Mulheres

Feminicídio e capitalismo: a violência contra as mulheres na crise do sistema

Joana Salay, de São Paulo

16 de março de 2026
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Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil vive uma epidemia de feminicídios. A cada dia, mais de quatro mulheres são assassinadas no país por razões de gênero. Em 2025, foram mais de 1.500 casos registrados, o maior número da última década. Por trás dessas estatísticas existem histórias de violência prolongada, com ameaças ignoradas e denúncias que não foram levadas a sério. Na maioria das vezes, os assassinos são homens próximos, parceiros ou ex-companheiros.

Esses crimes não são apenas resultado de comportamentos individuais violentos. Eles expressam algo mais profundo: a permanência e o agravamento da opressão das mulheres em uma sociedade definida pela exploração capitalista. O feminicídio não surge do nada. É a forma mais brutal de uma sociedade assentada na exploração e na opressão. Combater essa violência exige enfrentar o sistema que a produz e também lutar contra o machismo dentro da própria classe trabalhadora.

Feminicídio na crise do capitalismo

A epidemia de feminicídios no Brasil não pode ser separada da realidade vivida pela maioria da classe trabalhadora. O país atravessa um processo de degradação social marcado por salários baixos, desemprego ou subemprego, expansão da informalidade e deterioração dos serviços públicos. Milhões de pessoas vivem sem acesso digno à saúde, educação e moradia, enquanto o custo de vida sobe e o endividamento das famílias se aprofunda. Nesse cenário, jornadas de trabalho extenuantes e o acúmulo de empregos tornam-se cada vez mais comuns para garantir a sobrevivência.

Essa realidade está ligada a dois processos combinados. De um lado, a crise estrutural do capitalismo mundial, que desde 2008 aprofunda a instabilidade econômica, a disputa entre potências e a deterioração das condições de vida da classe trabalhadora. De outro, a decadência do capitalismo brasileiro, marcado pela dependência, desindustrialização relativa, superexploração do trabalho e crescente desigualdade social.

Os efeitos desse processo aparecem também na vida cotidiana das famílias e das relações pessoais. Muitas mulheres permanecem presas a relações violentas porque não têm condições materiais de romper com seus agressores. Paralelamente, tensões sociais produzidas pela precariedade da vida cotidiana se articulam com ideologias machistas que naturalizam o controle e a dominação dos homens sobre as mulheres.

Crescem as ideologias reacionárias que procuram canalizar a frustração social contra os setores mais oprimidos, processo que é dirigido e alimentado pelo bolsonarismo. Racismo, LGBTfobia, xenofobia e machismo são mobilizados para dividir os explorados e ocultar as verdadeiras causas da crise.

A violência machista se intensifica nesse contexto. A insegurança econômica, a deterioração das condições de vida e o avanço de discursos reacionários criam um ambiente em que a violência machista se expande. O feminicídio aparece, assim, como a expressão mais extrema de relações sociais marcadas pela desigualdade e pela dominação.

Não é por acaso. O capitalismo sempre combinou exploração econômica com diferentes formas de opressão que ajudam a sustentar a dominação da classe dominante. Em momentos de crise, essa relação se torna ainda mais brutal, aprofundando desigualdades e ampliando a violência que recai sobre os setores mais oprimidos da sociedade.

A opressão das mulheres

A desigualdade de gênero não é natural nem eterna, tem raízes históricas e assume formas específicas em cada modo de produção. No capitalismo, ela está vinculada à forma como a sociedade organiza a produção e a reprodução da vida.

O capitalismo incorporou milhões de mulheres ao mercado de trabalho. Hoje elas são parte fundamental da produção social. No entanto, o sistema mantém a responsabilidade pela reprodução da vida, cuidar da casa, dos filhos e da família, no âmbito privado da família. Essa contradição produz a conhecida dupla jornada. As mulheres trabalham fora e continuam responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico não remunerado. Além disso, recebem salários menores, enfrentam maior precarização e são frequentemente tratadas como mão de obra descartável. A opressão das mulheres não é apenas cultural ou moral, possui uma base material dentro da própria organização da sociedade.

Essa desigualdade material sustenta ideologias que reforçam o machismo e a violência. Toda opressão se baseia em definir o outro como ser inferior. Quando se naturaliza que homens devem exercer controle sobre as mulheres, abre-se espaço para que diferentes formas de violência, das agressões ao feminicídio, sejam toleradas ou banalizadas.

O machismo também cumpre uma função política para o capitalismo: ajudar a burguesia a dividir a própria classe trabalhadora e enfraquecer sua capacidade de luta. Ao colocar homens contra mulheres, transforma diferenças em desigualdades, abala a confiança das mulheres em ter os homens da classe como seus aliados e enfraquece a capacidade de luta coletiva contra os capitalistas. Combater o machismo dentro da classe trabalhadora não é um tema secundário. É uma tarefa política fundamental para unificar a classe e fortalecer a luta contra o capitalismo, e também uma condição necessária para enfrentar a violência de gênero que, em sua forma mais extrema, se expressa no feminicídio.

Violência de gênero, racismo e desigualdade social

No Brasil, a violência contra as mulheres não atinge todas da mesma forma. Ela se combina com desigualdades sociais profundas e com a herança histórica da escravidão que marca a formação do país. Por isso, o feminicídio possui uma dimensão de classe e de raça.

As mulheres negras são a maioria das vítimas de feminicídio no país, cerca de 63% dos casos, contra 36,8% de mulheres brancas. Essa desigualdade não aparece apenas na violência extrema. As mulheres negras também estão concentradas nos setores mais precarizados, como o trabalho doméstico, a informalidade e os empregos com baixos salários. São maioria nas periferias urbanas, onde o acesso a serviços públicos de proteção é menor e onde a presença do Estado se expressa mais pela repressão do que pela garantia de direitos.

Outra expressão bárbara da violência de gênero no Brasil atinge as mulheres trans. O país ocupa há anos o primeiro lugar no mundo em assassinatos de pessoas trans, revelando um nível alarmante de transfobia e violência. A violência contra mulheres trans se concentra nos setores mais marginalizados da sociedade. A exclusão do mercado de trabalho formal empurra muitas delas para a informalidade, aumentando sua exposição à violência.

Isso mostra que a violência de gênero não recai de forma homogênea. No capitalismo, ela pesa mais sobre os setores mais precarizados, mulheres pobres, mulheres negras e mulheres trans. O feminicídio no Brasil, portanto, não pode ser entendido isoladamente do racismo e da desigualdade social.

A misoginia organizada: redpill e a indústria do ódio

Em meio à epidemia de feminicídio, viralizou nas redes sociais a trend de homens mostrando como bater nas mulheres caso elas dissessem não. No Rio de Janeiro, um dos acusados de participar do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos se apresentou à polícia usando uma camiseta com a frase “não me arrependo de nada”, expressão associada a ambientes misóginos da chamada cultura redpill. A misoginia ganhou uma nova forma de organização nas redes sociais. Comunidades virtuais redpill se apresentam como espaços de aconselhamento masculino, mas na prática difundem uma ideologia reacionária e disseminam a violência machista.

Nesses ambientes, mulheres são retratadas como inimigas ou manipuladoras e o feminismo como responsável pela “crise dos homens”. Uma explicação distorcida das frustrações e inseguranças vividas por muitos homens jovens em uma sociedade marcada pela precarização do trabalho, competição social e isolamento produzidos pelo capitalismo. Em vez de explicar essas dificuldades a partir das contradições sociais e de classe, a ideologia redpill desloca o problema para uma suposta “guerra entre homens e mulheres”, atribuindo ao feminismo ou à “natureza feminina” a causa das frustrações masculinas. Trata-se de uma ideologia reacionária que canaliza a insatisfação social para o machismo e para o conflito entre trabalhadores, dividindo a classe e ocultando as verdadeiras raízes dos problemas nas relações capitalistas que produzem desigualdade, alienação e crise nas relações sociais.

Essa ideologia não fica restrita ao mundo virtual. Ela reforça a ideia de que os homens têm direito de controlar ou punir as mulheres, contribuindo para a naturalização e a relativização da violência de gênero, incluindo o feminicídio. No Brasil, o discurso de ódio encontrou expressão política no bolsonarismo, que normalizou ataques misóginos, incentivou a violência política contra mulheres e fortaleceu setores que defendem um regime ainda mais autoritário.

A misoginia digital também se tornou um negócio. Influenciadores que difundem conteúdos redpill acumulam milhões de seguidores e monetizam seus vídeos por meio de publicidade, cursos e doações. Grandes plataformas como YouTube, TikTok, Instagram e X desempenham um papel central nesse processo, com algoritmos que privilegiam conteúdos que geram engajamento, mesmo quando se baseiam em discursos de ódio. Desta maneira, vídeos misóginos são amplificados, comunidades online se radicalizam e o ódio contra mulheres passa a circular em escala massiva. A misoginia se transforma, dessa forma, em uma verdadeira indústria do ódio.

Os limites das respostas institucionais

Nas últimas décadas, importantes avanços legais foram conquistados na luta contra a violência de gênero, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. Essas conquistas são resultado direto da mobilização das mulheres e precisam ser defendidas. Mas as leis, por si só, não são suficientes para enfrentar o problema. Para que elas tenham efeito real, é necessário que existam políticas públicas capazes de proteger as mulheres e salvar vidas: casas-abrigo, assistência jurídica, equipes especializadas, afastamento imediato de agressores, programas de prevenção e campanhas contra a violência de gênero.

Essas políticas, por sua vez, dependem de investimento público. No entanto, o governo Lula diz combater a violência contra as mulheres, mas subordina essas políticas ao arcabouço fiscal e aos interesses do mercado financeiro e dos grandes capitalistas. O resultado é que as políticas de proteção seguem cronicamente subfinanciadas. Em 2024, o orçamento federal destinado ao enfrentamento da violência contra as mulheres representou cerca de R$ 0,11 por mulher brasileira ao ano, um valor irrisório diante da gravidade da situação. Enquanto bilhões são destinados aos banqueiros e ao agro, faltam recursos para medidas básicas que poderiam salvar vidas.

Mas o problema vai além do orçamento. A violência machista está combinada com a desigualdade econômica, dependência financeira e com a naturalização da violência de gênero. Muitas mulheres permanecem em relações violentas justamente porque não têm condições materiais de romper com seus agressores. Por isso, embora leis e políticas públicas sejam necessárias e possam salvar vidas, elas encontram limites dentro de uma sociedade baseada na exploração e na desigualdade. Sem enfrentar essas bases materiais, as respostas institucionais acabam tendo alcance limitado. É justamente nesse ponto que aparecem as diferenças entre as estratégias defendidas pelo feminismo institucional e aquelas que partem de uma perspectiva de classe.

Independência de classe na luta contra o feminicídio

Diante da gravidade da situação, setores do feminismo institucional e da esquerda reformista defendem diferentes soluções para enfrentar o problema. Muitas delas apostam principalmente em reformas legais, maior punição aos agressores ou na regulação de conteúdos misóginos nas redes sociais. Essas iniciativas tocam aspectos reais do problema, mas permanecem presas aos limites do sistema e produzem, no máximo, avanços parciais. Estão baseadas na ideia de que é possível enfrentar a violência de gênero sem questionar as bases sociais que a reproduz, sem questionar, muitas vezes, nem mesmo o governo.

O feminismo burguês ou reformista defende que é possível alcançar a igualdade entre homens e mulheres dentro do próprio capitalismo. Para isso, aposta em reformas institucionais, políticas de representação ou na ascensão de algumas mulheres a posições de poder dentro do Estado, das empresas ou das instituições. A história demonstra os limites dessa abordagem. Mulheres podem chegar a cargos de direção em governos, empresas ou instituições e, ainda assim, continuar administrando o sistema que gera a desigualdade de gênero.

Essa perspectiva ignora que as próprias mulheres estão divididas por interesses de classe. Mulheres da burguesia podem sofrer machismo, mas ocupam uma posição na sociedade completamente distinta das mulheres trabalhadoras. Inclusive, pela sua classe social, se beneficiam de um sistema que se sustenta na exploração e na opressão. Por isso, a luta contra o feminicídio não pode se basear na colaboração entre mulheres de diferentes classes sociais. A ideia de uma unidade abstrata entre todas as mulheres oculta que existem interesses de classe opostos entre mulheres trabalhadoras e mulheres da burguesia. Enquanto as primeiras enfrentam salários baixos, precarização e violência cotidiana, as segundas podem ocupar posições de poder administrando o próprio sistema que sustenta essas desigualdades.

Por outro lado, explicar a opressão das mulheres a partir da ideia de patriarcado, entendido como um sistema geral de dominação dos homens sobre as mulheres, leva a uma interpretação equivocada da realidade social. Essa abordagem desloca o problema de suas bases materiais e ofusca o papel central das relações de exploração capitalistas na reprodução da desigualdade de gênero. Quando a opressão é explicada apenas como um conflito entre homens e mulheres, apaga os conflitos de classe. Homens trabalhadores e mulheres trabalhadoras passam a aparecer como inimigos sociais, enquanto o papel da burguesia e da exploração capitalista fica em segundo plano. Essa visão acaba, muitas vezes, tendo duas consequências: de um lado, estimula a divisão entre homens e mulheres da classe trabalhadora; de outro, promove a colaboração entre mulheres trabalhadoras e mulheres da burguesia.

Nesse sentido, enfrentar a opressão das mulheres, cuja expressão mais bárbara é o feminicídio, exige uma perspectiva de independência de classe. As mulheres trabalhadoras precisam de um programa próprio, independente, que enfrente não apenas a violência, mas também as condições sociais que a tornam possível. Isso significa articular medidas imediatas de proteção às mulheres, como casas-abrigo, assistência jurídica e políticas de prevenção – uma luta que pode e deve ser travada em unidade de ação com todos os setores que se coloquem a favor dessas bandeiras – com medidas que garantam independência econômica, como emprego digno, creches públicas, políticas de moradia e ampliação dos serviços públicos. Ao mesmo tempo, é preciso compreender que a violência contra as mulheres não é um problema isolado, mas está ligada às próprias relações sociais do capitalismo, que combinam exploração econômica e diferentes formas de opressão para sustentar a dominação da classe dominante. Enfrentar essas bases exige a luta do conjunto da classe trabalhadora.

Combater o feminicídio e enfrentar as bases sociais da opressão

Diante desses limites, surge uma questão central: que estratégia pode realmente enfrentar o feminicídio e a opressão das mulheres?

Combater o feminicídio exige lutar por todas as medidas concretas capazes de salvar vidas: proteção às vítimas, punição aos agressores, investimento em políticas públicas e combate à misoginia nas redes. Essas medidas são necessárias e urgentes. Mas também é preciso ir além. Se a violência contra as mulheres está ligada a um sistema que combina exploração econômica e diferentes formas de opressão, enquanto esse sistema continuar existindo suas raízes materiais também permanecerão. Assim, a luta pela libertação das mulheres não pode ser separada da luta por uma sociedade sem exploração e sem opressão, que só pode ser levada a cabo pela classe trabalhadora, homens e mulheres.

Nesse sentido, combater o machismo dentro da própria classe trabalhadora é parte dessa luta estratégica. Não haverá unidade real da classe enquanto metade dela seguir submetida à violência e à desigualdade. Os homens trabalhadores também têm responsabilidade em enfrentar o machismo e defender as reivindicações das mulheres da sua classe. Devem enfrentar os machistas dentro das fileiras da classe e defender a emancipação das mulheres, como parte da luta comum contra o capitalismo.

Somente uma transformação profunda das relações sociais, que retire a riqueza das mãos de uma minoria e a coloque a serviço da maioria, pode abrir caminho para a verdadeira emancipação das mulheres. É nesse sentido que a luta contra o feminicídio, levada até o fim, se conecta à luta por uma sociedade socialista.

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