A polêmica no PSOL e os limites de um projeto eleitoral

Deputada federal Erika Hilton trava briga pública contra a direção nacional do partido sobre a distribuição do fundo eleitoral

PSTU-RS
A polêmica no PSOL e os limites de um projeto eleitoral
Foto: Divulgação

| Secretaria de Mulheres do PSTU - Porto Alegre (RS)

A briga pública travada pela deputada federal Erika Hilton contra a direção nacional do PSOL, envolvendo a distribuição do fundo eleitoral e a pré-candidatura de Manuela D'Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul, merece atenção. Não porque seja um escândalo inédito, mas porque revela, com nitidez incomum, as contradições de um projeto político que subordinou a transformação social à lógica institucional.

Os fatos são simples: Hilton denunciou que Manuela D'Ávila teria previsão de receber mais que o dobro dos recursos destinados à sua campanha, e que o presidente da federação PSOL-Rede, Juliano Medeiros, teria prioridade equivalente à dela na divisão de verbas. A deputada classificou a situação como expressão de "privilégio branco e cis" e acusou a direção de desmontar mecanismos internos de distribuição com critérios de gênero, raça e inclusão de pessoas com deficiência.

Uma disputa de correntes dentro de um mesmo projeto

A polêmica se insere num conflito mais antigo entre a corrente Revolução Solidária, de Erika Hilton e do atual Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência, Guilherme Boulos, e a Primavera Socialista, corrente majoritária na direção a qual pertence Juliano Medeiros. Hilton ficou no PSOL com o argumento de que sua permanência ajudaria o partido a superar a cláusula de barreira. E cobra agora que os acordos feitos nessa ocasião sejam cumpridos.

É legítimo denunciar o descumprimento de acordos. Mas o que a denúncia revela, antes de qualquer outra coisa, é que a decisão de permanecer no PSOL foi desde o início uma escolha de aparato, motivada por cálculos eleitorais, não por divergências de programa. O conflito entre Erika Hilton e a direção do PSOL não é sobre o que fazer com os mandatos, mas sobre quem controla os recursos para conquistá-los.

A pergunta decisiva — a que o texto da deputada não faz e que nenhum dos lados da disputa parece interessado em responder — é outra: para que serve esse fundo, e a que projeto político ele está subordinado?

Manuela D'Ávila e Juliano Medeiros não são exceções, são a regra

O caso de Manuela D'Ávila é revelador precisamente porque não é excepcional. Manuela encerrou em 2023 uma trajetória de mais de duas décadas no PCdoB e ao se filiar ao PSOL afirmou ter encontrado no partido o "compromisso profundo com mudanças estruturais".

Sua trajetória política é a de uma liderança do campo progressista institucional: candidata a vice-presidente na chapa de Haddad em 2018 e integrante orgânica da frente ampla que derrotou Bolsonaro em 2022, sem ruptura com a estratégia de conciliação de classes que caracteriza o lulismo.

Juliano Medeiros, ao assumir a presidência da federação PSOL-Rede, foi igualmente explícito: afirmou que a estratégia do PSOL "é cumprir um papel fundamental na campanha de Lula, ajudando a garantir a ampliação das bancadas de esquerda na Câmara dos Deputados e no Senado".

Em outra ocasião, declarou não ter "dúvida de que o campo progressista vai estar unificado em torno do Lula", deixando nítido que a reeleição de Lula é o próprio horizonte estratégico do PSOL e não uma tática subordinada a objetivos que vão além do governo.

Pode-se até questionar se essa seria uma tática legitima ou não, mas quando ela deixa de ser uma tática para virar estratégia, a questão muda. E nesse caso, tanto Manuela quando Medeiros expressam exatamente o que o PSOL se tornou: um partido que opera dentro do campo lulista, que define seus objetivos em função da institucionalidade e que recruta quadros competitivos eleitoralmente, independentemente de onde vieram ou do que defendem, para fortalecer sua presença no Congresso. Nesse quadro, a entrada de Manuela D'Ávila no PSOL não é um desvio. É o modelo.

O que a polêmica realmente revela

Quando a atividade central de um partido passa a ser a disputa por recursos institucionais, os conflitos internos assumem inevitavelmente a forma de brigas por fatias do bolo. Não há como resolver essa disputa no terreno das ideias, porque ela não é uma disputa de ideias. É uma disputa de correlação de forças entre correntes que partilham o mesmo projeto: fortalecer a bancada, reeleger Lula, ampliar a representação da “esquerda” no Estado.

Érika Hilton usa a linguagem do "privilégio branco e cis" para descrever esse conflito. Essa linguagem pode nomear desigualdades reais e, de fato, as nomeia, em muitos contextos. Mas quando é mobilizada para justificar que uma liderança receba mais fundo eleitoral do que outra, sem questionar o que ambas farão com esses recursos, ela deixa de ser um instrumento crítico e se torna um instrumento de disputa interna. A questão decisiva não é quem recebe mais. É para que serve o que se recebe. E sobre isso, Hilton e seus adversários na direção do PSOL não têm divergência real.

Nossa posição

Para o PSTU, candidaturas existem para servir a um programa socialista e fortalecer a organização independente da classe trabalhadora e não para acumular recursos ou consolidar posições no Estado. Por isso, a questão de quem recebe mais ou menos fundo eleitoral é, para nós, secundária. A questão primária é o que os mandatos fazem: se constroem ou enfraquecem a autonomia dos trabalhadores, se ampliam ou limitam sua consciência de classe.

A representação de mulheres negras, de pessoas LGBTQIA+, de trabalhadores da periferia importa. Mas importa como parte de um projeto que ponha esses setores como sujeitos de uma transformação que vai além das urnas. Quando a representação se torna fim em si mesma, ela se converte em instrumento de integração ao mesmo sistema que precisa ser combatido.

A emancipação da classe trabalhadora não virá da melhor distribuição do fundo eleitoral. Virá de uma força política que não confunda ocupar espaços no Estado com transformá-lo.

Não construímos um partido para servir candidaturas. Construímos candidaturas para servir um programa.

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