Um ano depois da chacina no Complexo da Penha e Alemão, o tráfico não foi derrotado

  • Uma operação de grande escala, sem segurança duradoura
PSTU Rio de Janeiro
Um ano depois da chacina no Complexo da Penha e Alemão, o tráfico não foi derrotado
Foto Tomaz Silva/Agência Brasil

Em 28 de outubro de 2025, uma operação policial nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, terminou com 122 mortos, entre eles cinco agentes de segurança. A Operação Contenção mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares e foi apresentada como uma ação para combater o Comando Vermelho e recuperar territórios. Um ano depois, seu saldo político e social é incontornável: a operação produziu uma das maiores matanças da história do país, mas não desmontou o poder das facções nem garantiu segurança para os moradores.

A chacina não foi um fato isolado nem uma fatalidade sem responsáveis. Foi resultado de uma política de segurança que transforma territórios populares em campos de batalha e apresenta o uso extremo da força como resposta para problemas que não pretende enfrentar em suas raízes. O Estado entrou nas comunidades com milhares de agentes e armas, mas não assegurou proteção, serviços públicos ou direitos. Depois da operação, a população permaneceu exposta à violência e à imposição de grupos armados.

A violência interrompe a vida cotidiana

A dimensão da tragédia não se mede apenas pelo número de mortos. Moradores ficaram encurralados durante os confrontos; a rotina dos bairros foi interrompida, e crianças foram expostas a cenas de morte e medo. Na manhã seguinte, corpos foram encontrados na mata e levados por moradores a uma praça da região. Um ano depois, a tentativa de retomar aquele espaço para atividades comunitárias expressa uma necessidade que deveria ser garantida pelo poder público: que crianças possam brincar, estudar e crescer sem conviver com tiros, operações e medo.

Os efeitos da violência atravessam a vida cotidiana. Escolas fecham, aulas são interrompidas e o acesso a serviços fica comprometido. No Complexo do Alemão, o número de unidades escolares que fecharam ao menos uma vez aumentou de 25 para 29 no último ano, uma alta de 16%. Quando uma escola fecha por causa de confrontos, não se perde apenas um dia de aula: a comunidade perde um espaço de proteção, convivência e aprendizagem.

Os números não comprovam uma mudança duradoura

Os dados sobre tiroteios e mortes precisam ser examinados com rigor. Nos 12 meses anteriores à operação, foram registrados 41 tiroteios nos complexos da Penha e do Alemão; nos 11 meses e 15 dias seguintes, foram 16. O número absoluto caiu 61%, mas os períodos comparados têm durações diferentes. Indicadores oficiais também apontaram queda de 23% na letalidade violenta e de 13% nos homicídios na área da circunscrição policial, que é mais ampla do que os dois complexos. A comparação excluiu outubro de 2025, mês da operação.

Essas reduções, por si só, não provam que a megaoperação tenha causado uma melhora duradoura nem que tenha enfraquecido a facção. Os relatos indicam que a atividade do tráfico foi retomada depois da saída das forças policiais e que o controle territorial atribuído ao grupo criminoso permaneceu. Também faltam dados públicos específicos que permitam avaliar, com precisão, a presença armada e o grau de controle exercido nas comunidades. Menos tiroteios registrados não significam necessariamente que os moradores estejam livres da coerção, da extorsão ou do domínio armado.

A operação tinha como alvos 51 pessoas com mandados de prisão. Segundo os dados divulgados pelo governo estadual, 17 foram presas durante a ação, outras 82 pessoas foram detidas em flagrante e um dos alvos morreu antes da operação. Um ano depois, 33 dos procurados continuavam foragidos. Foram apreendidas 122 armas, mas a presença da facção não foi eliminada. O contraste entre o tamanho da força mobilizada e a permanência do domínio armado mostra os limites de uma política baseada em incursões letais.

Moradores dos Complexos do Alemão e da Penha fizeram um protesto em frente a sede do governo do estado | Crédito: Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Responsabilização e investigação são indispensáveis

A responsabilidade política por essa estratégia é do governo que a planejou, autorizou e executou. Não é aceitável que uma operação termine com 122 mortos e que a prestação de contas se limite a discursos sobre resultados ou a justificativas genéricas de combate ao crime. É necessário esclarecer as circunstâncias de cada morte, preservar e analisar as gravações das câmeras corporais, garantir investigação independente e responsabilizar quem tiver cometido crimes. A apuração deve alcançar todos os níveis de decisão, sem privilégios nem versões oficiais tratadas como verdade antes da conclusão das investigações.

Curiosamente figuras que se arvoram no discurso oficial de combate ao crime, são investigados ou presos em casos de ligação com o crime organizado. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e homem de confiança do ex-governador Cláudio Castro, foi preso em diferentes fases da Operação Unha e Carne, que apura suspeitas de vazamento de informações sigilosas sobre ações contra o Comando Vermelho; a Polícia Federal apontou indícios de que ele teria alertado o ex-deputado conhecido como TH Joias sobre uma operação. Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, foi preso em julho em flagrante após a apreensão de um fuzil em seu carro e liberado dias depois; em outubro, voltou a ser preso preventivamente na oitava fase da mesma operação, em investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e atuação de uma rede de postos. A apuração inclui suspeitas de conexões entre agentes públicos e grupos criminosos.

Claudio Castro, Rodrigo Bacellar e o governador eleito Douglas Ruas, fazem parte do mesmo campo político no Rio. Assim como Marcio Canella, que recebeu apoio público do ex-candidato a presidente, e agora fugitivo, Flávio Bolsonaro. Rogéria Bolsonaro, mãe do senador, chegou a ser indicada como suplente em sua pré-candidatura ao Senado. Castro, por sua vez, é alvo de buscas em investigações federais distintas sobre suspeitas de irregularidades envolvendo a Refit e também no caso Master, além disso, foi declarado inelegível pelo TSE no processo sobre contratações da Ceperj e da Uerj.

Isso não significa minimizar a violência das facções. Grupos armados impõem regras, cobram taxas, intimidam moradores e disputam territórios. A população trabalhadora vive entre a coerção do tráfico e operações policiais que podem transformar ruas, casas e escolas em zonas de confronto. A crítica à política de extermínio não é defesa das facções: é a recusa de aceitar que moradores sejam submetidos a duas formas de violência e chamados a escolher entre elas.

A guerra às drogas poupa os grandes negócios

A chamada guerra às drogas também esconde onde se concentram o dinheiro e o poder. O comércio ilegal não funciona apenas nas comunidades. Depende de armas, rotas de distribuição, lavagem de dinheiro, proteção e corrupção, redes que ultrapassam as favelas e conectam diferentes setores da sociedade. Ainda assim, a resposta estatal costuma se concentrar nos bairros pobres e na parcela mais exposta do negócio. Pessoas são presas ou mortas na ponta mais visível, enquanto as estruturas que financiam e lucram com o mercado podem continuar funcionando.

A Lei “antidrogas” de 2006, aprovada no primeiro mandato de Lula, ampliou o peso da abordagem policial e das decisões judiciais na classificação entre usuário e traficante. Estudos do Ipea identificaram que, embora pessoas negras fossem 57% da população brasileira considerada na comparação, correspondiam a 68% dos réus processados por tráfico; a amostra analisou 5.121 réus, representativa de 41.100 pessoas sentenciadas no primeiro semestre de 2019. Os dados mostram como a aplicação desigual da norma recai desproporcionalmente sobre jovens negros e periféricos, enquanto o comércio de maior escala e suas redes financeiras permanecem menos expostos à repressão cotidiana.

A pobreza, por si só, não transforma ninguém em criminoso. Mas desemprego, falta de renda, moradia precária, escolas sem recursos e ausência de serviços públicos reduzem as alternativas disponíveis para milhões de pessoas. Uma política de segurança que ignora essas condições deixa intactos problemas que alimentam a violência e, ao mesmo tempo, trata a população dos territórios mais pobres como suspeita permanente. Direitos sociais não são um complemento distante da segurança: são parte essencial de qualquer resposta que queira reduzir a violência de forma duradoura.

Outra política de segurança é necessária

É necessário romper com a lógica da “guerra às drogas”, descriminalizar as drogas e revogar a Lei Antidrogas, combinando essas medidas com prevenção, atendimento de saúde e redução de danos. A proposta é tirar o consumo da esfera criminal e tratar a dependência como questão de saúde pública. Também deve se investigar e atingir as redes de armas, dinheiro e corrupção, em vez de concentrar a repressão em operações de alto risco nas comunidades.

No campo da segurança pública, é preciso desmilitarizar e unificar as polícias em uma instituição civil, colocando sob controle da população as forças de segurança e garantir câmeras corporais com gravação contínua e fiscalização independente. Combater milícias e grupos paramilitares, fortalecer serviços públicos e criar condições para que moradores possam se organizar contra a violência sem tutela de facções, milícias ou agentes estatais.

Não existe solução simples ou imediata para um problema construído ao longo de décadas. Mas há uma escolha política clara: insistir em operações que produzem mortes e deixam a estrutura criminosa de pé, ou mudar as prioridades. Isso exige investigação e inteligência para alcançar quem financia o crime, controle efetivo das forças de segurança pela população, escolas abertas, acesso à saúde, cultura, moradia, emprego e renda.

Um ano depois, os moradores da Penha e do Alemão seguem sem a segurança prometida. A redução de alguns indicadores não apaga a chacina, não demonstra que o poder das facções tenha sido desfeito e não devolve à população a tranquilidade que lhe foi negada. A segurança não pode ser medida pela quantidade de armas apreendidas ou pela força de uma operação: deve ser medida pela possibilidade de viver, estudar, circular e se organizar sem medo, extorsão ou tiroteios.

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