocidade

Diego Cruz
Reafirmação de tarifaço mostra que Trump quer o Brasil de joelhos
Manifestação contra o tarifaço de Trump em 2025. Foto Sindmetal/SJC

Na noite desta quinta-feira, 15, o governo Trump reafirmou o tarifaço contra o Brasil, num novo ataque imperialista cujo objetivo é o de colocar o país completamente de joelhos aos interesses dos EUA.

A justificativa para a nova leva de tarifas de 25% sobre as exportações brasileiras, programadas para entrar em vigor no próximo dia 22, se baseia na "Seção 301", mecanismo da Lei de Comércio criado em 1974 para retaliar práticas comerciais consideradas "desleais". Isso incluiria, segundo o Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR na sigla em inglês), o Pix, o desmatamento, a 25 de Março (tradicional centro de comércio popular em São Paulo) e uma suposta restrição à atuação das big techs norte-americanas no Brasil.

A taxação inclui uma lista de exceção de aproximadamente 2 mil itens, entre eles a carne bovina, o suco de laranja, o café, petróleo e gás, além de peças aeroespaciais, produtos cuja taxação elevaria a inflação no país. Mesmo assim, atinge setores nacionais importantes, como o de máquinas e equipamentos, além da indústria têxtil e calçadista.

Trata-se de um evidente ataque imperialista contra a soberania do país. Além de acumular um superávit de quase 450 bilhões de dólares nos últimos 15 anos com o Brasil, mesmo o Pix não representa qualquer perigo aos interesses dos bancos norte-americanos. Muito pelo contrário, as próprias bandeiras de cartões de crédito dos EUA, como o Mastercard, afirmaram que lucraram muito com o aumento da bancarização proporcionada pelo sistema de pagamento. Já a justificativa do desmatamento só desmoraliza ainda mais a “investigação” dos EUA, haja visto que o governo Trump é marcado pelo mais descarado negacionismo ambiental.

Bolsonarismo é cúmplice, e governo Lula não defende a soberania

O anúncio do tarifaço ocorre poucos dias após a reunião pública realizada pela USTR em Washington, em que o pré-candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, protagonizou um papelão, negando-se a defender o fim das tarifas, mas apenas postergá-las por três meses, ou seja, até ele próprio ser eleito. Flávio Bolsonaro afirmou que negociaria o Pix, privilegiaria a entrega das cobiçadas terras raras a Trump e que um tarifaço, neste momento, beneficiaria a campanha de Lula. Flávio queria o tarifaço como uma ameaça: votem em mim ou meu patrão irá tarifar o país.

Vale lembrar que, semanas antes, uma carta do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a Flávio Bolsonaro, deixou escapar que o pré-candidato ofereceu ao governo norte-americano colocar, se eleito, uma equipe de transição à disposição dos EUA. Um ato de entreguismo e traição sem precedentes desde a conformação do Brasil como Estado independente. 

A fim de não prejudicar o candidato da extrema direita, Marco Rubio divulgou em suas redes sociais que o motivo das tarifas seria que "o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé" e denunciou que " próprio ego acima da realização de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro". Algo também completamente fora da realidade, já que o governo brasileiro, além de ter se negado sucessivas vezes a retaliar os EUA de qualquer forma, vinha negociando ativamente com os EUA, inclusive colocando as terras raras na mesa. Na verdade, um jogo ensaiado entre os EUA e o bolsonarismo.

Mesmo agora, porém, o governo Lula, apesar dos duros discursos públicos contra o ataque, insiste em não bater de frente com o imperialismo estadunidense, seguindo a linha da também subserviente burguesia nacional, que implora por nenhuma retaliação apesar de estar contabilizando os prejuízos

Um ataque que vai além das eleições

O tarifaço é uma ingerência explícita contra o Brasil, numa tentativa de influir no cenário eleitoral e impor um governo fantoche no Planalto, alinhado à extrema direita trumpista e internacional. É parte, ainda, de um plano descrito na "Doutrina Donroe" de submeter o conjunto da América Latina aos ditames do império. 

Faz parte dessa política a intervenção militar na Venezuela; o recrudescimento das sanções e a ameaça de ataque a Cuba; além do apoio aos candidatos da extrema direita que venceram eleições recentemente, como no Peru e na Colômbia. Compõe esse processo, ainda, a caracterização de organizações criminosas como "terroristas", o que vai criando as condições para um ataque militar direto, como no México e no próprio Brasil.

A irritação do governo Trump contra Lula não decorre de uma suposta defesa da soberania nacional pelo governo do PT. Mas pelo fato de o governo brasileiro negociar a entrega do país não exclusivamente aos EUA, mas também ao imperialismo europeu (como no recente acordo Mercosul-UE) e ao ascendente imperialismo chinês. O governo Lula impõe a política do "quem paga mais leva". Já Trump, com o bolsonarismo como vassalo, quer levar tudo, principalmente no contexto de uma crescente disputa interimperialista com a China. Flávio Bolsonaro seria, nessa estratégia, seu empregado direto na administração do Estado brasileiro, a exemplo de Delcy Rodríguez, hoje na Venezuela.

O tarifaço reforça a necessidade de uma luta unificada do povo e dos trabalhadores latino-americanos contra o imperialismo norte-americano e sua doutrina de invasão, ataque e submissão. Isso passa, no Brasil, pela exigência que Lula retalie os EUA, uma medida mínima contra o ataque. Mas passa, sobretudo, pela luta da classe trabalhadora pela ruptura com o imperialismo, com a expropriação das multinacionais norte-americanas, do capital estadunidense aportado aqui e solidariedade ativa ao povo latino-americano, como a entrega de petróleo a Cuba.

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