Manaus: suspensão do passe livre penaliza estudantes e expõe crise do transporte público

  • O passe livre é um direito conquistado com muita luta pelo movimento estudantil
PSTU-AM
Manaus: suspensão do passe livre penaliza estudantes e expõe crise do transporte público

Yashim Abreu, de Manaus (AM)

Na noite da segunda-feira de Finados, 2 de novembro, milhares de estudantes receberam a notícia de que o passe livre estudantil havia sido temporariamente suspenso. Às vésperas da realização do Enem, marcado para o dia 8 de novembro, cerca de 200 mil estudantes podem ficar sem um meio essencial para se deslocar até suas escolas e locais de estudo.

Mais do que um descaso com a juventude, esse episódio escancara a disputa de interesses entre empresários do transporte e governo, na qual o direito dos estudantes é utilizado como moeda de troca em uma queda de braço política. Essa situação também evidencia a necessidade de estatização do transporte público, colocando esse serviço sob controle dos trabalhadores e da população.

Governo e empresários colocam estudantes no meio da disputa

O Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) e o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram) justificam a suspensão pela existência de uma dívida de R$ 250 milhões, referente ao primeiro semestre de 2025. As empresas cobram do governo do Amazonas o pagamento dos valores para manter o benefício. O governo, por sua vez, contesta a dívida.

Enquanto governo e empresários disputam quem deve pagar a conta, milhares de estudantes ficam ameaçados de perder o acesso ao transporte. A troca de prefeito ou governador nunca resolveu os problemas estruturais da mobilidade urbana em Manaus, uma das maiores cidades brasileiras e que ainda não conta com sistema de metrô.

O passe livre não é um benefício ou uma concessão dos governantes. É um direito conquistado com muita luta pelo movimento estudantil e uma condição importante para garantir o acesso à educação pública. Esse direito não pode ser interrompido por decisão dos empresários, que utilizam a suspensão do serviço para pressionar pelo pagamento de uma dívida.

O lucro das empresas não pode estar acima do direito à educação de milhares de jovens. Da mesma forma, o governo não pode tratar o passe livre com descaso, deixando de priorizar os repasses necessários para sua manutenção.

É difícil justificar essa situação diante da arrecadação de R$ 36,95 bilhões do estado em 2025 e do superávit orçamentário registrado naquele ano. A falta de recursos não pode ser utilizada como desculpa para penalizar os estudantes.

A juventude enfrenta uma realidade de abandono

A luta pela gratuidade estudantil em Manaus vem de 2013. A medida só foi aprovada em 2022 e, em menos de cinco anos, já enfrenta uma grave ameaça. O episódio mostra que nenhum direito está garantido sem mobilização e organização para defendê-lo.

A precariedade do transporte também atinge os trabalhadores rodoviários, que enfrentam atrasos salariais recorrentes há mais de uma década. Além disso, permanece o desafio de ampliar a integração do transporte público com os municípios do interior do Amazonas.

A situação da mobilidade é parte de um problema maior. Governo e prefeitura não apresentam respostas suficientes para tirar a juventude da precariedade. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), de 2024, apontam que apenas 6,4% dos estudantes de 13 a 17 anos chegaram ao terceiro ano do ensino médio. A taxa de desocupação entre jovens de 18 a 24 anos chegou a 13,8% no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro da média nacional.

A falta de perspectivas cresce no Amazonas. Por isso, não podemos esperar que prefeitura e governo resolvam espontaneamente essa realidade. É preciso organização e mobilização nas ruas. Convocamos estudantes, juventude, pais e trabalhadores do transporte público a se unirem nessa luta.

Por tarifa zero e transporte público sob controle dos trabalhadores!

Nossa reivindicação deve ir além do pagamento da dívida em aberto. É preciso lutar pela ampliação do passe livre para todos os estudantes, inclusive universitários, e avançar rumo à tarifa zero universal, com qualidade no serviço.

Também exigimos a valorização dos trabalhadores do transporte coletivo, a melhoria da infraestrutura e a ampliação da rede de transporte, com investimentos em metrô e veículos leves sobre trilhos (VLT).

Nenhuma eleição, por si só, vai garantir a estatização do transporte e a expropriação dos grandes empresários do setor. Para isso, é necessária a mobilização independente dos estudantes, da juventude e dos trabalhadores. O transporte público deve deixar de ser um negócio para garantir lucros e passar a atender às necessidades da população, sob controle de quem trabalha e utiliza o serviço.

Passe livre não se negocia! Tarifa zero para todos! Por um transporte público, gratuito e de qualidade, sob controle dos trabalhadores e da população!

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