Érika Andreassy e João Pedro Andreassy Castro
Aos 18 anos, Yasin Ayari viveu um momento com o qual milhões de crianças sonham. O meia-atacante sueco marcou seu primeiro gol em uma Copa do Mundo. Mas apesar do feito, a comemoração não veio. Diante da seleção da Tunísia, país de origem de seu pai, Ayari preferiu baixar os braços e demonstrar respeito à outra parte de sua história familiar.
O episódio durou poucos segundos, mas teve um significado muito profundo e contradiz uma ideia extremamente difundida sobre as seleções nacionais. Filho de mãe marroquina e pai tunisiano, Ayari nasceu na Suécia e escolheu representar seu país natal na Copa. Mas sua história pessoal atravessa fronteiras, continentes e gerações.
Talvez por isso mesmo o gesto tenha se tornado a melhor expressão de um fenômeno crescente na história recente do futebol: a presença cada vez maior dos chamados "filhos da diáspora" nas seleções nacionais.
Os filhos da diáspora
Levantamentos publicados pela imprensa internacional mostram que uma parcela expressiva dos jogadores convocados pelas grandes potências do continente europeu é formada por filhos ou netos de imigrantes. Em alguns casos, eles constituem a maioria absoluta dos elencos.
A seleção francesa é o exemplo mais impressionante. Nada menos do que 77% de seus convocados possuem origem familiar fora do território francês, principalmente em antigas colônias africanas. Alemanha e Bélgica também apresentam uma forte composição multicultural — 42% e 50%, respectivamente — seguidas pelos Países Baixos (Holanda) e Inglaterra, com cerca de um terço de seus elencos compostos por descendentes de imigrantes.
Não se trata apenas de uma mudança demográfica. O futebol tornou-se uma vitrine privilegiada das transformações sociais produzidas por décadas de migração. E, curiosamente, diversos estudos indicam que equipes compostas por atletas de origens diversas também apresentam vantagens competitivas significativas.
Mas a questão central não é esportiva. O que esses números revelam é uma transformação histórica profunda. As grandes seleções europeias tornaram-se cada vez mais dependentes dos talentos produzidos por sociedades profundamente transformadas pelas migrações, justamente quando cresce em diversos países um discurso político que apresenta a imigração como ameaça à identidade nacional.
O império não desapareceu. Ele se transformou
Durante séculos, as potências europeias acumularam riqueza através da exploração colonial. Milhões de pessoas foram escravizadas, deslocadas ou submetidas ao domínio imperial. Recursos naturais, trabalho humano e riquezas produzidas nas colônias foram transferidos para os grandes centros europeus.
O fim formal dos impérios não apagou essa história. As bandeiras coloniais foram arriadas, mas as antigas metrópoles continuaram ocupando posições dominantes na economia mundial e atraindo populações de territórios que elas próprias ajudaram a integrar de forma subordinada ao mercado mundial.
Os gramados da Copa são também um produto dessa história. A presença massiva de filhos e netos de imigrantes nas seleções europeias é uma das expressões mais visíveis dos fluxos populacionais produzidos por séculos de colonialismo e pelas relações desiguais que continuaram a caracterizar a ordem imperialista atual.
Quando a França entra em campo com atletas cujas famílias vieram do Mali, Senegal, Argélia, Camarões ou Congo, ela não está expressando apenas a diversidade. Está expressando, principalmente, a própria história do imperialismo francês. O mesmo vale para os Países Baixos e sua relação com Suriname e Antilhas. Para a Inglaterra e o Caribe. Para a Bélgica e o Congo.
A própria Europa foi atravessada por enormes movimentos populacionais ao longo do século XX e início do XXI. Guerras, crises econômicas e transformações políticas deslocaram milhões de pessoas entre diferentes regiões do continente. Poloneses, romenos, bósnios, albaneses e diversos outros grupos migraram para os centros econômicos da Europa Ocidental e frequentemente enfrentaram formas específicas de discriminação e xenofobia.
Isso revela outro aspecto importante: as fronteiras do pertencimento nacional não são moldadas pelo sangue. São construções sociais e políticas que definem continuamente quem é considerado parte legítima da nação e quem continua sendo tratado como estrangeiro.
As novas minas de ouro do futebol
Mas a herança colonial e as diferenças intracontinentais não produziram apenas fluxos migratórios. Produziu também geografias profundamente desiguais dentro das próprias metrópoles europeias. Em Paris, Londres, Bruxelas, Roterdã ou Marselha, muitos migrantes e seus descendentes foram concentrados em bairros periféricos marcados por desemprego, precariedade habitacional e discriminação social.
Paradoxalmente, são esses mesmos territórios marginalizados que se transformaram em alguns dos maiores produtores de talentos do futebol mundial. As “banlieues” francesas talvez sejam o exemplo mais conhecido. Frequentemente apresentadas pela mídia apenas como espaços de pobreza, violência ou imigração, elas funcionam também como uma gigantesca fábrica de atletas que abastece os clubes mais ricos da Europa e as principais seleções nacionais do continente.
Existe aqui uma ironia histórica difícil de ignorar. Durante séculos, as colônias forneceram riqueza para as metrópoles. Hoje, muitos dos bairros formados pelos descendentes dessas populações continuam produzindo uma riqueza diferente: atletas que movimentam bilhões de euros na indústria global do futebol e alimentam o sucesso esportivo dos mesmos países que outrora dominaram seus territórios de origem.
O mecanismo não é idêntico ao colonialismo clássico. Mas preserva algo de sua lógica fundamental. Territórios socialmente marginalizados produzem riqueza que é apropriada pelos centros econômicos mais poderosos.
Heróis nacionais quando vencem, estrangeiros quando perdem
A presença de filhos e netos de imigrantes nas seleções nacionais costuma ser apresentada como prova do sucesso da integração. Quando a França conquista uma Copa do Mundo, quando a Inglaterra chega a uma final ou quando a Alemanha faz uma grande campanha, jogadores negros, árabes ou descendentes de imigrantes são celebrados como símbolos da diversidade nacional.
Essa aceitação, porém, possui limites muito nítidos. Ela é frequentemente condicional e utilitária.
Quando os resultados aparecem, esses atletas são tratados como heróis nacionais. Quando falham, suas origens voltam imediatamente ao centro do debate.
A história recente do futebol europeu está repleta de exemplos. Jogadores transformados em símbolos da nação durante uma vitória tornam-se alvos de campanhas racistas após uma derrota. Sua cidadania permanece formalmente reconhecida. Seu pertencimento nacional, porém, continua submetido a julgamento permanente.
O capitalismo europeu necessita da força de trabalho dos imigrantes e de seus descendentes. Suas seleções dependem cada vez mais desses atletas. Mas setores importantes da sociedade continuam recusando-se a reconhecê-los como parte legítima da comunidade nacional.
O futebol torna essa contradição visível diante de bilhões de pessoas.
A realidade contra o discurso da extrema direita
A ascensão da extrema direita transformou essa contradição em um problema político ainda mais evidente.
Na França, na Alemanha, na Inglaterra e em diversos outros países europeus, correntes nacionalistas defendem políticas cada vez mais agressivas contra a imigração. Em alguns casos, setores da extrema direita passaram a defender inclusive projetos de "remigração", ou seja, a expulsão em massa de imigrantes e descendentes de imigrantes considerados insuficientemente assimilados.
Mas a realidade insiste em desafiar essa narrativa. As mesmas forças políticas que denunciam o multiculturalismo e prometem restaurar uma suposta identidade nacional homogênea são obrigadas a assistir, apoiar e torcer por seleções formadas justamente pelos filhos e netos daqueles que afirmam não querer em seus países.
A Suécia oferece um exemplo particularmente revelador. Embora possua um elenco numericamente mais homogêneo do que França ou Bélgica, seu setor ofensivo é resultado direto das migrações e do acolhimento de refugiados ao longo das últimas décadas. Alexander Isak é filho de imigrantes da Eritreia. Anthony Elanga é filho de um ex-jogador da seleção de Camarões. Viktor Gyökeres possui ascendência húngara. Taha Ali tem raízes familiares no Norte da África. Yasin Ayari é filho de tunisiano e marroquina. Besfort Zeneli é descendente de kosovares e albaneses.
Ao mesmo tempo, o partido ultranacionalista Democratas Suecos consolidou-se como uma das principais forças políticas do país e sustenta um governo cada vez mais alinhado a políticas anti-imigração. A contradição é evidente. Enquanto parte da classe política denuncia os efeitos da imigração e propõe o endurecimento das fronteiras, o sucesso esportivo da seleção sueca depende justamente dos filhos dos imigrantes e refugiados que ajudaram a transformar a sociedade sueca nas últimas décadas.
A mesma contradição aparece em toda a Europa. Lideranças como Jordan Bardella, na França, utilizam frequentemente episódios de violência urbana ou conflitos envolvendo torcedores para atacar políticas migratórias e alimentar discursos xenófobos. Mas quando a bola rola, essas mesmas sociedades descobrem algo que seus nacionalistas preferem ignorar: boa parte dos atletas que carregam a bandeira nacional em campo vem exatamente dos grupos sociais apresentados como ameaça à identidade do país.
Talvez seja por isso que as seleções provoquem tamanho desconforto na extrema direita. Elas mostram algo que o nacionalismo tenta esconder: as nações contemporâneas são produto de séculos de migração, mistura e integração histórica. O crescimento da extrema direita mostra que o racismo, a xenofobia e o nacionalismo continuam sendo forças poderosas no mundo atual. A Copa de 2026 não desmente essa realidade. Pelo contrário. Ela a expõe diariamente.
Mas o torneio revela também outra verdade. Apesar das fronteiras, das guerras e dos discursos de exclusão, milhões de pessoas já vivem entre culturas, línguas e identidades diferentes. Os nacionalistas podem continuar sonhando com nações homogêneas. O futebol mostra algo distinto.
Quando Yasin Ayari se recusou a comemorar diante da Tunísia, ele não estava dividido entre duas pátrias. Estava mostrando uma realidade que a extrema-direita não consegue compreender: para uma parcela crescente da humanidade, as fronteiras continuam existindo, mas a vida já não cabe inteiramente dentro delas.