No jogo pela defesa da soberania, o Brasil está perdendo de goleada

Diego Cruz
No jogo pela defesa da soberania, o Brasil está perdendo de goleada
Lula durante encontro com Trump em maio passado. Foto: Ricardo Stuckert/PR

O clima de Copa do Mundo voltou a trazer o verde-amarelo às ruas do Brasil. Principalmente nas periferias, o uniforme canarinho está deixando de ser símbolo do bolsonarismo para demonstrar a torcida da população à seleção. Fora dos gramados, porém, o país é alvo de ataques da principal potência imperialista do mundo e não conta com uma zaga capaz de deter essa ofensiva.

O mais recente lance ocorreu no dia 2 de junho, quando os EUA de Donald Trump retomaram o tarifaço contra o Brasil. Mas de onde veio isso? Ainda no ano passado, quando Trump taxou os produtos brasileiros, também anunciou o início de “investigações” contra o que chamou de práticas desleais do Brasil (como se os EUA não dominassem grande parte da nossa economia).

Pois bem, o tarifaço caiu por força da própria justiça estadunidense. Mas, contornando esse revés, utilizaram as tais investigações para retomá-lo. Agora utilizando uma lei de comércio de 1974, esse mecanismo dificulta a ação judicial que derrubou o tarifaço anterior.

Pix e terrorismo

A penalização imposta pelo governo dos EUA veio na forma de uma taxação de 25% sobre as exportações brasileiras, à exceção daquelas que não afetem a economia do país imperialista (como café, gado e peças aeronáuticas). E o que seriam as “práticas desleais” usadas como desculpa para o tarifaço? O Pix, que permite transações sem a necessidade de passar pelas bandeiras dos cartões dos grandes bancos.

Também elencaram justificativas esfarrapadas, como o desmatamento, como se Trump tivesse alguma preocupação com o meio ambiente, ou até mesmo a famosa rua 25 de Março, na capital paulista, tradicional reduto do comércio popular.

Esse ataque não veio sozinho. Semanas antes do anúncio do tarifaço, os EUA divulgaram o enquadramento das organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho como terroristas. Uma medida que nada tem a ver com combater o crime, mas sim com reforçar a pressão e a ingerência, seja com sanções, seja com retaliações administrativas ou até mesmo com a possibilidade de um ataque direto militar, como ocorreu na Venezuela.

Trump quer reforçar subordinação do Brasil Foto Casa Branca

JOGO SUJO

Trump quer espoliar o país no tapetão

Trump, nos marcos de sua doutrina “Donroe” (menção à antiga Doutrina Monroe, a qual preconizava a “América para os norte-americanos”), quer decidir como os brasileiros vão pagar uma coxinha na padaria, quer o caminho livre para as big techs estadunidensesacima das leis do Brasil e, no limite, até definir quem os brasileiros vão eleger nas próximas eleições.

Trata-se de uma interferência para reforçar a dominação imperialista que os EUA já exercem sobre o Brasil. Só para se ter uma ideia, a balança comercial (diferença entre tudo que o país vende e compra dos EUA) nos últimos doze meses foi de quase US$ 1,5 bilhão de dólares em favor dos EUA. Para além desse fator conjuntural, grandes monopólios capitalistasestadunidensesdominam setores-chave da economia brasileira, numa relação de exploração e subordinação consolidada no pós-guerra, que só se aprofundou desde então.

Terroristas são os EUA

No mesmo sentido, o enquadramento do PCC e do CV como terroristas serve para facilitar a aplicação de sanções de acordo com os interesses de Trump e dos monopólios que ele defende. Como ficou evidente na operação Carbono Oculto, organizações como o PCC não são terroristas no sentido de ameaçar o poder ou qualquer coisa do tipo, mas, ao contrário, têm relações intrincadas com Estado, instituições da Faria Lima e grandes empresas, atuando, na prática, como uma grande empresa capitalista. Chegam a controlar cadeias inteiras da economia, como a distribuição de combustíveis. Ou seja, achacam e oprimem o povo enquanto irrigam com bilhões o sistema financeiro.

A definição cínica dos EUA, que apoia e sustenta os verdadeiros atos terroristas, como o genocídio em Gaza, só serve para atacar o Brasil, e não para combater o crime. A medida pode abrir espaço para que, por exemplo, os EUA imponham sanções contra empresas, bancos ou pessoas físicas que utilizem Pix sob argumento de que o crime organizado faz transações por esse meio.

Os ataques econômicos, porém, são apenas um aspecto dessa medida. Ainda que hoje possa parecer improvável, sempre vai pairar a ameaça de uma invasão estrangeira imperialista, já que os EUA se veem com carta branca para atacar qualquer organização terrorista em qualquer parte do mundo. A invasão da Venezuela, com o sequestro do ditador Nicolás Maduro e o estabelecimento de um governo fantoche, é um exemplo do sentido dessa política.

Medida do governo norte-americano abre caminho até para intervenções militares, como na Venezuela

TÉCNICO JOGA PARA O OUTRO LADO

Extrema direita joga contra o Brasil, e governo Lula deixa a bola passar

Irmãos Bolsonaro conspiram com Trump: traição contra o país

Mais uma vez, a nova leva de ataques do governo Trump contou com o apoio cúmplice da família Bolsonaro. Não foi coincidência que o anúncio do novo tarifaço tenha vindo no mesmo momento que o presidenteestadunidensedivulgava a foto da visita que Flávio Bolsonaro lhe havia feito uma semana antes. São traidores marcando gol contra o próprio time.

Sem defesa

O problema é que a defesa do Brasil não está melhor que a zaga da seleção. Lula, que no discurso do encontro do G7, mais uma vez, atacou o tarifaço e as ofensivas de Trump, na prática, deixa a bola passar. Além de se recusar a retaliar o tarifaço, o governo, segundo a imprensa, aposta na negociação, aceitando concessões a Trump.

Mais que isso, o governo Lula já havia ido a Washington negociar, entre outras coisas, a entrega das terras raras a Trump. Isso sem falar no acordo que encabeçou entre o Mercosul e a União Europeia, aumentando a submissão do Brasil ao decadente imperialismo europeu. É a mesma política que implementa em relação ao imperialismo chinês, oferecendo todo tipo de privilégio para a instalação das multinacionais da China aqui.

Diferentes mais iguais

A ofensiva trumpista expôs a hipocrisia da extrema direita, que se oferece como serviçal do imperialismo sem qualquer mediação. Porém o governo Lula não enfrenta o imperialismo. Ao contrário, tem como política entregar o país a quem pagar melhor. Ambos vestem camisas de cores diferentes, mas jogam contra o Brasil.

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A burguesia não defende a soberania. Pelo contrário, quer se enquadrar ao tarifaço e a Trump, entregando tudo que os EUA querem para seguir lucrando com as migalhas que caem da mesa dos monopólios estrangeiros. E o povo? Para eles o povo que se lasque. O governo Lula, por sua vez, joga na retranca enquanto vai entregando o jogo, oferecendo, por exemplo, as terras raras aos EUA e fazendo leis e acordos com Trump que permitem melhores condições para as empresas estrangeiras explorarem e processarem nossas riquezas. No final das contas, o resultado será um novo 7x1, com a perda cada vez maior da nossa soberania e a entrega do país.

Só a classe trabalhadora, com suas próprias forças, pode liderar uma grande mobilização para derrotar o imperialismo e conquistar uma verdadeira soberania. Para encarar Trump e a ofensiva imperialista, é preciso botar a classe em campo.

Trump, tire as mãos do Pix!

O Pix foi desenvolvido pelo corpo técnico do Banco Central, não foi política de nenhum governo. Trump quer acabar com ele para favorecer os bancosestadunidensese asbig techs. É preciso defender o Pix contra o ataque do imperialismo, mas é preciso atacar os grandes bancos que o controlam. Se por um lado ele facilitou a vida das pessoas, por outro também trouxe muitos lucros a bancos efintechsao forçar a bancarização de parte significativa da população. Banqueiros do país, inclusive, numa vergonhosa demonstração de subordinação, estão agora afirmando que os EUA “não entenderam o Pix” e que as empresasestadunidensespodem participar dele.

O Pix é um exemplo de como a tecnologia pode facilitar e favorecer a vida da população. Mas para que ele esteja a serviço dos trabalhadores de fato e não do lucro dos bancos, é necessário mexer em todo o sistema financeiro, estatizando os bancos, sob controle dos trabalhadores, para acabar com os juros extorsivos e oferecer crédito a preço de custo ao povo pobre e à classe média.

Reciprocidade já! Sobretaxar a economia dos EUA, proibir a remessa de lucro pro exterior e controlar o capital!

A classe trabalhadora deve exigir que o governo Lula vá além das palavras e implemente de imediato retaliações comerciais aos EUA, o que inclusive já foi aprovado até por este Congresso Nacional. Seria o mínimo diante do novo ataque, mas, assim como ocorreu no ano passado, o governo nega-se a qualquer reação e aposta em ainda mais concessões ao imperialismo.

Terras Raras para os brasileiros

Ao mesmo tempo, é necessário parar a entrega das terras raras ao imperialismo, investindo em pesquisa e tecnologia para que o Brasil não fique à margem das cadeias produtivas de alto valor, como chips e semicondutores.

O governo Lula, porém, negou-se a criar a Terrabras, uma estatal que gerisse a exploração das terras raras. Temos que exigir a criação da Terrabras, controlada pelos trabalhadores, para o desenvolvimento nacional, ambientalmente sustentado, e não para enriquecer ainda mais os países imperialistas e aumentar nossa dependência.

Expropriação dos grandes monopólios imperialistas

Hoje a maior parte da economia é dominada por um pequeno número de grandes monopólios imperialistas. Para eles, é jogo que o Brasil permaneça no papel de mero fornecedor de matérias-primas de baixo valor, desindustrializando-se e permanecendo fora das cadeias produtivas mais dinâmicas. Exploram a mão de obra barata aqui e remetem seus lucros às matrizes. Uma verdadeira soberania pressupõe a expropriação dessas grandes empresas, sob controle dos trabalhadores, impedindo a remessa de lucro para que seja reinvestido na reindustrialização do país.

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