No 1º de maio, dia de luta da classe trabalhadora, Recife, a Região Metropolitana e a Zona da Mata foram atingidas por fortes chuvas. O acumulado já equivale a um terço da média esperada para todo o mês de maio. Os rios Capibaribe, Jaboatão e Siriji, que cortam várias cidades, atingiram suas cotas de inundação.
As consequências são alagamentos, deslizamentos e mortes. Já são 1.096 desabrigados, 1.094 desalojados e seis mortos. Mais uma vez, a população de Pernambuco se encontra em uma situação de transtornos, perdas materiais e de vidas.
Mudanças climáticas e responsabilidade política
É verdade que as mudanças climáticas e os eventos extremos são fatores que intensificam as chuvas que castigam bairros e cidades do estado. No entanto, a responsabilidade pelo desespero, caos e perdas a que o povo está submetido é dos governantes.
Os problemas relacionados às chuvas e enchentes sempre esbarram na ausência de medidas estruturais por parte dos governos, como saneamento básico, limpeza urbana, obras de drenagem e planejamento urbano. Isso inclui a construção de moradias em áreas seguras e a adaptação climática das cidades.
Quando há alguma intervenção, ela costuma ser pontual, paliativa, eleitoreira e, sobretudo, voltada ao lucro das grandes construtoras, e não às necessidades da população.
O governo Raquel Lyra e a ausência de soluções estruturais
Apesar de a governadora Raquel Lyra (PSD) decretar estado de emergência e afirmar, em redes sociais e entrevistas, que o governo está atuando diante das chuvas, a realidade é outra. Em três anos de gestão, praticamente nenhuma ação estrutural foi implementada. As poucas medidas adotadas caminham na direção oposta do que seria necessário.
Os rios que cortam diversas cidades são responsáveis pelos alagamentos em períodos de chuva intensa. O Capibaribe, por exemplo, voltou a atingir sua cota de inundação, invadindo ruas e casas, especialmente em São Lourenço da Mata e no Recife. Isso ocorre, entre outros fatores, pela falta de limpeza e aprofundamento dos rios.
Da mesma forma, nunca foi garantida a implementação de sistemas de macrodrenagem, fundamentais para a captação e o escoamento das águas pluviais. O governo Raquel Lyra não enfrentou esse problema de forma estrutural e definitiva.
Privatização e agravamento da crise
Quando atua, o governo muitas vezes agrava a situação. Um exemplo é a concessão da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) à multinacional canadense BRK.
A empresa, que já controlava desde 2013 a coleta e o tratamento de esgoto no Recife e na Região Metropolitana, passou também a ser responsável pela distribuição de água. Em 2013, a cobertura de coleta e tratamento de esgoto era de 32%. A meta para 2025 era de 53%, mas atualmente está em 42%.
A ausência de rede adequada faz com que o esgoto seja lançado em canais, galerias e rios, como o Capibaribe. Lixo, gordura e sedimentos entopem bueiros, impedindo o escoamento da água da chuva. Isso eleva o fundo dos rios, reduz sua profundidade e aumenta o risco de transbordamentos, explicando as recorrentes cenas de ruas e casas inundadas por água misturada ao esgoto.
João Campos e a política da aparência
A atuação do ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao governo, João Campos (PSB), foi marcada por forte propaganda, mas poucas mudanças estruturais.A cidade possui cerca de 207 mil pessoas vivendo em áreas de risco (como encostas, margens de rios e regiões alagáveis) o que a coloca como a quinta capital brasileira com mais pessoas nessas condições. Além disso, há um déficit habitacional de 71 mil moradias.
Essa combinação resulta em deslizamentos, destruição de casas e mortes. Apenas nas chuvas do 1º de maio, foram registradas seis mortes. Em 2022, o bairro Jardim Monte Verde já havia sido palco de uma tragédia, com 48 vítimas fatais.
Apesar da intensa presença nas redes sociais, a gestão não eliminou as causas estruturais desses desastres.
Governos a serviço dos grandes interesses
João Campos tenta se apresentar como alternativa à governadora, mas não promoveu mudanças efetivas quando esteve à frente da prefeitura. Ambos governam atendendo aos interesses dos grandes empresários.
Enquanto João Campos destinou R$ 157 milhões ao Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), via Fundação Gestão Hospitalar Martiniano Fernandes (FGH), para administrar o Hospital da Criança, Raquel Lyra repassou mais de meio bilhão de reais à máfia dos ônibus da Região Metropolitana.
Essas decisões demonstram que não há prioridade na proteção da vida da população, mas sim na garantia dos lucros de setores privados.
Medidas necessárias para enfrentar a crise
A implementação de soluções estruturais enfrenta a oposição desses governos e dos interesses empresariais que influenciam o orçamento público.
Medidas como o controle do orçamento, sua destinação para obras estruturais e a reestatização da Compesa só poderão avançar com a mobilização da classe trabalhadora e da população pobre.
Entre as propostas, destacam-se:
— Garantia de abrigos com atenção especial a mulheres e crianças;
— Aluguel social de 1,5 salário-mínimo para famílias que perderam suas casas;
— Mapeamento de áreas de risco e contenção de encostas;
— Obras de macrodrenagem e construção de reservatórios (piscinões);
— Pavimentação com materiais permeáveis;
— Instalação de estações de bombeamento;
— Preservação dos manguezais;
— Construção de moradias seguras;
— Reestatização da Compesa;
— Plano de adaptação às mudanças climáticas.