Laércio, de São Paulo (SP), e Eloy Natan, de São Luís (MA)
Após 10 anos sem greve, trabalhadores do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal decidiram paralisar a partir do dia 10 de setembro. Embora a pauta remuneratória tenha sido o reajuste de INPC + 5%, a proposta da patronal de 0,6% além da inflação foi aceita pelos bancários do setor privado (apesar de um terço ter recusado), mas a campanha salarial da categoria continua.
Há várias demandas específicas nos bancos públicos que refletiram nos posicionamentos diferenciados das votações em assembleias. Os funcionários do BB rejeitaram nacionalmente a proposta de acordo, mas por manobra da Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Bancários) as votações se dividiram entre aceitar ou rejeitar a proposta e, caso rejeitasse, continuar a negociação ou entrar em greve. Isso dividiu a categoria, tendo São Paulo capital, Curitiba, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul definindo por aceitar a proposta e, na maioria das bases, rejeitá-la, mas continuar as negociações sem aderir à greve nesse momento. Já na Caixa, a votação nacional foi praticamente unânime pela greve, com rejeição do acordo por mais de 90%.
10 anos de ataques sem resistência da direção do movimento de bancários
Durante anos, a categoria bancária resistiu aos ataques dos banqueiros e dos governos. Porém, em 2016, ocorreu a última grande greve bancária. A Contraf, braço da CUT em bancários e principal direção do movimento, orientou a assinatura de acordos bianuais a partir de 2018, agindo abertamente para evitar qualquer tipo de greve. À época, dizia que a conjuntura não permitia e a categoria não estava mobilizada para enfrentar o governo reacionário do Temer. Em 2020 o discurso era que a situação não permitia mobilização com o governo Bolsonaro e, por causa da pandemia, o trabalho remoto tornava mais difícil organizar a categoria.
Chegou, então, 2024 e a expectativa era que, agora, livre dos governos anteriores, seria possível voltar a resistir e se recuperar dos ataques dos últimos anos como a reforma trabalhista e previdenciárias, reestruturações nas carreiras profissionais, diminuição de salários e, principalmente nos bancos públicos, grandes ataques aos planos de saúde.
Na Caixa Econômica, a expectativa então era que o governo Lula retirasse o teto de custeio da empresa do plano de saúde e os altos valores aos empregados caíssem e se normalizassem. No BB, se acumulavam problemas relacionados ao plano de carreira e à reestruturação dos caixas, além de problemas com o plano de saúde, sem contar o impasse que se arrasta há 17 anos, que não incluiu os incorporados no plano de saúde e Previdência até hoje.
Mas a surpresa foi que, assim como durante os governos anteriores, o discurso das direções foi que, também nesse cenário, não era possível fazer greve contra os banqueiros e o governo. E mais, nesse mandato de Lula o BB apresentou a cláusula que permitiria a demissão imotivada, acabando com a proteção contra demissão sem justa causa. Na Caixa, o governo, além de manter o teto de custeio de Temer/Bolsonaro, propôs uma série de medidas que aumentaram ainda mais o preço do plano de saúde para os empregados com diminuição real dos salários. Mesmo assim, naquela campanha salarial houveram rebeliões parciais em várias bases sindicais, mas a Contraf-CUT conseguiu segurar a greve em bases fundamentais, como São Paulo, evitando o desenvolvimento de uma greve nacional, e o movimento perdeu força.
Mesmo assim, o movimento conseguiu derrubar aquela cláusula da demissão imotivada no BB, e impedir reajustes maiores no plano de saúde na Caixa, embora sem derrubar o teto de custeio da empresa.
Em 2025 repetiu-se a luta pela derrubada do teto do Saúde Caixa, mas a Contraf, mesmo derrotada em várias assembleias, novamente negociou e manteve o teto de custeio. Nesse mesmo ano chamou a atenção a demissão de mil empregados no Itaú, em São Paulo, que gerou uma forte mobilização com paralisação de atividades em locais de trabalho, mostrando que também nos privados surgia uma nova disposição de luta. Mas a direção do sindicato, ao invés de ampliar o movimento pela estabilidade, negociou indenizações maiores para as rescisões de trabalho.
Em síntese, em 10 anos de campanhas salariais sem greve nacional ocorreram mudanças profundas no trabalho bancário, como o surgimento da IA com aplicativos digitais e as fintechs. O reajuste real acumulado da categoria foi de 1,75%, enquanto os bancos batiam recorde de lucro ano após ano. Na Caixa foi ainda pior, pois esse percentual de reajuste real foi todo consumido pelo aumento das mensalidades do plano de saúde.
A conclusão é que a Contraf e seus sindicatos filiados não organizaram a categoria por causa das difíceis realidades. Demonstra-se que, por trás do discurso de uma conjuntura ruim, há nova prática de atuar no movimento sindical.
O que aconteceu para a radicalização do movimento bancário?
Nesta campanha salarial os bancos ofereceram reajuste de 0,6% acima da inflação, ganho que se dissolve em menos de dois meses e com validade até 2028. No BB, as propostas apresentadas não resolvem os sucessivos aumentos de metas e reestruturações que alteram o quadro de carreira. Na Caixa, o governo quer instituir a cobrança por faixa etária no plano de saúde que destrói qualquer reajuste salarial.
Na proposta, quanto maior a idade mais o bancário pagaria com a mensalidade passando de 3,5% para 4,5%do salário assim como para os seus dependentes. O limite de comprometimento da renda familiar será aumentado de 7% para 9%. A consulta em pronto-socorro dobra de R$ 75 para R$ 150. Há também a cobrança de coparticipação de 30% em todos os serviços utilizados e aumento da contribuição anual de R$ 3.600,00 para R$ 4.800,00.
É a lógica do plano de saúde privado aplicada dentro de um banco público. Todos esses aumentos se dão porque há um teto de contribuição da empresa de 6% da folha de pagamento. Como o Saúde Caixa vem tendo déficits, mesmo com os sucessivos aumentos das contribuições dos empregados, a proporção do custeio do plano, nos últimos 10 anos, passou de 70% da Caixa e 30% dos empregados para os atuais 50 X 50. Além disso, a Caixa retira esse direito na aposentadoria dos concursados pós-2018.
Mesmo com a proposta prevendo o estudo para ampliar o limite de participação da Caixa no custeio dos atuais 6,5% da folha para 8% em 2027, a diferença entre o custo real do plano e o que o banco propõe continuará sendo empurrada para o trabalhador, ano após ano. Note-se: esse teto não é imposição de mercado, está no Estatuto da Caixa, cujo controlador é a União. O governo pode retirá-lo, mas optou por mantê-lo. A verdade é que o projeto é extinguir esse direito, expulsando os bancários pelo alto custo e retirando o Saúde Caixa para os novos empregados, num processo que facilitaria a privatização da empresa, pois o capital privado vê o plano de saúde como um alto custo que, eliminado, facilitaria sua compra.
Atual greve e perspectivas
O cenário de greve atual resulta no acúmulo de lutas e da experiência do movimento bancário. Nessa campanha, novamente, os banqueiros e o governo apresentaram uma proposta rebaixada, que contém perdas salariais e nenhuma melhora na condição dos bancários. Na Caixa, em particular, o ataque ao plano de saúde gerou profunda indignação. Combinado a isso, os trabalhadores que entraram pelo concurso de 2024 realizam funções fora do escopo de suas atividades, gerando uma importante luta contra o desvio de função e por plano de carreira específico.
As negociações da campanha salarial se iniciaram em julho, e as propostas seguiram sem avanço. Frente à intransigência dos banqueiros e do governo, e à pressão da categoria, a Contraf-CUT foi obrigada a chamar um dia de paralisação no dia 20 que superou todas as expectativas. Foi gigantesca nos bancos públicos e forte nos bancos privados.
Mesmo com trabalho remoto, a adesão espontânea na Caixa e no BB foi massiva. Os bancários enxergaram sua força e perceberam que podem mais. E isso colocou a Contraf-CUT em um dilema. Como dizer que a categoria não estava mobilizada para greve depois de protagonizar uma das maiores paralisações dos últimos anos? Os banqueiros então seguiram intransigentes, melhoraram pouco a proposta sem tocar em temas fundamentais como os planos de saúde, de carreira e demissões. Mesmo assim, a Contraf-CUT orientou a aprovação da proposta de 0,6% além da inflação nos bancos privados. Também orientou a aprovação do acordo no BB. Na Caixa, a confederação não teve coragem de propor a aceitação vide a explosão de disposição da greve nas redes internas, nos grupos de whatsapp e nos locais de trabalho, forçando a própria Contraf-CUT a mudar sua linha nacional e falar em rejeição da proposta.
Para evitar que os bancos públicos "contaminassem" os privados, as assembleias e a votação dos acordos foi realizada separadamente, prática recorrente nos últimos anos. Com isso, os trabalhadores dos bancos privados acabaram aceitando o acordo, apesar do votos de um terço pela rejeição. No Banco do Brasil, praticamente todas as bases votaram pela rejeição, com algumas exceções importantes, como em São Paulo e, na Caixa, a rejeição foi praticamente por unanimidade nacional.
Os próximos passos
Dia 10 se inicia a greve dos bancários. Junto a ela se inicia também a greve dos Correios, categoria que vem sofrendo profundos ataques por anos.
É fundamental que todo trabalhador apoie essas lutas que extrapolam as questões específicas das categorias. Elas demonstram que é necessário enfrentar um dos setores mais poderosos do capitalismo, que é a burguesia atrelada ao sistema financeiro. Que é possível superar as direções tradicionais do movimento que não querem construir a luta. Que é preciso lutar contra a precarização do trabalho e que nenhum governo no capitalismo, ainda que possuam diferenças entre eles, é nosso aliado. Por isso, uma vitória da greve dos bancários será uma vitória do conjunto da classe trabalhadora.
Sistema financeiro e a classe trabalhadora
Os bancos brasileiros nunca lucraram tanto como nos últimos anos. Só em 2025 foram R$ 255 bilhões, um recorde histórico. Em contrapartida, os trabalhadores bancários nunca estiveram tão doentes e precarizados. Dados do INSS revelam que 25% dos afastamentos do trabalho por transtorno psicológicos são bancários. A insegurança, as metas e o assédio estrutural fazem com que 40% da categoria tome remédios controlados como antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes.
A remuneração dos bancários também foi sendo corroída e um contingente gigantesco de trabalhadores das instituições financeiras é terceirizado, inclusive dos bancos públicos, tendo o Santander o exemplo mais gritante com metade de 50 mil do seu quadro profissional trabalhando como terceirizados ou Pessoa Jurídica (PJ). As novas tecnologias, ao invés de serem usadas em benefício dos trabalhadores e jornadas de trabalho menores, são utilizadas para demitir. Foram 26 mil empregos bancários extintos nos últimos cinco anos. Esse processo empurra para baixo o conjunto dos salários da categoria, pressionam ainda mais pela retirada dos direitos e expulsam a população com fechamento de agências.
Essa contradição de uma burguesia que lucra bilhões de um lado, e trabalhadores doentes e precarizados de outro é a síntese do capitalismo. Mesmo com fraudes e especulações bilionárias, vide o caso Master, o saque com taxas e juros exorbitantes, produz a riqueza e o poder dos Vorcaro, Setúbal, Safra, Moreira Salles e demais banqueiros.
Por isso defendemos estatização do sistema financeiro, sob controle dos trabalhadores. Com a criação de um único banco estatal, além da categoria ter seus salários, direitos e empregos assegurados, haverá a ampliação do acesso aos serviços bancários a toda população. O controle do sistema financeiro atua também contra os mecanismos que bloqueiam o financiamento da produção, do crédito, interrompe a saída de recursos do Brasil e a especulação em títulos da dívida pública, controlando esses recursos excedentes para financiar o projeto nacional de desenvolvimento e das demandas sociais.