Quando a diáspora entra em campo

João Pedro  Andreassy Castro
Quando a diáspora entra em campo
Seleção do Marrocos mandou a Holanda mais cedo para casa. Foto Divulgação

João Pedro Andreassy Castro e Erika Andreassy

Na última segunda-feira, Marrocos eliminou a Holanda da Copa do Mundo de 2026. À primeira vista, foi apenas mais uma zebra do futebol. Mas bastava observar atentamente os dois lados do gramado para perceber que havia algo muito maior acontecendo.

Boa parte da seleção marroquina nasceu justamente na Europa. Vários de seus titulares cresceram na Holanda, estudaram em escolas holandesas, aprenderam futebol nas categorias de base dos clubes holandeses e poderiam perfeitamente estar defendendo a seleção adversária. Um deles, nascido em Roterdã, filho de imigrantes marroquinos, escolheu representar o país de seus pais e acabou eliminando justamente a nação onde nasceu.

O jogo colocava frente a frente duas seleções separadas por bandeiras, mas unidas por uma mesma história de migração, colonialismo e diáspora.

Talvez nenhuma partida desta Copa tenha demonstrado tão nitidamente que a realidade é muito mais complexa do que imaginam aqueles que insistem em dividir o mundo entre "nativos" e "estrangeiros".

A diáspora também joga a Copa

Durante muito tempo, o fluxo parecia seguir apenas uma direção.

As antigas colônias forneciam jogadores para os grandes clubes europeus e, cada vez mais, para as próprias seleções das antigas metrópoles. França, Bélgica, Inglaterra e Holanda transformaram-se em potências do futebol apoiadas em gerações de atletas filhos da imigração.

Mas a Copa de 2026 revelou também o movimento inverso. As próprias diásporas passaram a fortalecer as seleções dos antigos países colonizados.

Marrocos é um bom exemplo. Boa parte de seu elenco nasceu na França, Holanda, Bélgica ou Espanha. O mesmo acontece com Argélia, Tunísia, Senegal, Mali, Cabo Verde, Congo e diversas outras seleções africanas.

A expansão da Copa para 48 equipes acelerou esse processo. Mais seleções classificadas significam também mais espaço para que jogadores com múltiplos pertencimentos escolham representar os países de origem de suas famílias.

O futebol internacional tornou-se, literalmente, um campeonato das diásporas.

A França exporta mais do que jogadores

Existe um paradoxo particularmente revelador. No artigo anterior mostramos que a França possui uma das seleções mais miscigenadas da Copa, formada majoritariamente por filhos e netos de imigrantes. Mas existe outro dado ainda mais impressionante. A França é também o maior exportador de jogadores do Mundial.

Dezenas de atletas nascidos em território francês disputam esta Copa vestindo outras camisas, principalmente de seleções africanas. Argélia, Marrocos, Tunísia, Mali, Senegal, Costa do Marfim, Camarões e Congo contam com jogadores formados nas categorias de base francesas. É a própria história do colonialismo retornando ao gramado.

Durante décadas, o império atraiu trabalhadores de suas colônias para reconstruir a economia francesa. Hoje, os filhos e netos desses trabalhadores alimentam simultaneamente o futebol francês e as seleções dos países de origem de suas famílias. A história não corre numa única direção.

Nem sangue, nem passaporte

O caso de Luca Zidane ajuda a compreender outra dimensão desse fenômeno. Filho de Zinedine Zidane — um dos maiores jogadores da história da França e descendente de argelinos — Luca nasceu em Marselha. Poderia tentar uma vaga na seleção francesa. Preferiu defender a Argélia.

Seu gesto possui enorme força simbólica. Seu pai tornou-se um dos maiores ícones da integração dos filhos da imigração ao futebol francês. O filho percorreu o caminho inverso. Não foi o único.

Há também trajetórias que seguem uma lógica completamente diferente. O atacante colombiano Julián Quiñones construiu praticamente toda sua carreira profissional no México. Tornou-se ídolo de clubes mexicanos, viveu anos no país e foi acolhido por sua torcida. Quando recebeu o convite para defender a seleção mexicana, a federação colombiana tentou convencê-lo a esperar uma oportunidade. O então técnico da Colômbia chegou a lhe enviar uma carta pedindo que permanecesse disponível. Quiñones escolheu o México. Não porque tivesse ancestrais mexicanos. Mas porque entendia que aquele era o país onde havia construído sua vida.

As duas histórias parecem opostas, mas, a verdade, revelam a mesma coisa. Nem o sangue, nem o passaporte são capazes de explicar sozinhos o pertencimento nacional. As pessoas constroem vínculos através da família, da cultura, do trabalho, da vida cotidiana e da própria experiência histórica.

A nação não cabe numa árvore genealógica

Os nacionalistas costumam imaginar as nações como comunidades homogêneas, unidas por origem comum, ancestralidade ou sangue. A própria Copa desmonta essa fantasia. Os irmãos Boateng seguiram caminhos diferentes: Jérôme tornou-se campeão mundial pela Alemanha; Kevin-Prince escolheu defender Gana.

Os irmãos Xhaka fizeram o mesmo: Granit vestiu a camisa da Suíça; Taulant representou a Albânia. Filhos dos mesmos pais. Criados na mesma família. Representando países diferentes. Se a nacionalidade fosse determinada pela biologia, essas escolhas seriam impossíveis de compreender. Mas elas fazem todo sentido quando entendemos que as identidades nacionais são construções históricas e sociais.

A extrema direita insiste em transformar a nacionalidade numa questão de sangue. A própria vida insiste em demonstrar exatamente o contrário.

O que isso ensina à classe trabalhadora?

Há uma ironia que talvez passe despercebida para quem assiste apenas aos noventa minutos de jogo. Enquanto governos erguem muros, endurecem fronteiras e alimentam discursos de ódio contra imigrantes, o próprio funcionamento do capitalismo produz diariamente o movimento contrário.

Trabalhadores cruzam continentes, fogem de guerras, procuram empregos, constroem novas vidas, formam famílias e criam filhos em outros países. Os jogadores da Copa apenas tornam visível um processo muito maior. Eles são uma pequena parcela de um fenômeno que envolve centenas de milhões de trabalhadores migrantes espalhados pelo mundo.

A classe trabalhadora do século XXI já nasce profundamente internacionalizada. Não apenas porque o capital organiza a produção em escala mundial, mas porque as próprias famílias trabalhadoras atravessam fronteiras, crises econômicas, guerras e processos migratórios que conectam povos antes separados por milhares de quilômetros.

É justamente por isso que o nacionalismo e a xenofobia interessam tanto às classes dominantes. Quanto mais a exploração ultrapassa as fronteiras nacionais, maior é a necessidade de convencer os trabalhadores de que seu verdadeiro inimigo não é quem concentra a riqueza, mas quem nasceu do outro lado da fronteira.

Talvez por isso a vitória marroquina sobre os Países Baixos tenha produzido uma imagem tão poderosa. Em campo não estavam duas civilizações em conflito, como gostam de imaginar os ideólogos da extrema direita. Estavam filhos de trabalhadores que compartilham uma mesma história de migração, exploração, colonialismo e diáspora, distribuídos entre os dois lados do gramado. O futebol não elimina as fronteiras. Mas mostra diariamente que elas são muito menos sólidas do que pretendem os nacionalistas.

A Copa de 2026 revela algo que a extrema direita tenta desesperadamente esconder e que o movimento operário deveria reivindicar com orgulho: antes de pertencerem a Estados diferentes, os trabalhadores do mundo já compartilham uma história comum, construída pelas migrações, pelo trabalho e pelas lutas contra a exploração.

Quando um jovem nascido em Roterdã escolhe defender Marrocos, quando Luca Zidane veste a camisa da Argélia ou quando um colombiano decide representar o México, o que aparece não é a fragmentação da humanidade, mas justamente o contrário. É a demonstração de que o capitalismo unificou o mundo de maneira profundamente contraditória. Cabe à classe trabalhadora transformar essa integração econômica, construída para servir ao lucro e ao imperialismo, em solidariedade internacional consciente.

Talvez essa seja a maior lição política desta Copa. As bandeiras continuam diferentes. Os hinos continuam diferentes. Mas a história que colocou esses jogadores em campo já é, há muito tempo, uma história comum. E será justamente dessa história comum que poderá nascer, um dia, a unidade internacional dos trabalhadores capaz de derrubar as fronteiras que hoje servem para dividi-los.

 Assine
 Assine