O envolvimento do brasileiro com a Copa do Mundo é uma das maiores expressões da paixão popular pelo futebol. Em cada jogo, milhões param para torcer e viver coletivamente uma festa que atravessa gerações. Mas, nesta Copa, há uma presença que aparece quase tanto quanto as seleções: as bets.
Elas estão nas transmissões, nas camisas dos clubes, nos comentários, nos intervalos, nas redes sociais, nos influenciadores, nas “odds especiais” e nas promoções de “aposte agora”. As bets passaram a ser parte da própria experiência de assistir futebol. A cada escanteio, falta, cartão ou chute ao gol, tentam transformar a torcida em aposta.
As bets não produzem nada socialmente útil. Não melhoram o esporte, não democratizam o acesso aos estádios, não garantem lazer para o povo. Elas vivem de capturar parte da renda da classe trabalhadora, muitas vezes de quem já está endividado, desempregado ou tentando fechar as contas do mês.
A propaganda tenta vender a aposta como brincadeira, emoção a mais, modernidade. Mas a lógica é simples: a casa sempre ganha. E ganha porque todo esse negócio foi construído para isso. A aposta não é um duelo justo entre o torcedor e a sorte. É uma máquina bilionária baseada em algoritmo, vício, publicidade agressiva e exploração da vulnerabilidade social. Para os ricos, perder um pouco de dinheiro, pode ser diversão. Para os trabalhadores é a ruína.
Houve reação a essa invasão. A publicidade de bets durante as transmissões da CazéTV gerou indignação nas redes e levou o Ministério da Justiça a abrir investigação sobre possível publicidade abusiva. Mas não faltam hipócritas neste debate. A Globo tenta se beneficiar do desgaste da CazéTV. Parlamentares da direita, como Kim Kataguiri, aparecem criticando as bets, mas defendem a lógica de mercado, desregulamentação e liberdade para os mesmos grupos econômicos que transformam tudo em negócio. Qual é então o centro do problema?
Espólio legalizado
O avanço das bets foi institucionalizado e normalizado no Brasil. As apostas eletrônicas entraram pela porta aberta no governo Temer e ganharam contornos de legalidade com a regulamentação e a taxação promovidas pelo governo Lula. Sob a conivência do Congresso Nacional, de sucessivos governos e dos grandes clubes, esse mercado se instalou no coração do futebol nacional.
Com a regulamentação, as bets saíram da marginalidade para ganhar aparência de negócio legítimo. Passaram a patrocinar clubes, campeonatos, transmissões, influenciadores e grandes plataformas. Segundo projeções do próprio setor, o Brasil pode movimentar até R$ 31 bilhões em apostas apenas durante a Copa. Passou longe de ser uma brincadeira de torcedor: trata-se de uma indústria bilionária voltada a capturar a renda do povo no exato momento em que os salários estagnam frente ao custo de vida, o endividamento explode e milhões sobrevivem na informalidade.
O argumento de que “regular é melhor do que proibir” serve, na prática, para justificar a arrecadação sobre a perda do trabalhador. No fundo, a engrenagem é cruel: as empresas faturam com a ruína alheia, o governo recolhe impostos e os bancos lucram mediando o estrago. Medidas cosméticas contra anúncios abusivos, bloqueios pontuais ou discursos sobre “jogo responsável” são apenas cortinas de fumaça. Não há propaganda responsável para um negócio desenhado para destruir.
Endividamento das famílias
As bets avançam sobre uma sociedade marcada por salário baixo, desemprego, informalidade, carestia e endividamento. É por isso que atingem com mais força justamente os setores mais precarizados da classe trabalhadora.
Quem vive no limite do cartão, quem pega empréstimo para pagar conta, quem trabalha no 6x1, quem vê o salário acabar antes do fim do mês, quem não encontra perspectiva de futuro, é bombardeado todos os dias com a promessa de que uma aposta pode mudar a vida. A bet oferece uma falsa saída individual para um problema social produzido pelo capitalismo.
Há ainda um elemento específico que torna as bets mais perigosas do que outros jogos de azar: elas se apoiam na ilusão de competência. No futebol, todo torcedor acha que entende do jogo, conhece o time, sabe quando um atacante vai marcar, quando uma seleção vai pressionar ou quando uma partida terá mais escanteios. A pessoa não sente que está apenas contando com a sorte. Ela acredita que está fazendo uma análise. Mas, do outro lado, não há outro torcedor dando palpite. Há empresas com bancos de dados gigantescos, algoritmos, séries históricas e odds calculadas para garantir que, no conjunto, a casa sempre ganhe.
Durante a Copa, isso se torna ainda mais agressivo. O torcedor está emocionalmente envolvido, quer que sua seleção vença, vibra com cada ataque e passa a ver como “óbvia” uma aposta que foi desenhada para parecer fácil. É assim que uma aposta pequena vira outra, depois outra, depois uma tentativa de recuperar o que foi perdido. Quando perde, a pessoa tenta compensar. Quando ganha, acha que pode ganhar mais. A engrenagem é feita para manter o apostador preso.
O impacto aparece no orçamento das famílias. Estudos recentes apontam as bets como um dos principais motores do endividamento no Brasil. A plataforma Brasil Contra Bets afirma que 25 milhões de brasileiros apostaram no ano anterior, que quase metade dos apostadores se endividou e que cerca de 10 milhões apresentaram comportamento de risco. A Confederação Nacional do Comércio estimou que a inadimplência ligada às apostas retirou R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026.
Esses números revelam o tamanho da tragédia social. O dinheiro que deveria ir para comida, aluguel, transporte, material escolar ou contas básicas vai parar nas plataformas de apostas. Depois, quando a família quebra, entram os bancos, os cartões, os empréstimos e o refinanciamento da dívida.
Por trás do discurso das apostas se mostra a faceta perversa do capitalismo. Depois de sufocar a população com salários baixos e falta de perspectiva, o sistema oferece o jogo como tábua de salvação, fantasiado de meritocracia da sorte. O marketing diz que o sucesso está a um clique, mas a realidade matemática é implacável: o trabalhador perde e o grande capital embolsa o lucro.
Tratar essa crise social como um desvio de conduta individual é tapar o sol com a peneira. O apostador endividado é a vítima, não o culpado. O vício não nasce no vazio; ele é estimulado e financiado por uma indústria bilionária.
Mídia, influenciadores e clubes: o futebol capturado pelas bets
O império das bets não se ergueu sozinho. Elas pegaram carona no prestígio de clubes de futebol, emissoras de TV e influenciadores digitais.
O caso da CazéTV expressa bem esse processo. O canal, que surgiu com a promessa de ser uma alternativa jovem, leve e popular ao monopólio das transmissões tradicionais, acabou se curvando à mesma lógica do grande capital. Ao longo da Copa, a mistura entre comentários esportivos e incentivo a apostas revoltou parte do público e colocou o canal na mira do Ministério da Justiça por publicidade abusiva.
Mas não nos enganemos: a Rede Globo não tem autoridade moral para posar de fiscal das bets. A emissora pode se beneficiar do desgaste da CazéTV e da possibilidade de a Fifa impor novas barreiras às transmissões em futuras Copas. Mas a Globo também está metida nesse mercado.
A Boa Lion, joint venture entre o Grupo Globo e a MGM Resorts, concluiu a aquisição integral do Bingão do Brasil, empresa de vídeo-bingo online associada a investidores, incluindo o apresentador Luciano Huck. Ou seja, enquanto uma parte da imprensa denuncia os abusos das bets nas transmissões da Copa, o próprio grupo que dominou historicamente o futebol brasileiro expande seu portfólio no mesmo ramo.
Não existe um lado limpo nessa história. Trata-se de uma disputa pelo controle da audiência, dos direitos de transmissão e dos bilhões gerados pela paixão popular. Quem paga a conta é a classe trabalhadora. Na TV aberta, no streaming ou nas redes sociais, o futebol virou pano de fundo para grandes corporações que enxergam cada drible como oportunidade de lucro.
A mesma lógica atravessa os influenciadores. Tratar a publicidade de bets como “mero entretenimento” é tentar maquiar a venda de um vício que endivida e destrói famílias.
É evidente que existe responsabilidade em aceitar dinheiro para divulgar bets, ainda mais quando se fala com milhões de jovens e trabalhadores. Mas também é preciso enxergar o tamanho da pressão econômica desse mercado. A repercussão da recusa de Fernando Santos a uma proposta de R$ 1 milhão mostrou justamente isso: as cifras são tão altas que revelam o quanto as bets estão dispostas a pagar para comprar legitimidade.
O problema, portanto, não é apenas quem aceita ou quem recusa uma publicidade. Celebridades como Virgínia Fonseca ajudam a normalizar esse mercado para milhões de seguidores; outros recusam contratos e expõem a contradição. Mas a saída não pode depender da consciência individual de cada famoso. É preciso proibir a propaganda de bets e responsabilizar economicamente empresas, plataformas e agentes que lucram com essa engrenagem.
Os clubes de futebol também não têm as mãos limpas. Viraram balcões de negócios das bets, normalizando a jogatina para suas próprias torcidas em troca de patrocínios milionários. É consequência da mercantilização e elitização do esporte, que hoje caminha de mãos dadas com a entrega dos times às SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol), o compadrio de megaempresários e a subordinação total aos interesses da TV.
O resultado é um império do esporte financiado pelas bets. Um negócio de bilhões que não existe apesar da crise social, mas justamente por causa dela. As casas de apostas lucram porque há milhões de trabalhadores sem perspectiva, empurrados a buscar numa aposta aquilo que o trabalho já não garante.
Bloquear o fluxo do capital e proibir as bets!
A farsa do “jogue com responsabilidade” precisa ser desmontada. Não existe responsabilidade quando uma indústria inteira é organizada para estimular vício, multiplicar apostas e lucrar com a perda dos usuários. O slogan serve apenas para transferir a culpa ao apostador, como se a ruína das famílias fosse resultado de falta de autocontrole individual e não de um modelo de negócios predatório. É preciso atacar quem lucra: as casas de apostas, os bancos, as fintechs, as plataformas digitais, os clubes, as federações e os influenciadores. O apostador endividado ou adoecido pela ludopatia não deve ser tratado como criminoso, deve ser tratado como vítima de uma indústria bilionária.
Combater apenas os “excessos” enquanto se mantém de pé a engrenagem que os produz é pura demagogia. É preciso proibir as bets, banindo os jogos de alto risco e as apostas online, além de extinguir toda e qualquer publicidade desse mercado em transmissões esportivas, camisas, estádios ou redes sociais. Não há espaço para cassino disfarçado de resenha esportiva.
Mas essa proibição não pode virar um jogo de esconde-esconde na internet, onde um site cai e outro surge com um novo endereço. O alvo central deve ser o coração financeiro do negócio. É necessário asfixiar o fluxo do dinheiro, impedindo legalmente que bancos, operadoras de cartão e o sistema Pix façam a intermediação para essas plataformas. Sem conta, sem intermediação financeira e sem publicidade, a capacidade de operação dessas empresas cai muito mais do que com medidas isoladas contra sites. É necessário também abrir as contas desta indústria para investigar a lavagem de dinheiro, a manipulação de resultados e suas conexões com o crime organizado.
As bets devem pagar pelo estrago que fizeram, por isso é preciso confiscar integralmente os lucros obtidos pelas plataformas, revertendo esses bilhões para um fundo público gerido pelo SUS, voltado à prevenção, pesquisa e tratamento da ludopatia. Da mesma forma, empresas de mídia e influenciadores que enriqueceram promovendo apostas não podem simplesmente apagar os posts e seguir a vida: a conta jurídica e financeira dessa tragédia social precisa chegar para eles.
Por fim, é preciso enfrentar a mercantilização do futebol. Os clubes devem pertencer às suas torcidas, não aos empresários, SAFs, federações corruptas ou patrocinadores predatórios. O esporte de base precisa de financiamento público, transparente e controlado pela população. O futebol deve voltar a ser tratado como cultura, lazer e direito popular, não como balcão de negócios.