Tráfico, milícia e polícia: as três armas apontadas para a escola

  • Estudos mostram que a violência armada derruba o aprendizado, empurra jovens para fora da escola e rouba dias letivos de centenas de milhares de estudantes no Rio de Janeiro.
Jorge H. Mendoza
Tráfico, milícia e polícia: as três armas apontadas para a escola

Quem trabalha numa escola da Zona Norte, da Zona Oeste ou da Baixada conhece bem a cena. É cedo, o portão ainda nem abriu e a mensagem já chega no grupo: "tem operação", "o ônibus não está entrando", "não mandem as crianças". A aula do dia está perdida. E, muitas vezes, a da semana também, porque ninguém sabe quando vai acontecer de novo.

Durante muito tempo isso foi tratado como um problema de cada escola, quase uma fatalidade de quem trabalha "em área de risco". Hoje temos dados que mostram que não se trata de casos isolados, e sim de um padrão, com causas e responsáveis.

Quatro estudos produzidos pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF), pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) mostram bem essa realidade. São o Mapa Histórico dos Grupos Armados (2025), os dois relatórios da série Educação Sob Cerco (2025) e o relatório Percursos Interrompidos.

Metade das escolas sob domínio armado

Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados, em 2024 cerca de 4 milhões de pessoas — 34,9% da população da Região Metropolitana — viviam em áreas sob controle ou influência de facções do tráfico ou de milícias. Entre 2007 e 2024, a área dominada mais que dobrou. O grupo que mais cresceu foram as milícias: o território sob seu controle aumentou 315%.

As escolas estão dentro desses territórios. O primeiro relatório do Educação Sob Cerco mostra que, em 2022, quase metade das escolas públicas da Região Metropolitana (48,8%) estava em área dominada. Na capital, eram 58,4%. Isso significa cerca de 800 mil estudantes do ensino fundamental e médio estudando sob a lei de algum grupo armado. No mesmo ano, segundo o mesmo relatório, 46% das escolas tiveram pelo menos um tiroteio a menos de cem metros de distância.

Esse peso não cai sobre todos igualmente. O Mapa mostra que, nas áreas controladas da Região Metropolitana, a renda média por pessoa é de R$ 1.121, contra R$ 1.658 nas demais. A população não branca é 69,1% nas áreas dominadas e 55,2% fora delas. O controle armado se instala onde estão os trabalhadores mais pobres e, em sua maioria, negros.

GRÁFICO 1

Distribuição de escolas públicas de acordo com a caracterização do controle territorial armado Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 2022

Fonte: Educação sob cerco. UNICEF (2025)

O que a violência faz com o aprendizado

Aqui é preciso ser honesto. O segundo relatório do Educação Sob Cerco mostra que o fator que mais pesa no desempenho escolar é a condição social: a renda das famílias, o bairro, o município. Uma escola pobre da Baixada, mesmo fora de área dominada, tende a ter resultados piores que uma escola da capital sob domínio de milícia. A desigualdade de classe vem primeiro.

Mas a violência armada agrava esse quadro. Os pesquisadores usaram as notas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), a prova nacional aplicada pelo Ministério da Educação. Mesmo comparando alunos com perfis sociais semelhantes, quem estuda em área dominada aprende menos, em português e em matemática. A diferença chega a cerca de 8 pontos, o que equivale a quase meio ano de escola, e é maior no 9º ano do que no 5º. Quanto mais tempo a criança passa exposta, maior o prejuízo. Na capital, a proporção de alunos do 9º ano com aprendizado abaixo do básico em matemática é de 19,1% nas áreas não dominadas, 22,6% nas de tráfico e 25,4% nas de milícia.

Os pesquisadores encontraram um efeito que chamam de "nivelamento por baixo". Entre as famílias trabalhadoras que conseguem um pouco mais de estabilidade e investem na educação dos filhos, o controle armado anula essa vantagem. A violência puxa todo mundo para baixo.

Uma ressalva: esses dados de aprendizado vão até 2019, porque depois disso o acesso às informações por escola foi restringido. Contudo, não há motivo para imaginar que a situação tenha melhorado.

A polícia e o abandono escolar

O mesmo relatório mediu o abandono no 3º ano do ensino médio. Em 2022, nas escolas sem nenhuma ação policial no entorno, o abandono foi de 7,4%. Nas escolas com mais de três ações policiais por perto, chegou a 10,4%. Na capital, a 13,4%. Os autores concluem que os tiroteios em ações policiais pesam mais sobre o abandono do que os confrontos em geral.

Já o relatório Percursos Interrompidos olhou para o caminho até a escola. Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, o transporte público da cidade do Rio foi interrompido 2.228 vezes, a maioria por causa da violência armada. Mais da metade das interrupções em dia de aula começou entre 6h30 e 8h, na hora da entrada. Em 377 dos cerca de 520 dias letivos do período, pelo menos uma escola municipal teve o trajeto dos alunos afetado. Só na Penha, o tempo acumulado sem transporte em horário de aula equivale a 87 dias letivos, quase um semestre.

Segundo o mesmo estudo, as barricadas dos grupos armados aparecem em primeiro lugar entre as causas (32,4%), seguidas das operações policiais (22,7%). As duas coisas andam juntas: a operação chega, a facção responde, e quem fica no meio são as crianças, as famílias e os trabalhadores da escola.

A operação de 28 de outubro de 2025, nos complexos da Penha e do Alemão, mostrou isso da forma mais brutal. De acordo com o Percursos Interrompidos, foram 117 civis e 5 policiais mortos. Naquele dia, 46 escolas suspenderam as aulas e cerca de 62 mil estudantes foram atingidos, entre escolas fechadas e trajetos interrompidos.

Não é ausência do Estado

É comum ouvir que o tráfico e a milícia ocupam o "vazio" deixado pelo Estado. Os dados contam outra história. O tráfico de drogas e a milícia são negócios capitalistas. Lucram com o monopólio sobre o gás, o transporte alternativo, a internet, a venda de terrenos e imóveis. O Mapa mostra que as milícias funcionam como produtoras do espaço urbano: chegam antes dos moradores, loteiam, constroem e cobram. E a milícia nasceu de dentro do próprio aparato do Estado, de policiais, bombeiros e outros agentes públicos.

O Mapa identifica o período de 2016 a 2020 como o da "grande expansão" desses grupos e aponta suas causas: a falência do estado do Rio, o desmonte das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a intervenção federal e o mercado de terras aquecido pelos investimentos dos megaeventos.

Os estudos do ILAESE ajudam a entender essa falência. O Rio vive uma desindustrialização mais profunda que a do resto do país, com perda de empregos industriais e dependência dos royalties do petróleo. O Estado se endividou para bancar Copa e Olimpíadas, privatizou empresas públicas e entrou no Regime de Recuperação Fiscal. A conta caiu sobre os serviços públicos: segundo o ILAESE, a educação passou de 26% das despesas do estado em 2003 para 10,3% em 2021, e o governo descumpriu o mínimo constitucional de 25% em quatro anos daquele período.

A mesma crise que sucateou a escola pública abriu caminho para a expansão dos grupos armados. E é numa juventude sem emprego, sem perspectiva e com uma escola cada vez mais precária que o tráfico e a milícia recrutam.

Fonte: GENI/UFF e parceiros. Abrir mapa em nova aba

A polícia não protege a escola

Se a polícia resolvesse, o problema já teria sido solucionado. O Percursos Interrompidos registra cerca de 1.965 operações policiais em 2024, só na cidade do Rio, o mesmo patamar do auge da série histórica iniciada em 2007. E o primeiro relatório do Educação Sob Cerco reconhece que, nas últimas décadas, esse modelo não reduziu o controle territorial dos grupos armados. Ao contrário, a violência se intensificou.

O mesmo relatório mostra que a violência policial é uma escolha política. Em 2022, os tiroteios com ação policial perto de escolas foram quase três vezes mais frequentes nas áreas dominadas. Quando o Supremo Tribunal Federal (STF) restringiu as operações, a partir de 2020, com a chamada ADPF das Favelas (uma ação que questionou a letalidade da polícia do Rio), esses tiroteios caíram quase pela metade. Mas em 2024 o próprio STF recuou: deixou de proteger o entorno das escolas e passou a permitir que elas sejam usadas como base de operações.

E o governo Lula?

Seria um erro achar que a saída vem do governo federal. Os governos do PT nunca romperam com a lógica da guerra nas favelas. Em 2007, a Força Nacional participou da operação que matou 19 pessoas no Complexo do Alemão. Em 2014, sob Dilma, o Exército ocupou a Maré por mais de um ano. E na Bahia, governada pelo PT há quase vinte anos, está a polícia que mais mata no país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Depois da chacina de outubro de 2025, Lula chamou a operação de desastrosa e pediu investigação. Mas a resposta do seu governo foi seguir no mesmo caminho: o próprio governo enviou ao Congresso o projeto de lei Antifacção, centrado no aumento de penas, que a extrema direita só tratou de endurecer. A proposta de emenda constitucional da segurança pública aposta em integrar as polícias, sem tocar na sua militarização. Ao mesmo tempo, o arcabouço fiscal limita os gastos públicos e aperta justamente a educação. E no município do Rio, a bancada do PT ajudou a aprovar o pacote de Eduardo Paes contra os profissionais da educação, em 2024.

Um limite das saídas propostas

Os relatórios do UNICEF trazem recomendações importantes: recomposição das aulas perdidas, apoio psicológico, atacar as bases econômicas dos grupos armados. Concordamos com elas. Mas muitas propostas giram em torno de "protocolos" e "integração" entre segurança e educação, como se fosse possível conviver com as operações desde que bem organizadas. Os dados desses mesmos estudos mostram o contrário: o problema não é a falta de protocolo, é um modelo de segurança voltado à guerra contra os pobres. É a adoção do protocolo de "guerra às drogas" que gera todas essas consequências.

Que saídas defendemos

Seria ilusão acreditar que algumas frases dariam saída ou uma receita pronta para um problema estrutural tão complexo. Mas algumas ideias precisam entrar na conversa.

A primeira é simples: nenhuma operação policial no entorno das escolas e em horário de aula. Se os dados mostram que a ação da polícia é o que mais empurra os jovens para fora da escola, não faz sentido aceitar isso como efeito colateral.

Os dias perdidos também precisam ser repostos, mas não às custas de quem já está sobrecarregado. Isso exige mais professores e funcionários, contratados por concurso, e psicólogos e assistentes sociais em todas as escolas, como a lei já determina. E nada disso acontece sem dinheiro. É preciso inverter a prioridade que hoje coloca o pagamento da dívida acima da educação.

No terreno da segurança, defendemos a desmilitarização da polícia e o controle da população sobre ela. Defendemos também a legalização das drogas sob controle do Estado, para tirar do tráfico o lucro que o sustenta. E, em vez de mais operações, seguir o dinheiro até as contas bancárias, a lavagem, os políticos e empresários que lucram com o crime. Diante de um Estado que atira e de grupos armados que impõem sua lei, também precisamos discutir como as comunidades e os sindicatos podem organizar sua própria autodefesa.

Nenhuma dessas medidas vai sair do papel por boa vontade dos governos. Elas precisam ser debatidas e assumidas por quem vive esse problema todos os dias: professores, merendeiras, porteiros, agentes de apoio, estudantes e famílias. Cada escola atingida pela violência sabe o que precisa. Essa discussão deve acontecer nas reuniões de escola, nas assembleias dos sindicatos da Educação e nos espaços de organização da categoria, que precisam ser defendidos também contra o controle político sobre as escolas.

A escola pública é, em muitos territórios, o único serviço público que ainda chega. Defendê-la da violência, venha ela do tráfico, da milícia ou da polícia, é parte da luta da classe trabalhadora por uma vida digna.

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