Na última quarta-feira, 24, às vésperas do jogo do Brasil contra a Escócia pela Copa do Mundo, Michelle Bolsonaro publicou vídeos em suas redes sociais acusando o enteado, Flávio Bolsonaro, de tê-la desrespeitado e humilhado durante uma discussão sobre alianças eleitorais no Ceará. O conteúdo rapidamente ocupou o noticiário político, disputando atenção, ironicamente, com a vitória da seleção por 3 a 0.
Flávio Bolsonaro inicialmente respondeu com desdém — "hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece" — mas, poucas horas depois, divulgou uma longa nota pública reafirmando que é um bom marido, um bom pai, que jamais desrespeitaria uma mulher, pedindo desculpas caso ela tenha se sentido ofendida e dizendo estar "de coração aberto".
Mas por que uma divergência que poderia ser resolvida nos bastidores foi transformada em espetáculo público? A resposta ajuda a compreender não apenas a crise atual, mas a própria natureza do bolsonarismo.
Uma briga pelo comando do mesmo projeto
Antes de entrar no mérito, é preciso estabelecer o que está e o que não está em disputa.
Michelle e Flávio Bolsonaro não representam projetos distintos para o país. Ambos defendem o legado político de Jair Bolsonaro. Ambos se apresentam como herdeiros legítimos do bolsonarismo. Ambos defendem o mesmo programa econômico favorável ao grande capital, a mesma agenda ultraconservadora nos costumes, a mesma política repressiva contra os movimentos sociais e a mesma estratégia de reorganização da extrema direita para as eleições de 2026.
O conflito não gira em torno do programa. Gira em torno da liderança. Com Jair Bolsonaro impedido de disputar a Presidência, abre-se uma luta pela direção de um mesmo campo político. Michelle busca ampliar seu peso junto ao eleitorado conservador, especialmente entre as mulheres evangélicas. Flávio procura afirmar sua autoridade como sucessor político mais direto do pai.
Quem acompanha apenas a troca de acusações perde de vista o essencial: não existem dois projetos em confronto, mas dois setores lutando pelo comando do mesmo projeto.
A família como patrimônio político e seus limites
Durante anos, o bolsonarismo apresentou a família Bolsonaro como exemplo da chamada "família tradicional brasileira": unida, cristã, moralmente íntegra, guiada por valores religiosos. Essa imagem não era transmitida apenas como uma característica da vida privada de Jair Bolsonaro, mas como um instrumento permanente de propaganda e um dos pilares da identidade política da extrema direita bolsonarista.
A crise atual tensiona esse arquétipo, mas não o abandona. E é precisamente aí que reside seu caráter revelador.
Michelle aparece como a mulher cristã injustiçada, esposa serena, emocionalmente ferida, mas moralmente superior; Flávio responde reafirmando a imagem de homem correto, incapaz de desrespeitar uma mulher e pai de família honrado que busca a reconciliação.
Mesmo em conflito aberto, ambos competem para encarnar os valores morais que sempre serviram como marca política do bolsonarismo. O arquétipo não se desfaz. Ele se fragmenta em duas versões concorrentes de si mesmo.
Não foi um desabafo. Foi uma intervenção política
O pronunciamento de Michelle foi cuidadosamente construído. O cenário, a estética, a escolha das roupas, o enquadramento da câmera e o tom da fala serviram para reforçar exatamente a imagem pública que ela procura consolidar: a mulher cristã, equilibrada, injustiçada e fiel aos valores familiares. Nada disso é secundário.
Da mesma forma, a resposta de Flávio não foi dirigida prioritariamente a Michelle. Se sua preocupação principal fosse reconstruir a relação familiar, a conversa ocorreria no privado. Sua nota foi dirigida ao público bolsonarista — não para convencer Michelle, mas para convencer milhões de apoiadores de que ele continua sendo o homem de família responsável, incapaz de agir como estava sendo acusado.
Os dois falavam muito menos um com o outro do que para sua própria base social. E essa talvez seja a principal característica da disputa.
A política transformada em espetáculo permanente
O bolsonarismo compreendeu muito cedo que, nas redes sociais, a luta política não acontece apenas por meio de programas ou propostas. Ela se constrói também — e principalmente — pela produção permanente de acontecimentos. Cada desavença transforma-se em conteúdo. Cada conteúdo produz engajamento. Cada demonstração pública de indignação, sofrimento ou reconciliação fortalece a identificação emocional entre lideranças e sua base.
Por isso, a exposição pública do conflito não pode ser vista como um detalhe de comunicação, ela faz parte do próprio método de construção política do bolsonarismo. Ao transformar rivalidades internas em acontecimentos públicos carregados de emoção, o movimento mantém sua base permanentemente mobilizada e reforça os vínculos pessoais entre lideranças e seguidores.
Não é casual que ambos tenham recorrido imediatamente às redes sociais. É ali que hoje se disputa boa parte da autoridade dentro desse campo político.
O que desaparece da discussão
Enquanto milhões acompanham cada novo capítulo dessa “novela”, desaparecem do centro do debate os problemas que atingem a maioria da população. Em especial as mulheres trabalhadoras que compõem parte significativa do eleitorado conservador que Michelle e Flávio disputam.
Não se discute que as mulheres das periferias seguem responsáveis quase sozinhas pelo trabalho doméstico e de cuidados, sem creches, sem serviços públicos, sem jornada reduzida. Não se discute que o programa econômico que ambos defendem aprofunda a dependência econômica dessas mulheres. Não se discute o desemprego, a carestia ou os ataques aos direitos trabalhistas. Não se discutem os lucros recordes dos bancos e a concentração da riqueza.
É justamente porque Michelle e Flávio compartilham o mesmo projeto burguês de ataque à classe trabalhadora que o confronto assume a forma de uma disputa pela autoridade sobre a base social bolsonarista. Não está em jogo convencer trabalhadores de um programa diferente, mas convencer o eleitorado bolsonarista de quem representa de forma mais legítima o legado político de Jair Bolsonaro.
A contenda cumpre aí uma função política precisa: desloca a atenção da sociedade dos interesses concretos das classes sociais para os dramas pessoais de seus dirigentes. O espetáculo não substitui o programa político do bolsonarismo. Ele o fortalece.
Por uma alternativa que coloque os trabalhadores no centro
A crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro não anuncia o surgimento de projetos distintos dentro da extrema direita. Ao contrário, revela como um mesmo campo político administra suas tensões internas utilizando exatamente os instrumentos que ajudou a construir: a exploração da imagem da família, da religião, da moralidade e da comunicação direta com a base pelas redes sociais.
Mas a pergunta que esse episódio coloca não é apenas analítica. É política. Se o bolsonarismo mantém sua base mobilizada por meio de vínculos emocionais e identitários construídos sobre um programa que serve ao grande capital, o que é necessário para romper esse vínculo?
Não é suficiente denunciar o espetáculo. É necessário oferecer uma alternativa concreta e de classe — uma que fale às mulheres evangélicas da periferia não pela linguagem da família como instrumento de dominação, mas pelas condições materiais de sua vida: o salário insuficiente, a dupla jornada, a ausência de creche, a violência que o Estado não coíbe e muitas vezes pratica. Uma alternativa que demonstre, na prática, que os problemas que afetam a maioria da classe trabalhadora não têm solução dentro dos limites do projeto bolsonarista — nem em sua versão Flávio, nem em sua versão Michelle.
É isso que o PSTU se propõe a construir: não um projeto de gestão do Estado capitalista, mas uma organização política da classe trabalhadora capaz de enfrentar as bases materiais da exploração e da opressão. Uma política que não se organize em torno da herança de Bolsonaro, mas que mostre por que essa herança — independentemente de quem a carregue — é contrária aos interesses de quem vive do próprio trabalho.
A questão decisiva não é quem tem razão na briga entre Michelle e Flávio. É o que ambos representam. E enquanto o debate público permanecer concentrado nessa contenda, continuarão fora de cena os interesses concretos da classe trabalhadora — que só entrarão em cena quando os próprios trabalhadores se organizarem para colocá-los lá.