A bomba que explodiu no Supremo Tribunal Federal (STF) neste 1º dia de setembro trouxe ainda mais à tona as relações espúrias entre o banqueiro e corrupto Daniel Vorcaro, protagonista da maior fraude bancária da história, e a mais alta corte da República. Apesar de o epicentro do míssil lançado pelo ministro André Mendonça ser o colega Alexandre de Moraes, o fogo se espalha pelo restante do tribunal e das demais instituições desse regime burguês.
Diante da avalanche de notícias lançadas nesses últimos dias, é importante uma breve sistematização da cronologia desse novo escândalo. O dia começou com a revelação da revista Piauí de mais um pagamento de Vorcaro a Flávio Bolsonaro, através do fundo para o suposto financiamento do filme "Dark Horse", de R$ 8,5 milhões. Horas depois, o ministro do STF, André Mendonça, que cuida do inquérito do Banco Master, divulgou um relatório encomendado à Polícia Federal que mostra nada menos que 52 mensagens trocadas entre o banqueiro e Moraes. Antes mesmo de Mendonça ter aberto o sigilo do relatório, seu conteúdo já estampava o Estadão.
"Estamos juntos sempre"
Desde que veio à luz o misterioso contrato entre o escritório da esposa de Alexandre de Moraes e Vorcaro, de R$130 milhões, já se sabia que o ministro tinha rabo preso com o banqueiro. As novas mensagens, porém, detalham o esquema e mostram que a relação entre os dois era muito mais próxima. "Estamos juntos sempre. você sabe que tenho gratidão da minha vida a você", afirma uma das mensagens de Vorcaro a Moraes.
O relatório da PF mostra que Moraes, ao contrário do que afirmara antes, não só sabia do tal contrato milionário, como ajudou a editá-lo. Além de um outro contrato com o mesmo escritório de R$50 milhões. Vorcaro também pediu ao ministro intercessão junto ao Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O mesmo que, junto com Moraes, participou de uma "degustação" de whisky de luxo pago por Vorcaro em Londres.
As novas mensagens revelam outros presentes e viagens de luxo, colocando Alexandre de Moraes numa situação ainda mais complicada. Mas o dia ainda guardava novas surpresas: Gonet, da PGR, em tempo recorde, pediu a nulidade do processo. O motivo seria que André Mendonça não poderia, por si só, pedir investigação contra um colega da corte. Isso só poderia partir da PGR, mas, a coincidência é impressionante: o próprio PGR é citado diversas vezes nas conversas íntimas entre Vorcaro e Moraes.

Reviravolta
A movimentação de Mendonça não dava muito margem para dúvida. Sentado em cima do processo da "Dark Horse", mantido em sigilo, o ministro que age como advogado da família Bolsonaro tentou uma manobra eleitoral contra o governo e Moraes. Mas não contava que, logo depois, seria revelado que ele mesmo se encontrou secretamente com Vorcaro, em março do ano passado, como apurado pelo ICL Notícias. O assunto? Segundo o gabinete de Mendonça, precatórios.
Só não explica porque, para uma reunião tão banal, um advogado a serviço do banqueiro teria levado Mendonça a uma alfaiataria para fazer um terno sob medida. "Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, afirma uma das mensagens interceptadas pela PF.
Ainda mais, segundo apuração do Globo, Mendonça recebeu Vorcaro recentemente para um depoimento em seu gabinete sem a presença da Polícia Federal. Mendonça, cuja assessoria está tendo que fabricar notas de explicação em escala industrial, justifica que o banqueiro estaria sofrendo "intimidações", mas mantém o conteúdo do encontro sob sigilo.
Suprema pizza
Enquanto fechávamos esta edição, o governo Lula permanecia em silêncio. Flávio Bolsonaro, com a maior cara de pau, pedia o impeachment de Alexandre de Moraes, mas sem dar explicações sobre os milhões recebidos por Vorcaro. Alcolumbre diz que não vai ter impeachment. Já o presidente do STF, Edson Fachin, se limitou a afirmar que "tomaria medidas cabíveis", sem detalhar quais seriam. O que se sabe é que nenhum "manual de ética", como ele propôs para abafar o escândalo lá atrás, vai servir para estancar uma crise dessas proporções.
CRISE
A podridão das instituições desse regime dos ricos
Esse escândalo mostra a podridão das instituições desse regime dos ricos. O STF se mostra uma Casa corrompida até seus alicerces. Além de Moraes e Mendonça, Dias Toffoli já foi pego em negociatas escusas envolvendo um resort no Paraná. O filho do ministro Nunes Marques, indicado por Bolsonaro como Mendonça, também manteve um controverso contrato com Vorcaro. O filho do ministro Luiz Fux, que votou pela absolvição de Bolsonaro, teve camarote VIP bancada pelo dono do Master no Carnaval da Sapucaí.
Mas quem caiu na farra de Vorcaro não foi apenas o STF. O Congresso Nacional, da esquerda à direita, tem inúmeros envolvidos com o trambiqueiro. Começando por Jacques Wagner e o PT na Bahia, que deu o pontapé no esquema fraudulento do banqueiro. Passando pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que atuou no Congresso Nacional para aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a pedido de Vorcaro, e sustentar seu esquema de pirâmide. Passa ainda por Ibaneis Rocha (MDB) que, à frente do governo do Distrito Federal, ajudou o banco Master causando um prejuízo bilionário aos cofres públicos e o povo do distrito.
O caso resvala até o Planalto, com o ex-ministro Guido Mantega contratado para fazer lobby de Vorcaro e marcar um encontro do banqueiro com o presidente Lula.
Isso mostra como a separação dos poderes é ficção. Na prática, estão todos unidos pelos interesses dos bilionários.
Tudo dominado
Não é por menos que, perguntado sobre as mensagens reveladas envolvendo o STF e o ex-dono do Banco Master, o presidente do Senado tenha respondido: "Não achei nada, não devo achar nada". Ao mesmo tempo, num ato de oportunismo eleitoral sem limites, o PL e demais partidos da extrema direita inundam a mesa de Alcolumbre com pedidos de impeachment de Moraes e outros ministros do STF, enquanto sustentam um candidato comprovadamente envolvido com o esquema corrupto de Vorcaro.
Fica o questionamento: se um banqueiro ralé como o ex-dono do Master, que nunca esteve nem perto de atingir o topo, é capaz de colocar no bolso grandes figurões da República, o que são capazes de fazer os banqueiros realmente grandes?
Investigação, prisão e expropriação de todos os envolvidos
Quando a crise do Banco Master explodiu, tanto o Congresso Nacional quanto o STF, em sintonia com o Planalto, trabalharam para abafar o caso. Tiveram êxito por um tempo. Mas agora o escândalo volta amplificado, expondo as vísceras podres das instituições desse regime burguês dominado pelos ricos.
Não é interesse de ninguém nenhum deles investigar a fundo essas relações espúrias. Por isso é tarefa da classe trabalhadora, dos movimentos sociais e do povo pobre exigir investigação, punição e expropriação dos bens de todos os envolvidos nesse esquema sórdido. Seja ministro, senador ou deputado, de qual partido forem.

O erro de se confiar ao STF o combate ao golpismo da extrema direita
Mesmo com Flávio Bolsonaro enrolado até o pescoço com Vorcaro, a extrema direita tem atuado para se aproveitar da situação e livrar a cara do ex-presidente e demais golpistas condenados e presos pela tentativa de golpe do 8 de janeiro.
Isso mostra o erro da esquerda da ordem em não enfrentar de forma consequente o golpismo, terceirizando essa tarefa para as instituições, principalmente o STF, e nele, a Alexandre de Moraes. Um juiz que sempre se colocou contra os trabalhadores, como no caso das terceirizações e contra os vínculos empregatícios dos trabalhadores de aplicativos.
Se Alexandre de Moraes se colocou contra a tentativa de golpe não foi porque se preocupa com as liberdades democráticas ou os direitos dos trabalhadores e a população, mas porque, naquele momento, não era algo que interessasse a ele e às frações da burguesia que representa.
Ao mesmo tempo em que relegava ao ministro do STF medidas contra o golpismo, o governo Lula e o PT não lutavam contra a extrema direita, mas, ao contrário, apostava em alianças e negociações. A alta cúpula das Forças Armadas, assim, permanecem impunes, assim como grandes empresários que financiaram a tentativa de golpe.
E agora, com a crise batendo forte no STF, a corte se desmoraliza e acaba fortalecendo o golpismo.
Impeachment não pode virar impunidade a golpistas
O impeachment de Alexandre de Moraes, por sua vez, não pode significar a absolvição de Jair Bolsonaro e demais golpistas, como querem o bolsonarismo. Está mais do que comprovada a política de Bolsonaro, desde o início de seu mandato, de implementar um autogolpe e se perpetuar no poder, suprimindo as liberdades democráticas e restaurando uma ditadura no país.
O 8 de Janeiro de 2023 foi apenas o ápice desse projeto, uma vez que Bolsonaro foi derrotado nas urnas. Mas o golpismo está no DNA do bolsonarismo, e a luta contra os projetos autoritários da extrema direita, que, hoje, inclusive não se resume ao bolsarismo, não deve ser relegada ou terceirizada às instituições desse regime. Só a classe trabalhadora mobilizada e organizada pode lutar de forma consequente contra a extrema direita, mudando as condições econômicas e sociais que a perpetuam.
Por um outro tipo de sociedade, sem privilégios e corrupção
O escândalo do Banco Master é uma mostra do que é o capitalismo. O Estado burguês mantém uma casta privilegiada que não se contenta com a vida de luxo que têm, mas contam com toda a impunidade do mundo para se refestelarem na corrupção. Afinal, quem vai julgar o STF? Um Congresso Nacional ainda mais corrupto que ele?
É por isso que precisamos sim exigir medidas duras contra os corruptos. Afinal, ninguém é obrigado a, além de ser explorado e oprimido por este sistema, ainda ser roubado para pagar jantares caros regados a whisky a um bando de banqueiros, juízes e políticos salafrários. É uma medida democrática mínima. Mas só acabaremos com a corrupção com um novo tipo de sociedade, organizando um Estado dos trabalhadores, apoiados na auto-organização da classe, com mandatos revogáveis a qualquer momento e sem qualquer tipo de privilégio.