Influencer da ultradireita forja furto no Rio e expõe projeto de ódio aos pobres

PSTU Rio de Janeiro
Influencer da ultradireita forja furto no Rio e expõe projeto de ódio aos pobres
Luan Lennon, 'influenciador' preso por forjar crime no RJ Foto Reprodução

A prisão do influenciador Luan Lennon no Centro do Rio de Janeiro escancara a hipocrisia da ultradireita, que se apresenta como “defensora da ordem”, enquanto fabrica crimes, manipula pessoas pobres e usa o aparato policial e judicial como palco para autopromoção. Nas redes, o “influencer” se vende como combatente da desordem urbana; na prática, segundo a Polícia Civil e a própria decisão da Justiça, ele montou um cenário fraudulento, colocou um trabalhador diante de uma acusação criminal e tentou transformar tudo em conteúdo rentável para seus perfis nas redes sociais.

A prisão que escancara a hipocrisia da ultradireita

De acordo com as investigações, o episódio que levou à prisão em flagrante de Luan Lennon aconteceu na madrugada de quinta-feira, 7 de maio, no Centro do Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Civil, Luan combinou com um flanelinha para que este oferecesse R$ 30 a um pedestre para retirar um celular deixado propositalmente em um carro com o vidro aberto. Toda a cena era filmada por Luan de dentro de outro veículo. Depois, ainda conforme os relatos policiais, ele abordou o homem que pegou o aparelho e tentou dar voz de prisão, apresentando-o como autor de furto. A Polícia Militar foi chamada, todos foram levados à 4ª Delegacia de Polícia (Presidente Vargas) e, durante os trâmites do registro, os agentes perceberam que se tratava de um “cenário de crime armado, de fato provocado”, nas palavras do delegado Diego Salarini Gabriel. O suposto autor do furto foi solto e, em seu lugar, Luan e dois membros de sua equipe foram autuados em flagrante por denunciação caluniosa, crime previsto no artigo 339 do Código Penal, sem direito a fiança. Em audiência de custódia no sábado, 9 de maio, a Justiça converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva, mantendo Luan detido.

Quem é Luan Lennon?

Luan Lennon Camacho Braga Oliveira se apresenta nas redes como carioca, 23 anos, empresário, acadêmico de Direito e alguém que estaria “combatendo a desordem em todo o estado do Rio de Janeiro”. Ele reúne mais de 1 milhão de seguidores e construiu sua notoriedade com vídeos em que confronta flanelinhas, questiona cobranças irregulares de estacionamento em vias públicas e se coloca como uma espécie de “xerife” urbano, frequentemente acompanhado por auxiliares em abordagens que terminam em correria, brigas e tentativas de dar voz de prisão. Não é um caso isolado nas redes: trata-se de um tipo de conteúdo que mistura espetacularização da violência, humilhação de pessoas pobres e discurso de “lei e ordem”. No plano institucional, Luan está diretamente ligado à ultradireita: filiado ao Partido Liberal (PL) desde 2021, presidiu o núcleo jovem do partido no Rio de Janeiro, foi candidato a vereador em 2024 e, embora não tenha sido eleito, conquistou 4.208 votos, ficando como suplente. Ele próprio dizia ouvir nas ruas que era o “Nikolas Ferreira carioca”, numa referência a um dos principais rostos da extrema direita brasileira.

Os próximos passos da investigação

A Polícia Civil afirma que vai analisar postagens antigas de Luan para verificar se houve outros episódios forjados, se mais pessoas participaram de esquemas semelhantes e se há outros crimes que possam ser imputados, como fraude processual. O delegado responsável já descreveu o episódio como “sinal de crime armado”, indicando que a atuação de Luan e de sua equipe não foi um deslize pontual, mas a construção deliberada de um fato criminoso, com potencial de levar um inocente à prisão e de acionar todo o aparato do Estado para alimentar o personagem de “justiceiro” digital. A Justiça, ao manter a prisão preventiva, reforça a gravidade com que o Judiciário enxerga o caso e abre caminho para que a apuração avance sobre o conjunto da atuação pública do influenciador.

A ultradireita que lucra com o sofrimento do povo

Quando olhamos para o fenômeno que Luan representa, fica evidente que não se trata de um desvio individual apenas, mas de uma lógica de atuação da ultradireita. Esse campo político explora o sofrimento e a vulnerabilidade de trabalhadores como para produzir vídeos virais, ganhar seguidores, angariar doações, monetizar canais, criar personagens fortes com possibilidades eleitorais e fortalecer seu projeto de poder. A figura do “cidadão de bem” armado de celular, pronto para humilhar quem está nas franjas da sobrevivência urbana, virou parte central de uma estética política: muito barulho, muito moralismo, muita promessa de limpeza social, mas sempre direcionada contra os de baixo, nunca contra os grandes empresários que exploram, contra os políticos que aprovam reformas para retirar direitos, nem contra os esquemas que drenam recursos públicos para poucos.

Esse não é um caso isolado. Em diferentes cidades, multiplicam-se influenciadores e políticos que constroem sua relevância em cima de “flagrantes” contra ambulantes, moradores de rua, usuários de drogas, pequenos infratores ou mesmo pessoas apenas suspeitas, sempre exibidas como inimigas da ordem. A violência cotidiana que essas pessoas sofrem como desemprego, informalidade, ausência de políticas públicas, ação seletiva da polícia é apagada em nome de uma narrativa em que o “herói” é o sujeito bem vestido, com microfone e câmera, que humilha, expõe e, muitas vezes, entrega à polícia quem já é alvo preferencial do sistema penal. O caso Luan mostra o passo seguinte desse roteiro: quando a realidade não oferece a cena desejada, fabrica-se o crime, contrata-se alguém por R$ 30, arma-se o “flagrante” e se produz conteúdo pronto para inflamar a base radicalizada.

A falsa radicalidade e o projeto reacionário

Há uma coerência perversa nesse comportamento. A ultradireita repete que é “contra tudo que está aí”, que enfrenta a “desordem”, que combate privilégios e corrupção. Mas seu projeto é profundamente reacionário: quer mais repressão seletiva, mais criminalização dos pobres, mais liberdade para empresários explorarem sem restrições e menos direitos para quem vive do próprio trabalho. Quando se apresenta como “guerra aos flanelinhas” ou “combate à máfia” de estacionamento, como nos vídeos de Luan, o alvo real não são as estruturas que geram a economia informal e sim o indivíduo pobre que encontrou ali uma forma de sobreviver. Em vez de denunciar as raízes da desigualdade, esse tipo de influenciador reforça uma falsa narrativa em que o problema da cidade são sempre os de baixo, enquanto os de cima seguem intocados.

Não é coincidência que muitos desses personagens estejam filiados a partidos da direita mais agressiva, participem de manifestações bolsonaristas e se apresentem como “paladinos da moralidade”. A mesma mão que aponta o dedo para flanelinhas é a que levanta a bandeira de projetos que, no Congresso, votam contra direitos trabalhistas, defendem flexibilização de jornada, enfraquecem fiscalização em cima de grandes empregadores e atacam serviços públicos usados pela classe trabalhadora. A radicalidade que ostentam na forma, o tom de voz exaltado, as abordagens teatrais, o discurso de intolerância, esconde uma agenda que, no conteúdo, é de submissão ainda maior dos trabalhadores às exigências do capital. O caso de Luan não é um desvio dessa lógica; é expressão fiel dela.

Atenção, trabalhadores: “paladinos da moralidade” não são aliados

Por isso, é fundamental que trabalhadores e trabalhadoras encarem com desconfiança esses “justiceiros” de internet que aparecem como salvadores da pátria, mas constroem sua atuação em cima da humilhação e criminalização dos mais pobres. Quando alguém que se diz defensor da ordem arma um crime para produzir conteúdo, o que está em jogo não é apenas um erro individual: é um método político que naturaliza a ideia de que vidas de trabalhadores podem ser usadas como material descartável para alimentar a máquina de engajamento e de poder de uma minoria. A denunciação caluniosa que a polícia investiga não é só um artigo do Código Penal: é uma metáfora cruel de como esse projeto trata a classe trabalhadora, como alvo preferencial de acusações, violência e espetacularização, enquanto se autopromove como guardião da lei.

A saída está na auto-organização da classe trabalhadora

A alternativa real a essa lógica não virá de influenciadores, nem de partidos cujo programa é aprofundar a desigualdade em nome da “liberdade de mercado” e da “segurança”. Ela só pode surgir da auto-organização e da mobilização dos próprios trabalhadores, em seus locais de trabalho, bairros, sindicatos, movimentos populares e da organização coletiva. É essa organização que pode construir um outro tipo de segurança: a segurança de ter emprego, renda, transporte, saúde, educação, moradia, direitos concretos, não encenações para vídeo. É essa mobilização que pode enfrentar, de fato, a desordem real do capitalismo brasileiro, que condena milhões à informalidade, à violência policial, ao desalento, enquanto permite que uma minoria enriqueça com a exploração e ainda se apresente como “moralmente superior”.

A prisão de Luan Lennon, mantida pela Justiça, precisa ser vista como um alerta: não apenas sobre os limites da autopromoção irresponsável, mas sobre o caráter de um campo político que normaliza a fabricação de inimigos para manter sua base mobilizada. Enquanto esse projeto seguir forte, veremos novos “Luans” surgirem, repetindo a mesma fórmula de violência performática, criminalização da pobreza e culto à própria imagem. Cabe aos trabalhadores, com consciência crítica e organização coletiva, recusar esse papel de figurantes em um espetáculo que só serve para fortalecer quem quer usar o Estado, e o sofrimento do povo, para consolidar um poder voltado contra eles.

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