O que está por trás da quebradeira das empresas?

Diego Cruz
O que está por trás da quebradeira das empresas?

Além das fortes chuvas provocadas pelo El Niño, o último período veio com uma enxurrada de anúncio de falências. Segundo levantamento da consultoria Monitor RGF-BIZDOC, são mais de 6 mil empresas com decretação de falência ou pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial, um recorde desde o início do levantamento em 2023.

São empresas que vão da indústria petroquímica, como a gigante Braskem, passando pela Raízen (com atuação na produção de etanol, gás natural até postos de combustível com a bandeira Shell), atingindo o agronegócio com um número recorde de pedidos de recuperação, a construção civil, chegando ao varejo, com o debacle da icônica Casas Bahia e das lojas Marabraz, desaguando no setor da alimentação, com o grupo Gennius, controlador da rede Habib’s.

Embora sejam casos distintos, é um processo que atravessa a economia, como a Oi, que decretou falência, ou seja, foi para o buraco de vez, e outras grandes empresas que ainda estão na UTI, utilizando instrumentos como os pedidos de recuperação, que buscam protegê-las contra execução de credores, ou suspendendo pagamento de dividendos. Segundo o monitor, 21% das empresas nessa situação são do varejo, 19,6% da indústria e 17,5% do agronegócio. Os números impressionam. A Braskem amarga uma dívida de R$ 56 bilhões, enquanto as Casas Bahia tentam renegociar R$ 17 bilhões.

Das esfirras à indústria petroquímica

As causas apontadas para essa avalanche de pedidos de recuperação têm suas especificidades. A Raízen é acusada de má administração e uma má-sucedida tentativa de expansão internacional. Já a Braskem, além do crime em Maceió (que provocou o afundamento do solo de bairros inteiros, afetando mais de 60 mil pessoas), sentiu a concorrência das resinas estadunidenses e chinesas. As Casas Bahia, por sua vez, sofreriam com o alto endividamento das famílias, que ultrapassam os 80%, enquanto, assim como o Habib’s, sucumbem ao monopólio dos aplicativos digitais.

O que perpassa essa onda de quebradeira são os altos juros num país que carrega a segunda maior taxa básica de juros, atrás somente da Rússia, um país em guerra e bloqueio econômico por parte das grandes potências do Ocidente. A taxa Selic (uma espécie de piso para o custo do dinheiro) de 14% aumenta o preço do crédito, o que dificulta não só empréstimos como a rolagem de dívidas. Isso afeta todas as cadeias da economia, em especial o varejo, que depende muito do capital de giro, já que as vendas são em sua grande maioria, parceladas. No caso das Casas Bahia, por exemplo, podem ultrapassar os 80%.

O varejo, além disso, sofre com a concorrência de grandes plataformas estrangeiras, como a Amazon. Algo que também afeta o setor de alimentos, que se endividou de forma significativa durante a pandemia e viu o padrão de consumo mudar com as plataformas de delivery. O iFood, por exemplo, que apesar de ter se originado de umafintechbrasileira, hoje é controlada pelo grupo de investimentos Prosus, sediado na Holanda. Controla 80% do mercado de entregas no Brasil, e ainda reclama da concorrência da chinesa Keeta.

Um problema estrutural

Sob diferentes aspectos, o que amarra essa crise é uma economia subordinada e cada vez mais monopolizada por grupos estrangeiros. O empobrecimento da população causa um endividamento recorde, e os juros extorsivos beneficiam apenas os bancos e os detentores dos títulos da dívida pública. O que, por sua vez, pressiona cada vez mais para que o governo realize cortes no orçamento e, assim como prevê o arcabouço fiscal, aprofunde uma política de austeridade à custa de serviços públicos como saúde e educação.

Banco Central a serviço do mercado

No dia 31 de agosto, o presidente Lula se reuniu com um seleto grupo de grandes empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada. Entre um ravioli de lagosta e um carré de cordeiro, Lula ouviu críticas em relação aos juros e defendeu seu indicado à presidência do Banco Central, Gabriel Galípolo,

Só não explicou por que Galípolo seguiu aumentando a taxa de juros a patamares ainda maiores do que fazia o bolsonarista Campos Neto. Naquele tempo, o PT falava sobre sabotagem ao governo e ao país. Será o indicado do governo o responsável pela sabotagem agora? Ou é só mais uma demonstração da hipocrisia do PT que segue as ordens do sistema e mantém uma política para agradar os banqueiros?

Os juros enchem os bolsos de um punhado de grandes banqueiros e investidores, sob a falsa justificativa de controlar a inflação. Cada ponto da taxa Selic representa um custo da dívida entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões. Campos Neto deixou o Banco Central com uma taxa de 12,5%, elevada a estratosféricos 15% pelo indicado de Lula. Com o arrefecimento da economia, uma inflação geral relativamente baixa (ao contrário da inflação sobre os mais pobres), o Banco Central vem mantendo os juros nas alturas, atualmente em 14%.

O problema é que, se os grandes investidores têm essa galinha dos ovos de ouro com uma rentabilidade que nenhum outro negócio (pelo menos legal) vai dar, também exigem que o governo garanta o retorno desse dinheiro. E para isso aumentam a pressão para que o governo corte gastos e redirecione ainda mais dinheiro ao pagamento dos juros da dívida.

Ministro da Fazenda, Dario Durigan Foto Arquivo pessoal

Novo ajuste fiscal prepara estelionato eleitoral

Diante da pressão para um corte ainda mais altos nos gastos públicos, o governo vem sinalizando um aprofundamento de sua política de austeridade e arrocho para 2027. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que é possível rever o gasto obrigatório em vários lugares, olhando os benefícios sociais, por exemplo.

Colocado como porta-voz da campanha de Lula junto ao mercado, Durigan reivindicou ainda as diversas manobras que o governo vem fazendo para cortar gastos obrigatórios, leia-se principalmente os gastos garantidos por pisos constitucionais, como Saúde e Educação. Primeiro, o governo colocou o programa Pé-de-Meia dentro do orçamento da Educação, depois, mais recentemente, fez aprovar um projeto de Lei que altera as bases para o cálculo da porcentagem do mínimo para custear o piso da Saúde (que vai perder a receita do petróleo e do gás). Uma malandragem que pode tirar R$ 16,6 bilhões da Saúde e da Educação no próximo ano.

Arcabouço fiscal

Todas essas medidas vão no sentido de fortalecer o arcabouço fiscal criado pelo governo Lula para substituir o teto de gastos do governo Temer. O arcabouço impõe um teto de 2,5% para o aumento dos gastos públicos, independentemente de quanto o país cresça. Depois, estendeu esse teto ao reajuste do salário mínimo. Agora, os pisos da Saúde, Educação e a indexação da aposentadoria e benefícios como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) entram na mira da equipe econômica do governo.

Durigan, representando o governo Lula, diz com todas as letras ao mercado e ao empresariado aquilo que as candidaturas da extrema direita, como a de Flávio Bolsonaro e a de Renan Santos, dizem publicamente, na TV. Mas que Lula evidentemente não vai dizer no horário eleitoral gratuito.

Forma-se um cenário para uma reedição de um novo estelionato eleitoral, e já vimos como esse filme acaba.

Brasil soberano e socialista

Desmontar as engrenagens do sistema

A quebradeira das empresas não afeta prioritariamente uma burguesia que, basta trocar o CNPJ para continuar lucrando. É só lembrar as Lojas Americanas: mesmo com a maior fraude contábil da história, o trio que a controlava, Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, não estão nem um pouco preocupados se conseguirão pagar o aluguel no final do mês. Mas também seguirão se associando às empresas imperialistas que mantêm o país submisso, nos tornando cada vez mais dependentes de importações, reforçando nosso papel de mero exportador de matéria-prima.

A classe trabalhadora, por sua vez, é quem se dá mal, com a extinção de milhares de empregos.

A crise que se desenha não tem um único fator. Não são apenas os juros, embora eles incidam de forma determinante. É todo um sistema interligado de exploração e subordinação do país. São os juros, é a corrosão da renda, é o endividamento, é a dependência dos monopólios das plataformas digitais.

Estatização dos setores estratégicos

Para começar, é preciso acabar com o arcabouço fiscal e a Lei de Responsabilidade Fiscal e suspender o pagamento da dívida aos grandes investidores. Ao mesmo tempo, aumentar o salário mínimo, as aposentadorias e os benefícios sociais, redirecionando os subsídios bilionários, que hoje vão para as grandes empresas e o grande agronegócio, aos pequenos e médios negócios.

A Braskem, por exemplo, uma indústria de base estratégica para o país, não deve estar nas mãos do setor privado, que, assim como a Vale, coloca vidas em riscos em favor do lucro.

Para conseguir isso, é necessário estatizar os setores estratégicos. É preciso reverter a entrega e a subordinação do Brasil; com os excedentes, investir no país para reindustrializar a serviço dos trabalhadores. Dessa maneira, é possível gerar mais recursos para Saúde, Educação, salário, direitos e aposentadoria, com um plano dos trabalhadores para desenvolver o país em benefício da maioria da população, atuando para atender as necessidades da maioria da população.

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